paralerosamba
por Zeh Gustavo

 

ao Paulinho da Viola que acompanha todos os sambistas

 

Tenso. Desfavorável. Um abafa num Rio de outono-inferno, calor alegremente soturno, derrete-miolos. A cidade exala qual açougue. No matadoidos do caldo urbano assa nossa carne misturada, rastegue somos todos andrajos na cidade-sítio de bairros-baldeações com seu trânsito de veículos débeis sob siglas pelos quais desfiamos nosso rosário de pés-rapados e bolsos extorquidos. E aquela, mais uma guigue por se fazer. Prato do dia: ensopado de restolhos. A direção: a velha senhorita-patrona, dona Lapa.

Maneca e suas responsas, a superpesarem nos quengos. E nos braços que lutam pela sobrevivência musical num pano de fundo quase findo, horizonte vindouro é magro. Pedestais, dois mics, um pequeno amplificador – a trouxa. Ou: trota por aí, o trouxa! Claro, e mais quatro músicos (e um público) para acalentar, além dos sonhos que já respiram quase vagos. E ainda havia o patronato do pequeno-comércio, em geral pequeno também nas próprias cabeçorras e olhos de ver mundo e (sem?) arte.

Mas, Maneca tentaria não desafinar. No último laço recorria ao coro destemido, eco de dentro, voz não muda que lhe cantasse ainda, em bravo uníssono: vai, continua, filadapulta!

A coisa, ela andava coisada. Cada samba um episódio, um abraço no tédio-barulheira em volta. A Lapa se corou de zés-ruelas, pinga-tribos com suas otarices, conservões do industriê com que se entopem as audiências resilientes, moldadas para uma espécie única de surdez, aquela do desgosto, do insosso, da esparrela com que falam por aí de um pseudoecletismo quase religioso.

– Eu gosto de tudo um pouco. Sou eclé…

Se ouve, Maneca interrompe: – Gosta é de nada, é mazé de porcaria nenhuma, do consagrado verbo ser de bosta! Maneca, o noiado, nervosinho, sensivão. – Sifudê!, blasfemaria ainda. Caminha e tropeça, o Maneca. Mais tropeça. Já na Uruguaiana, descido da Saúde onde fizera seu pouso, noite anterior. Tocadina no Morro da Conceição de onde já estrilam, vez-outra-sempre, uns tirinhos, trilha comum que carioca que reze ou não reze testemunha ouvido-coração interiormente, quanto mais dependendo da sua fortuna de chances. Tocadina bacana, buliçosa – não deu foi tutu, somente uns aplausos, de agrado. Caiu por lá para amanhecer mais feliz.

E dava. Ou ia do humor. E dos aporrinhos. O telefone lhe zapzapeava:

– Ó a hora, hein, Maneca!

Lá vai Maneca, Manecão e suas tralhas, no sacolejo ambos de quem evita os ônibus, levados carrinheira-de-mão adiante, nos atrasos de um domingão à tarde.

Já se contavam uns seis, sete anos. Trocara o incerto, a empregaria de escritório em estribório, de telemárquetim em telefarsa – pelo mais incerto. Para viver da música. Caiu dentro, fita de cantador. Manda brasa, Maneca, lhe incentivavam os bebuns mais chegados. Sapecava ioiô num sambas mais quebrados, principalmente os de tom menor, os ditos lados bê, alguns sincopados, até se arriscava nuns breques. Não bastasse o apelido, nisso até lhe tascavam um: – Cuidado, Manequeira!, em referência ao Morenga da Silva eternizador do gênero. O lance é que era desenturmado do povo das boas. Dito amador, alcunhado ninguém, radical, gritador. Que viesse, o que pintasse – mas pouco de lhe considerarem pagar um ganha-mé. E pão dorminhocado.

Maneca, diante do provável de seu esforço resultar fracassamento, deu de ajuntar seus tinos. Abrigou-se da brecha, arranhou do próprio disco. – Querem cantarolar na casa bonitinha da moda? Eu vou de espelunca! Virou-se, desvirou-se. Aprontalhou.

Havia-lhe umas amizades de copo e de tocaia musical. Outros, uns na margem do operacional do sambalelê, uns tantos nem. Pôs geral pra tocar, agruparam-se. Fundiram os sons: Alicateia no cavaco; uma viola de seis com suas baixezas de sete, na batuta do Hélio Piranha; no pandeiro, meio assim-assim, aprendendo, ia o Jurega; no surdo e no surto pauleiros – e ele tocava de pé, com talabarte! –, o querido Anjo Coroa. Até nos nomes dos ditos cujos se apresentava um péssimo fado, nesta era do samba limpinho, de preferência proseado com aprumados nome e sobrenome. Ninguém pode explicar seus encontros.

Na voz, um Maneca: duro na queda. E nem tão trabalhado assim na técnica-gogó. Cara-e-coragem, vadio, arisco, maltrapilho, em suma disposto.

