Na hora do cafezinho

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Gilda E. Kluppel

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

Ela considerava normal uma piadinha aqui ou uma brincadeira ali, até então percebidas como inofensivas, sobre as mulheres. Que mal poderia existir em algo dito com o objetivo de provocar risos? No ambiente de trabalho, durante as confraternizações e principalmente na hora do cafezinho, evidenciava-se esse comportamento. Não apenas por parte de alguns homens, mulheres também reproduziam os comentários, que maculam a dignidade feminina, sem sequer notarem. Muitas vezes, críticas maldosas a respeito de outras colegas de trabalho, não tão próximas do grupo. Existia um mal-estar, afinal, caso não estivesse presente, ela poderia ser o alvo seguinte.

Em certas ocasiões, constrangia-se com as piadas mais apimentadas sobre as mulheres, ria mesmo assim, um sorriso amarelo, para não perder a amizade do grupo. Aquelas frases, que pareciam tratar-se de gracejos inocentes, em meros momentos para descontrair durante os intervalos da jornada de trabalho, induziam ao pensamento de que as mulheres preocupavam-se apenas com aparência e sexo.

Aprendeu a se impor diante das questões referentes ao trabalho, havia se acostumado com alguns colegas que usam o diminutivo quando se referem ao seu trabalho: “o relatório já está prontinho”? Até em discussões sobre política, eles tratavam-se com respeito, em casos de posturas ideológicas diferentes, no entanto, ela não sentia a mesma receptividade ao expor as suas ideias. Em reuniões, a opinião masculina leva a crer que possuí mais veracidade, predominando a máxima do importante é quem fala, no caso um homem, e não o que se fala, mas nada a importunava mais do que a hora do cafezinho. Aborreceu-se muito ao se atrasar, devido à demora de um atendimento médico, logo vieram as zombarias durante o intervalo do cafezinho: Aconteceu “algo a mais” entre você e o médico?

Machista soava como uma palavra distante, afinal julgava os seus colegas de trabalho, do sexo oposto, boas pessoas, porém, eles não suspeitavam sobre a possibilidade dos comentários serem ofensivos, ao acreditarem que esse comportamento permeia os limites de aceitabilidade social. Nunca se identificou como uma vítima de algum tipo de discriminação, mas, devido às leituras sobre o assunto e a troca de ideias com pessoas de outros departamentos, constatou que trabalhava no setor mais machista da empresa. A socialização masculina normatiza a violência contra a mulher, em forma de piada e de comentários depreciativos, muitas mulheres preferem calar-se para evitar confrontos. Entretanto, o que fazer quando as próprias mulheres aceitam passivamente ouvir os comentários machistas?

Diante da reflexão, o silêncio não pode mais existir, legitima e enquadra, nos parâmetros da normalidade, esse comportamento. Buscou o caminho do diálogo e de forma assertiva, posicionava-se diante das piadinhas: “Eu não acho isso engraçado, pode ofender as mulheres”. Infelizmente, avaliada veladamente por alguns homens como desprovida de senso de humor, por outros uma “mal-amada”. Ainda, haviam aqueles que reclamavam da “chatice” de um tal de pensamento politicamente correto. Contudo, mesmo em seu setor de trabalho, os homens acataram o pedido. Os comentários cessaram, às vezes, escapava uma palavra ou outra, mas entendia que os colegas estavam se esforçando, ao variar o repertório de piadas quando ela estava presente.

Compreendeu que a luta pela igualdade deve prevalecer em todos os momentos, inclusive na hora do cafezinho, para que esta e as próximas gerações possam, em ambientes de trabalho, exercerem as suas atividades, sem precisar presenciar atos de desrespeito. Talvez seja pouco, diante de muitas situações que humilham a mulher, gestos que parecem inofensivos, porém, insultam a integridade feminina. Enfim, agora sentia-se valorizada e revigorada, ao poder saborear tranquilamente o seu cafezinho.

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