Caramujo africano: uma perspectiva da implantação dessa espécie exótica em ambientes brasileiros

CARAMUJO AFRICANO: UMA PERSPECTIVA DA IMPLANTAÇÃO DESSA ESPÉCIE EXÓTICA EM AMBIENTES BRASILEIROS

Elida Lucia da Cunha[1]*

ELIDA LUCIA DA CUNHA – Especialista em Educação Ambiental e Sanitária, pela Faculdade Católica de Anápolis. Graduada em Ciências Biológicas, pela Universidade Estadual de Goiás – UEG. Docente na Faculdade do Norte Goiano – FNG, Universidade Estadual de Goiás – UEG e colégio Impacto, Porangatu-GO. Email: elidabio@live.com

Resumo: Tendo em vista o grande potencial de transmissão de parasitas do Achantina fulica, tem-se a necessidade de investigar como ocorreu a implantação e fácil adaptação dessa espécie em habitats brasileiros. O presente estudo é uma revisão de literatura, a qual teve como meio de busca a plataforma CAPS, Sciello e outros buscadores de artigos científicos, além de livros impressos e virtuais. Alguns fatores como a diversidade de hábitos alimentes, serve como indicador do sucesso na ocupação das terras brasileiras, o que consequentemente interfere, de modo preocupante, no equilíbrio do ecossistema.

Palavras chaves: Achantina fulica, Parasita, Adaptação, Habitat brasileiro.

Abstract: Given the great potential for transmission Achantina fulica parasites, there is the need to investigate as was the implementation and easy adaptation of this species in Brazilian habitats. This study is a literature review, which was to search through the CAPS platform Sciello and other seekers of scientific articles , as well as printed and virtual books. Some factors such as the diversity of aliments habits , serves as a success indicator in the occupation of Brazilian land , which consequently interferes , disturbingly , the ecosystem balance.

Key words: Achantina fulica. Parasite. Adaptation. Brazilian habitat.

Introdução

O A. fulica, conhecido popularmente como caramujo gigante africano ou caracol africano, é uma espécie de molusco originária da África que se espalhou por grande parte do mundo. Essa espécie exótica adaptou-se muito bem ao Brasil, espalhando-se por várias áreas do país.

O caramujo africano (A. fulica) atualmente encontra-se espalhado por grande parte do território nacional sendo que os estados mais afetados encontram nas regiões sul e sudeste. Este animal é hospedeiro intermediário de nematódeos de importância médica e, além disso, pode trazer prejuízos ambientais para o ecossistema onde está presente (SILVA 2009). O molusco exótico A. fulica é classificado como uma das piores espécies invasoras do mundo, sendo considerado sério problema ambiental, de saúde pública e econômico (FISCHER; COLLEY 2004).

Espécies exóticas causam inúmeros malefícios nos locais aos quais são inseridos, podem causar alterações nas composições desses ambientes, tornando-os mais homogêneos. A globalização trouxe inúmeras vantagens para o mundo, isso é inegável, no entanto a mesma agravou ainda mais a degradação do planeta, e traz consigo atualmente diversos problemas sócio ambientais, um deles é a inserção de espécies exóticas em outros ambientes, visando retorno financeiro, caso em que se encaixa a dispersão do A. fulica (MOONEY; CLELAND, 2001 apud FISCHER, COLLEY, 2004).

Região nativa da espécie

Essa espécie de molusco é oriunda da África deste fato surgiu um de seus nomes populares: caramujo africano.

A espécie é natural do continente africano, mas na atualidade está amplamente disseminada pela Ásia, Oceania e Europa. Os primeiros registros da ocorrência desses caramujos no continente americano remontam ao fim da segunda guerra mundial, inicialmente na Califórnia, e logo em seguida na Florida (TELES, FONTES, 2002 p. 03).

A África sempre atuou como grande fornecedora de matéria prima para todo o globo, desse continente também são oriundas algumas espécies exóticas, que podem ser inseridas em outros ambientes visando retorno financeiro.

Introdução e adaptação no Brasil e no mundo

Indivíduos da espécie A. fulica, possuem um processo de reprodução e crescimento muito rápido, este fato influenciou sua dispersão pelo mundo, que foi realizada devido ao animal pertencer à mesma classe do escargot (Helix aspersa), uma iguaria da culinária francesa, foi introduzido em inúmeros países visando comércio no setor gastronômico infelizmente o processo fracassou dos países em que foi realizado.

O caramujo-africano foi relatado pela primeira vez, fora de habitat natural, em 1803, na Ilha Maurício (localizada a cerca de 800 km a leste da ilha de Madagascar, costa leste do continente africano), sendo disseminado para diversos países como Índia, Ceilão, Malásia, Austrália, Gana, Costa do Marfim, Japão, Estados Unidos, Indonésia, diversos países insulares, inclusive o Hawaí, e outros (COELHO, 2005). A disseminação desse animal tornou-se fácil, pois o mesmo possui características adaptativas excelentes.

