Anuncio-senhora-pg-dupla_1

Ora pois!!!

Aparecida Luzia de Mello*

Ela vinha sofrendo muito com um conflito interno, que se agravava próximo ao mês de maio, mês das mães, das noivas, do amor…

Quando ela via as propagandas do dia das mães, aquilo a perturbava muito. Que mãe era aquela que eles pintavam nas propagandas que ela não conhecera.

Embora sua mãe ainda fosse viva, ela não reconhecia naquela figura a mãe que simbolizava o amor.

Agora que se via compelida a cuidar da mãe com Alzheimer avançado tudo ficava mais difícil. Nas crises a mãe a ameaçava de morte, ela ficava revoltada e fazia que tinha que ser feito, mas não tinha amor. Isto a torturava.

Começou a refletir o porquê daquilo. E descobriu muita coisa.

Descobriu que a propaganda visa vender, vender e vender. Portanto quanto mais enfeitarem o pavão mais iludem as pessoas e mais vendem.

Ao observar ao seu redor percebeu que existe mãe de todo tipo. Existe mães que realmente servem de exemplo, dedicadas, amorosas, justas e que educam os filhos para se tornarem pessoas de bem.

Outras são possessivas, exageradas, controlam tudo e se o filho não perceber e se rebelar, nunca vão crescer. Conhecia alguém de suas vizinhanças assim. Um homem de mais de 50 anos, nunca havia trabalhado, a mãe cuidava de tudo.

Viúva de um militar, ainda com o filho no colo, apegou-se ao filho e esqueceu o mundo a sua volta não o deixando crescer. Com a pensão polpuda, sustentava a casa. Ele nunca trabalhou, vivia no bem bom, comia do bom e do melhor, tinha roupas de marca, carro de luxo, não estudava, levantava a hora que queria, desdenhava das pessoas e não tinha relacionamento afetivo com nenhuma mulher. A casa era própria.

Quando a mãe morreu, a pensão acabou, ele se perdeu. Logo se viu sem a pensão, sem preparo para a vida. Gastou o que estava no banco, depois teve que vender o carro e em seguida a casa para comer.

Pasmem, tornou-se andarilho, sem ter onde ficar. Choramingava maldizendo a vida e reclamava a ausência da mãe.

Outras mães são indiferentes, cuidam, mas não percebem a necessidade afetiva e emocional do filho. Dão banho, comida, estudo e só. Criam seres incompletos.

Algumas são violentas, agridem, física e emocionalmente. Deixam os filhos aos cuidados de outros sem necessidade. Exploram financeiramente quando possível. Outras matam, de fome, frio, abandono, exploração. E finalmente algumas nem deixam nascer, abortam. Porque mãe é antes de mais nada um ser humano, um espírito encarnado em busca da evolução. Portanto, tem defeitos e virtudes como todo ser.

Voltando a sua trajetória de vida. Ela se deu conta que a mãe e o pai são tidos como guerreiros entre os familiares, verdadeiros heróis, aliás os irmãos também. Portugueses da gema, embarcaram para o Brasil em busca de oportunidades num período dificílimo. Vieram num transatlântico, onde as condições da viagem eram precárias. Passaram, fome, frio, calor, enjoo, mas sobreviveram. Pai, mãe, irmão de 4 anos e irmã de 3.

Na agricultura atuaram por 5 anos, condições impostas na época para terem as passagens subsidiadas pelo governo brasileiro. Trouxeram algum recurso, para investir nos negócios e tão logo estavam livres do compromisso legal firmado em contrato com o cafeicultor, rumaram com destino à capital. Montaram um armazém ou empório e se deram bem.

O que a mulher não esperava era uma nova gravidez. Rejeitada desde a barriga, ela nasceu. Nasceu brasileira e cresceu brasileira, brasileira e rejeitada, principalmente pela mãe. Mulher que via no povo brasileiro, um povo fraco, preguiçoso e malandro a exemplo do Zé Carioca, personagem do Walt Disney.

Os irmãos que conviveram com mais assiduidade com a colônia portuguesa, ali encontraram seus cônjuges, e ela a brasileira – adivinhem – se apaixonou por um brasileiro. Por um brasileiro pobre. Mais um fator de rejeição para ela.

Assim foi a vida inteira e agora ela se via compelida a ter que cuidar, dividindo com os irmãos, os cuidados da velha mãe demenciada.

Conseguiu dissociar a mãe da imagem santificada das propagandas. Mas a dor, ah… esta continuava firme.

Buscou ajuda terapêutica e espiritual. Devagar foi entendendo seu papel. Aceitando sua condição. Entendendo que o amor não se impõe, acontece. Perdoando aquela que não soube lhe amar.

Na terapia entendeu o sofrimento da mãe que vinha de uma educação completamente diferente da atual. Enxergou que a mãe não era muito melhor, como ela achava, para os irmãos, que eles também haviam sofrido nas mãos dela, mulher muito autoritária, que se deixaram, em muitos momentos, serem manipulados para evitar conflitos.

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.  E-mail: cidamell@uol.com.br

Cida Mello é mestre em Políticas Sociais.
E-mail: cidamell@uol.com.br

Que os irmãos a amavam como irmã e a tratavam com muito carinho, que ela e irmã tinham muitas afinidades, formavam uma verdadeira família.

Encontrou apoio na religião. Foi ali que aprendeu a aceitar a mãe como era, a agradecer a ela em pensamento por lhe ter dado a vida, a perdoa-la pela ignorância e a ama-la como nosso próximo deve ser amado.

Mas sobretudo, conseguiu ser e continua sendo, a mãe amorosa, dedicada, carinhosa, amiga e companheira para suas filhas, mãe que ela não teve e queria ter tido. Além disto, ama sua nacionalidade e procura ser honesta, integra, pontual, responsável, para provar a todo momento que brasileiro também é gente do bem!

OBS.: há uma semana do dia das mães, a velha senhora partiu…

* Mestre em Políticas Sociais.

Email: cidamell@uol.com.br

Compartilhe esse texto

Share to Google Buzz
Share to Google Plus
Share to LiveJournal
Share to Yandex