OS FANTASMAS DA CIENCIA

OS FANTASMAS DA CIÊNCIA

Margarete Hülsendeger

A ciência tira a sabedoria das pessoas e costuma convertê-las em fantasmas carregados de conhecimentos.

Miguel Unamuno

Você acredita em fantasmas? E em bruxas? Não. Talvez. No primeiro, mas não no segundo. Vice-versa. Não tem a menor ideia de onde estou querendo chegar. Para não deixá-lo mais nervoso, farei uma última pergunta: você sabia que a Física acredita em fantasmas?

Chocado? Não fique. Seu mundo ou o mundo que você conhece, está seguro, pois quem defende a existência de tais “entidades” é a Mecânica Quântica. Sim, aquela área da Física que poucos entendem e na qual ocorrem fenômenos absurdamente esquisitos e surreais. Um desses estranhos eventos chama-se “entrelaçamento quântico”.

Imagine dois irmãos: um vive em Porto Alegre e outro em Manaus. Quando o que reside em Porto Alegre piscar, no mesmo instante – repito, no mesmo instante! – o morador de Manaus também piscará. Não há espera, não há aviso ou qualquer tipo de combinação prévia. Inacreditável? Pode ser, mas no universo quântico esse é um comportamento absolutamente “normal”. As partículas  subatômicas (como prótons e elétrons), mesmo estando separadas por grandes distâncias, trocam informações sem que exista entre elas um intervalo de tempo que possa ser medido.

No início muitos físicos, entre eles Albert Einstein, julgavam esse fenômeno um verdadeiro absurdo. Para Einstein, isso não era Ciência, e muito menos Física. Ele costumava debochar de seus colegas chamando esse evento de uma “ação fantasmagórica”.

Segundo a Teoria da Relatividade, a velocidade limite para qualquer corpo é a velocidade da luz (300.000 km/s). Nada pode se mover com uma velocidade maior do que ela. Nada! Como então Einstein poderia aceitar essa troca de informações instantânea? Afinal, para a luz percorrer uma determinada distância é preciso que um tempo, por menor que seja, transcorra. E no caso do entrelaçamento quântico não há nenhum intervalo de tempo!

Mas a loucura não para por aí. A “revolta” de Einstein contra a Mecânica Quântica não era gratuita. O homem tinha os seus motivos para não aceitar com tranquilidade essa nova Física. O outro “absurdo”, pelo menos para as mentes mais deterministas, é o Princípio da Incerteza, também chamado de Princípio de Heisenberg em homenagem ao seu autor, o físico alemão Werner Karl Heisenberg.

Agora a questão não é mais essa influência estranha e fantasmagórica das partículas umas sobre as outras, o problema é que, segundo esse Princípio, se sabemos onde a partícula se encontra, não sabemos a sua velocidade. É como se você visse e não visse uma pessoa. Ela está, mas não está!

Para tornar tudo ainda mais complexo começou-se a dizer que os resultados de um experimento seriam alterados com a simples observação. Em outras palavras, se você observa tem um resultado; se você não observa, tem outro. E tudo isso regado a equações matemáticas complicadíssimas que apenas uma dúzia (um pouco mais, um pouco menos) de pessoas no planeta consegue realmente entender.

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestre em Teoria Literária na PUC-RS

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestre em Teoria Literária na PUC-RS

Newton deve estar se revirando no túmulo, pois esses conceitos contrariam seu ideal de um mundo movendo-se como os ponteiros de um relógio e no qual é possível diferenciar a causa do efeito. Einstein, infelizmente, também morreu sem aceitar essas ideias, mesmo que muitas das melhores mentes de sua época (Niels Bohr, Schrodinger, Heisenberg, entre outros), afirmassem que elas funcionavam. Para ele, na “ciência séria”, não havia espaço para fantasmas e indeterminismos. Em uma de suas declarações mais famosas, escrita em carta ao seu colega e amigo, Max Born, afirmou: “A Mecânica Quântica está mesmo se impondo. Mas uma vozinha interior me diz que ainda não é a verdade. A teoria diz muito, mas ela não nos deixa mais perto dos segredos do Velho Deus. Eu, de todo modo, estou convencido de que Ele não joga dados”[1].

Einstein não poderia estar mais enganado. Afinal, ao que parece o “Velho” gosta imensamente de jogar dados e os experimentos realizados nos grandes laboratórios espalhados pelo mundo, em aparelhos chamados aceleradores de partículas, não deixam dúvidas quanto “a verdade” desses eventos. O único – e até agora intransponível – problema é conciliar esse mundo estranho das partículas subatômicas com os postulados da Teoria da Relatividade. Porém, como na ciência nada pode ser considerado em termos definitivos ou absolutos, os esforços dos físicos, na tentativa de realizar a esperada unificação dessas duas teorias científicas, continuam.

E agora? Você acredita em fantasmas ou em bruxas? Não?! Sim?! Está confuso, pois suas poucas certezas foram seriamente abaladas? Lamento! Não foi essa a minha intenção. De qualquer maneira, talvez, o mais sábio seja refletir sobre um dito muito popular entre os espanhóis, Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.


[1] ISAACSON, Walter. Einstein: sua vida, seu universo. Tradução Celso Nogueira, Denise Pessoa, Fernanda Ravagnani, Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das letras, 2007, p. 346.

Compartilhe esse texto

Share to Google Buzz
Share to Google Plus
Share to LiveJournal
Share to Yandex