De acordo com Werle (2011), o caramujo africano percorre no mesmo período de tempo uma distância muito superior ao escargot, por isso sua musculatura é mais desenvolvida, ocasionando uma diferença na textura de sua carne. As características que tornaram esse animal perfeito para comércio, reprodução tamanho, também influenciaram no processo de contaminação biológica.

Uma das principais características favoráveis à criação do A. fulica é sua reprodução, fator que curiosamente também influenciou a falha em seu cultivo comercial, pois os criadores não conseguiram um mercado consumidor para escoar a produção, com isso os gastos foram aumentado ao ponto que a comercialização tornou- se inviável, devido aos altos cultos de investimento e o falta de retorno, os criadores descartaram seus exemplares de A. fulica na natureza de maneira imprudente, adaptados ao clima brasileiro os caramujos não encontraram dificuldades para reproduzirem (GARCIA; CHAVEIRO 2011 p. 01).

A falha na comercialização desse molusco pode também ser atribuída ao fator cultural, pois nos ambientes nos quais foi introduzido a população não possuía o habito de apreciá-lo na culinária. Contribuindo para o fracasso da sua introdução na culinária local, apresentaram-se características negativas como sabor, textura e aspecto da carne deste caracol. (GARCIA; CHAVEIRO, 2011).

Todos esses fatores aliados à cultura local tornou a introdução desse gastrópode na culinária, um fracasso. Inúmeros fatores influenciaram no sucesso da infestação do caramujo africano pelo mundo, estes animais possuem hábitos generalistas, uma elevada resistência as variáveis ambientais, além de um potencial reprodutivo elevadíssimo, esses fatores contribuíram para este problema ambiental (RAUT; BARKER 2002 apud FISCHER; COLLEY 2005).

A introdução do A. fulica em território brasileiro se deu pelos mesmos motivos que este animal foi implantado em diversos outros países, a tentativa de torná-lo um substituto viável ao escargot, a intenção dos criadores era fazer do Brasil o número um na exportação dessa iguaria, no entanto esse processo falhou e o A. fulica tornou-se motivo de preocupação para órgão ambientais e de saúde.

A infestação desse animal no Brasil, foi antecedida pelo contrabando de exemplares para uma exposição agropecuária em Curitiba, no Paraná em 1988, (TELES; FONTES, 2002). Este processo de inserção visava a venda de matrizes para a criação e comercialização do molusco, que competiria no mercado gastronômico com “escargot” (Helix aspersa), pois o caramujo africano possuía características biológicas mais vantajosas, devido a falha ocorrida na comercialização, as criações foram abandonadas e atualmente o animal encontra-se presente nos estados do AM, BA, ES, GO, MA, MG, PA, PB, PR, PI, RJ, RO, SC, SP e DF. (COELHO, 2005)

Os responsáveis pela disseminação da espécie entre os criadores traziam consigo promessas de lucro rápido, incentivando bastante a criação dos moluscos em cativeiro, já prevendo que o Brasil tinha potencial para se tornar o maior exportador da iguaria.

De acordo com a Lei 9605/98 (Lei de Crimes Ambientais); Decreto 3179/99 Art. 31, introduzir espécime animal no país, sem parecer técnico oficial favorável e licença expedida por autoridade competente: Pena – detenção, de três meses a um ano e multa. Na maioria dos locais que esses animais foram introduzidos o processo aconteceu de maneira ilegal, formulando um grave crime ambiental segundo a lei acima citada. O início dessa disseminação no Brasil, em um processo que se encaixa como crime ambiental.

Atualmente o local no Brasil onde este animal está mais presente é o Estado do Paraná, onde este molusco encontra-se distribuído em todo o litoral e também na maioria das cidades do interior. (KOSLOSKI; FISCHER 2002; SIMIÃO 2003, apud FISHER; COLLEY 2005).

O abandono das criações ocasionou o que atualmente é um dos principais problemas no quesito de impacto sócio ambiental. O caso de infestação do caramujo gigante africano no Brasil encontra-se em estado alarmante, pois com o fracasso de sua comercialização assim, como aconteceu em outros locais, as culturas foram abandonadas. Em nosso país a infestação se estendeu rapidamente devido este animal estar muito bem adaptado ao clima tropical brasileiro que se assemelha ao clima do qual a espécie é nativa (COELHO, 2005).

Reprodução e hábitos alimentares

A reprodução desses animais é um dos principais fatores contribuintes para sua dispersão e adaptação nos ambientes nos quais foram inseridos. De acordo com Garcia; Chaveiro (2011), esse tipo de animal é hermafrodita o que propicia uma dupla fecundação, logo cada exemplar dessa espécie pode conceber milhões de descendentes, estes por sua vez podem povoar terrenos abandonados como, lotes baldios, depósitos de lixo, quintais, dentre outros locais. Quanto à postura de ovos do A. fulica o número varia entre 50 a 500 ovos por desova, os ovos medem de 5,6 mm de comprimento por 4,5 mm de largura, hibernam com temperaturas inferiores a 10°C, a fecundação é cruzada (ocorre mutuamente) (COELHO, 2005 p. 1, 2).

