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Alessandra Vieira Fonseca*

Alessandra Vieira Fonseca é consultora organizacional, instrutora e palestrante especializada em Gestão de Pessoas e Recursos Humanos. Atua na área organizacional desde 1993, é sócia-proprietária da ConsultaRH - Coaching e Treinamentos e coach pela Sociedade Brasileira de Coaching - Executive Coach & Alpha Analist, Personal & Professional Coach e credenciada ao CouchSource (EUA).

Alessandra Vieira Fonseca é consultora organizacional, instrutora e palestrante especializada em Gestão de Pessoas e Recursos Humanos. Atua na área organizacional desde 1993, é sócia-proprietária da ConsultaRH – Coaching e Treinamentos e coach pela Sociedade Brasileira de Coaching – Executive Coach & Alpha Analist, Personal & Professional Coach e credenciada ao CouchSource (EUA).

Nas rodas de conversas no trabalho, no café, no happy hour, na academia, na padaria, em todos os lugares, o assunto é inevitável: a atual situação política do país. Mas um dos pontos que têm me chamado muita atenção – e se tornado cada vez mais recorrente – é a indignação de pessoas que viam na figura do ex-presidente Lula um líder inspirador, com um grande potencial de mudança, e que agora se sentem traídas, de certa forma, por todos os escândalos que estão sendo denunciados. E esse, para mim, já é um daqueles cases clássicos para estudos e debates nas aulas de liderança: como um herói se transforma em vilão para milhões de pessoas.

Mas antes é importante esclarecer que este artigo não tem nenhuma pretensão política e partidária ou qualquer ideia de estimular discussões nesse sentido. Independente do atual cenário e do que está sendo discutido no âmbito político, nosso foco aqui será analisar e refletir sobre o papel, as responsabilidades e os riscos de ser um líder que engaja, que inspira, motiva e que, se não sustentar um discurso coerente com a prática, pode incendiar uma revolta justamente por despertar sentimentos como traição em seus liderados.

Vivemos atualmente um cenário no qual podemos aprender muito como líderes. A equação é simples: Lula é o líder que conquistou a maior popularidade em menor tempo na política brasileira. Considerando que vivemos em uma democracia, na qual somos livres para escolher nossos líderes partidários, esse fato é ainda mais relevante – e, justamente por isso, justifica nossa reflexão.

Um dos maiores trunfos de um líder é seu caráter. A grande questão é que o caráter depende da validação da sociedade e, principalmente, dos seus liderados; afinal, o que é certo para você pode não ser visto como certo por esses grupos, e é aí que está uma grande armadilha. Se a equipe não mais acreditar no caráter desse líder, o risco de revolta é grande – e isso podemos ver diariamente nos discursos de brasileiros indignados, com a sensação de terem sido enganados por uma liderança que, na visão deles, foi mentirosa. A consequência disso tudo você já sabe: adeus, credibilidade. Líderes admirados geralmente têm valores pessoais coesos e consistentes, conectados aos dos seus liderados, gerando uma identificação fiel e construtiva para ambos.

Um outro ponto importante: independente da minha ou da sua opinião política, é inegável que Lula é um dos maiores comunicadores desse país. Mais uma vez, não estou aqui para avaliar ou julgar o conteúdo e a forma dessa comunicação, mas é indiscutível que o ex-presidente é um exemplo e uma inspiração na arte de se comunicar, principalmente com grandes massas. Ele sabe escolher a melhor linguagem, as palavras certas, o tom ideal e as metáforas mais simples e inteligentes para impactar sua audiência. E esse poder de persuasão por meio da comunicação é uma ferramenta muito poderosa, que pode ser usada tanto para o bem como para o mal. No caso específico de Lula, seu carisma foi muito bem empregado para construir e alavancar uma imagem humilde, batalhadora, sonhadora, justa, igualitária, dentre outras, criando identificação com a maioria dos brasileiros. Tenho certeza que você, assim como eu, conhece inúmeras pessoas que, mesmo sendo contrárias ao partido do ex-presidente, admiram sua oratória e capacidade de mobilização.

A questão é que não podemos apenas nos amparar em nossos pontos fortes. Um líder deve desenvolver características de comportamento e competências que ampliem sua capacidade de liderança, não sendo necessário utilizar o ponto forte como único sustentador de resultados – até porque, como sabemos, em algum momento ele não será mais suficiente, principalmente diante de um momento de crise como o atual. Independente do seu setor de atuação, da sua profissão, da sua idade ou experiência, momentos de incertezas chegarão, meu caro líder, e são nesses períodos que é imprescindível usarmos nossas múltiplas competências para obter sucesso. Habilidades como gestão de conflitos e condução de negociações, delegação e empowerment, capacidade de ouvir, flexibilidade e abertura a mudanças organizacionais, formação e motivação de equipes eficazes, tomada de decisão e melhora dos relacionamentos interpessoais devem ser trabalhadas, desenvolvidas, praticadas e constantemente aprimoradas nesse processo.

O poder de influência de um líder também é uma ferramenta que, quando bem empregada, pode beneficiar todos os lados de uma negociação. Mais uma vez temos em Lula um exemplo típico: o ex-presidente usou seu prestígio e popularidade para estimular a eleição da atual presidente, Dilma, motivando uma continuidade da sua gestão. Lula sempre teve um perfil de liderança tão carismático que era capaz de emocionar eleitores, o que pode ter resultado em muitos votos vindos “do coração” ao invés de vindos “da razão”. Quando há uma identificação emocional do líder com os liderados, os argumentos e as análises racionais muitas vezes perdem forças e dão lugar a uma admiração às vezes cega, surda e muda. E se o líder não tiver caráter, pode passar a abusar dos seus poderes, pressupondo a ignorância dos seus liderados.

Ser um bom líder é ser focado em soluções. Ouvi isso a vida toda. Por isso acredito que a saída para um líder que esteja enfrentando acusações, sejam políticas ou de qualquer outra natureza, seja se defender com argumentos e provas que refutam essas acusações. A oratória, por exemplo, não pode mais ser usada como único ponto forte. Ela pode até influenciar ainda alguns fiéis seguidores, mas boa parte deles, descrentes, exigem uma nova e efetiva postura.

Ser um bom líder é ser participativo, focado em aprendizagem constante, é evoluir por meio do feedback. Se você é um líder, em qualquer esfera, aproveite esse momento para refletir sobre seu papel. Lembre-se que a realidade política, social e econômica que estamos vivendo é criada por cada um de nós e, por isso, precisamos repensar nossos hábitos, comportamentos e crenças. Nossos políticos e todos os envolvidos nos escândalos recentes devem ser julgados e condenados, claro, mas sabemos que essa é apenas a ponta do iceberg. Enquanto cada líder ou mesmo cada brasileiro não repensar seu caráter, sua ética, suas “pequenas corrupções” e responsabilidades e as consequências disso tudo, não evoluiremos como nação.

*Alessandra Vieira Fonseca

Coach, Palestrante e Consultora Organizacional. Sócia-proprietária da ConsultaRH, de Brasília.

 

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