O amontoado foi alcançando cuspe de microfone. Inventariava, na sua maluqueza: pinçava das sombras do samba seu repertório, punha pra roda musicados que iam do baiano Ederaldo Gentil ao paulista Geraldo Filme; terreirava pelas velhas-guardas cariocas, emendando tecia loas aos não-tocados nas rodinhas: Sérgio Ricardo, Batatinha, Miguel Gustavo, inclusivemente eles próprios… Fuzuê, despagode, faceironices.

E em plena Lapa, que fervilhava, àquele relativamente breve tempo já de antanho. Joaquim Silva, os Arcos, Mem de Sá, Riachuelo, transversais: o samba escorria pelos casarios. Sonzeira. No centrão da festa, a galera que gozava de um apronto, de uma production¸ de um apelo num meio que disfarçado mainstream que se forjava perdurar, venda casada de arte com entretenimento. À anarcaria musical do samba, aos mais tergiversadores ou ainda despreparados para as artimanhas do joguete principal restava a opção das casas menores, dos barzinhos mais furrequitas contudo honestos, ou mesmo daqueles metidos a pés-sujos-cult-cachaça-das-Minas.

A vaca porém foi desengordando, até se embezerrar. Ficou foi feio, parco nas oportunitês. Ao menos para os que insistiram. Muitos picaram suas mulinhas para outro ritmo. Tirantes as lojas de produtos musicais para turistas – herdadas por aqueles já consolidados no cenarião –, encolheram-se os mafuás. Brecha virou beco que tornou muro que solapou na cabeça dos Manecas da lida do bom samba pra chamar de seu.

Maneca no entanto desparou. Movimentava. Desenvolveu-se ao máximo nas encheções de linguiça dos bastibas, todo liderante, mesmo contra as vontades internas de procrastinar, só cantar, deixar pomba-rolar; torneou-se nos mete-peitos de arrumar lugar pra tocar, exercer convencimentos, bolar cachês nem sempre tão digestos. Na pura ventura.

Mas aí… De um tempo pra cá, coisa de um, dois-anos: vinha sendo é engolido! De garfa e colherada, direto no prato fundo. Pouco show, grana murcha. Perdia até os músicos fiéis, que o deixavam entregue aos subs de guigues. Que fazer?

Pensa no disso um tudo, pelo destrajeto. Farfalha, pela aspereza da Carioca, pisa depois uma Lavradio alvoroçada. Perpassa os antiquários e até sua vida já velhusca, ele já tangendo os cinquentinha – começou foi tarde! (Perdeu o bonde ou ele que derrapou?!) Cavuca coisa feia nos raciocinares. Fala pra si, só, sem companhia, o coro é mudo ainda que a marcha, destemida. Oco de fome dá-lhe uma bolacha nas ventas: preocupa-se é com o caso, nhô Maneca, seu barafunda! Para um pouco essa cuca senão tu te estrepa!

– Um enroladinho de salsicha aí, Freguesão.

E um guaraná, natural como nonada. Um tanto de doce, com um salgado pra rebater. É a vida que lhe atiça um sabor de sangue intenso que desliza é ardente pelas veias. Tapa um dos buracos. O outro só um bom samba há de cuidar preencher.

Chega na Joaquim Silva. Conseguiu um espacinho, de volta – mudando tudo? Sabe lá. Um retorno à casa, no pulmão de uma tarde-noite lapiana? Cantará qual nunca!

Monta o quase-pouco de som: dois amplis, só cavaco, violão e voz plugados.

– A que ponto não se chega, cidadão! Me passa essa alegria transparente aí, camará.

Leva o copo até a mesa. Olha em torno. Repara agora que não mais enxerga os rostos tolos que lhe perguntam: por quê? pra quê? Só lhe resta seguir. Não verga.

Roda pronta, o samba vai começar. Rumo ao futuro que não lhe desvenda o nome, nem o riso, nem o drama. Bebe da pinga, prata. Certo de seu coração mais puro logo assim de exposta voz, canto turvo que não arrega de seu turno, conto-história curto, que repercute, geme, fere:

– Dá um dó maior, Alicateia.

Torce a rocha fria. Sem escudo, ora lançado por terra.

In: SILVEIRA, Júlio; LAUS, Egeu. (Org.). Lapalê: para ler o samba. Rio de Janeiro: Ímã Editorial/Livros de Criação, 2016. p. 15-18.

Conto vencedor do Concurso Lefê Almeida do Festival Lapalê 2016. A coletânea de que faz parte o texto conta ainda com ensaios e contos de Edigar de Alencar, Stéphane Chao, Carlos Sandroni, Nei Lopes, André Diniz, Lúcio Rangel, Mic Paiva, Luiz Fernando Vianna, Alice Duarte Silva de Campos, Dulcinéia Nunes Gomes, Francisco Duarte Silva, Nelson Matos, Luís Pimentel, Mario Lago, Flavio Aniceto, Fernanda Silveira, Leo Feijó, Marcus Wagner, Hernani de Irajá e Lefê Almeida.

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