Está constatado que estes gastrópodes são dotados de uma ótima capacidade reprodutiva. O número exato da postura não é bem definido, sendo variável entre 4 a 5 desovas anuais, de acordo com os relatos de Coelho, (2005) e Fisher; Colley (2004). Esse molusco pode causar um prejuízo muito grande ao meio ambiente que foi inserido. No meio ambiente o animal compete diretamente com as espécies nativas, que saem em desvantagem, por já possuírem um predador natural que faz o controle, e hábitos alimentares especialistas. Figura 06 representa caracol nativo em vida na natureza.

De acordo com Garcia; Chaveiro (2011), por serem herbívoros esses animais podem alimentar-se não só plantas as eliminando, mas também na ausência de recursos, ingerir qualquer material que encontrem na natureza. Em casos extremos de falta de recursos alimentícios este animal pode ingerir matérias como plástico, papelão etc.

Considerações finais

O caramujo africano é sem sombra de dúvida uma espécie com fácil adaptação no habitat tropical do Brasil, a prova disso é a existência de exemplares em várias regiões do país. Ao levar em consideração a falta de predadores naturais, a inespecificidade nos hábitos alimentares e o rápido potencial reprodutivo, essa espécie exótica torna-se uma verdadeira ameaça tanto para o ecossistema, quanto para a saúde pública. Todo o transtorno gerado, a partir da implantação do A. fulica, é em decorrência da irresponsabilidade humana acoplado ao desejo capitalista.

Referências bibliográficas

COLLEY, E. Medidas de controle do Achatina fulica. p. 203-228. In: FISCHER, M.L.  COSTA, L.C.M. O Caramujo Gigante Africano A. fulica no Brasil. Curitiba: Editora Champagnat – PUCPR, Coleção Meio Ambiente. 2010.

FISCHER, Marta L.; COLLEY, Eduardo. DIAGNÓSTICO DA OCORRÊNCIA DO CARAMUJO GIGANTE AFRICANO Achatina fulica BOWDICH, 1822 NA APA DE GUARAQUEÇABA, PARANÁ, BRASIL. Revista Estudos de Biologia, v. 26, n.54, p. 43-50, Jan./Mar. 2004. Guaraqueçaba, Paraná, Brasil.

FISHER, Marta Luciane; COLLEY, Eduardo. ESPÉCIE INVASORA EM RESERVAS NATURAIS: CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO DE ACHATINA FULICA BOWDICH, 1822 (MOLLUSCA – ACHATINIDAE) NA ILHA RASA, GUARAQUEÇABA, PARANÁ, BRASIL. Ilha Rasa, Guaraqueçaba, Paraná, Brasil. Biota Neotropica, São Paulo, V.5, n.1, 2005.

SILVA, Patrícia do Socorro de Campos da. Conhecimento sobre o caramujo africano Achatina fulica Bowdich, 1822 entre os estudantes do Ensino Fundamental moradores da Vila do Abraão, Ilha Grande, Angra dos Reis, RJ – Brasil. Rio de Janeiro 2009.

TELES, Horacio Manuel Santana; FONTES, Luiz Roberto. Implicações da introdução e dispersão de Achatina fulica Bowdich, 1822 no Brasil. Boletim do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, 12 (1): 3-5. 2002.

COELHO, Leila Morais. Informe técnico para o controle do caramujo africano (Achatina fulica, Bowdch 1822 em Goiás. Goiânia: AGENCIARURAL, 2005. AGENCIA RURAL. Documento, 4).

GARCIA, Aline Neri; CHAVEIRO, Eguimar Felício. A INVASÃO PERIGOSA DO CARAMUJO AFRICANO: DESAFIOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL DIANTE DO DESEQUILÍBRIO AMBIENTAL. II SEAT – Simpósio de Educação Ambiental e Transdisciplinaridade UFG / IESA / NUPEAT – Goiânia, maio de 2011.

GARCIA, R. N.; PEREIRA, A. C.; DEGOBI, B. L.; MENEGAT, D.; FARENZENA, E.; MAURICIO, M.; MENEGOL, R.; DISTÉFANO, E. G.; ALMEIDA, E. B. Agentes Mirins de Saúde: uma estratégia para formar multiplicadores de conhecimento. Revista Sul-Brasileira de odontologia, vol. 6, n. 1, p. 13-19, mar. 2009.

KOSLOSKI, M. A; FISCHER, M. L. 2002. Primeira ocorrência de Achatina fulica (Bowdich, 1822) no litoral do Estado do Paraná (Mollusca; Stylommatophora; Achatinidae). Estudos de Biologia, 24: 65 – 69.

* Especialista em Educação Ambiental e Sanitária, pela Faculdade Católica de Anápolis. Graduada em Ciências Biológicas, pela Universidade Estadual de Goiás – UEG. Docente na Faculdade do Norte Goiano – FNG, Universidade Estadual de Goiás – UEG e colégio Impacto, Porangatu-GO. Email: elidabio@live.com

 

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