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Publicado originalmente em 06/08/2012 o link;<http://www.partes.com.br/educacao/artigos/culturaeeducacao.asp>

Cristiano Guedes Pinheiro*

 

Resumo

Graduado em História-Licenciatura pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel),

Graduado em História-Licenciatura pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel),

Este trabalho reflexiona acerca dos conceitos de cultura e educação. Busca, a partir do pensamento do antropólogo espanhol, Ángel Díaz de Rada, perceber a aproximação entre as duas temáticas. Se o objeto principal de teorização do autor é a cultura, é nos entremeios de seu pensamento e de sua escrita que será pontuado e trazido à baila a questão da educação. Por fim destaca-se a necessária distinção entre o conceito de educação e escolarização, no sentido de apontar que cultura e educação, enquanto expressões da ação social, são produzidas cotidianamente, com ou sem a presença da escola.

Palavras-Chave: Cultura; Educação; Díaz de Rada; Escola.

 

 

Resumen

Este trabajo reflexiona acerca de los conceptos de cultura y educación. Búsqueda, a partir del pensamiento del antropólogo español, Ángel Díaz de Rada, percibir la aproximación entre las dos temáticas. Si el objeto principal de teorización del autor es la cultura, es en los entremedios de su pensamiento y de su escritura que será puntuado y traído a la baila la cuestión de la educación. Por fin se destaca la necesaria distinción entre el concepto de educación y escolarización, en el sentido de apuntar que cultura y educación, mientras expresiones de la acción social, son producidas cotidianamente, con o sin la presencia de la escuela.

Palabras-llave: Cultura; Educación; Díaz de Rada; Escuela.

 

Introdução

Muito se tem produzido sobre os conceitos de cultura e educação. Sobre o conceito de educação, poderíamos mesmo, remontar à Antiguidade Clássica, passando por Sócrates, Platão e Aristóteles; Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, na Idade Média; Montaigne e Comênio na Idade Moderna. Porém é a partir do pensamento Iluminista, com nomes como Montesquieu e Rousseau e a proposta de Lepelletier de um Plano Nacional de Educação, aprovado pela Assembleia Nacional Constituinte, em plena Revolução Francesa, em 1793, que a escola moderna começa a ganhar os contornos que possui atualmente. Desde este último período o pensamento pedagógico ocidental avançou substancialmente, muitos foram os autores e teóricos a pensarem sobre o assunto. Não cumpre nenhum papel aqui, tentar listar os principais pensadores e escolas pedagógicas surgidas nesse período, basta pontuar que muitos continuam a influenciar o pensamento educacional na contemporaneidade. Não é coincidência, de outra forma, que o conceito de cultura comece a ser amplamente discutido e a ter a atenção dos antropólogos a partir de meados do século XIX, tanto um como outro conceito, são fundamentais para a consolidação dos Estados Nacionais burgueses (GADOTTI, 2003; GEERTZ, 1980, 2008).

Os Conceitos de Cultura e Educação

Em seu livro Cultura, Antropología y Otras Tonterías (2010), Díaz de Rada desenvolve, entre outras discussões, perguntas e respostas sobre sete questões a cerca da cultura. Duas delas serão utilizadas nesta reflexão, pontualmente: Pode haver gente sem cultura? Faz falta a escola para “ter” cultura? Sobre a primeira pergunta o autor é enfático ao responder da impossibilidade de haver gente sem cultura. Responde que os seres humanos “viven siempre em instituciones sociales com forma cultural y construyen com sus prácticas, constantemente, el discurso de la cultura” (DÍAZ DE RADA, 2010, p. 207), ou seja, não existe homem sem cultura pois, convivendo em sociedade e através da ação social que essa vivência resulta, os homens sempre produzirão cultura. Assim, a cultura só existirá onde houver a ação social do homem, no entanto, a cultura não se confunde em si, com o próprio homem, nem com sua ação social, mas sim deve ser entendida como uma “propriedade” dessa ação. Em outras palavras, podemos pensar a cultura como a forma convencional que assume a ação social em qualquer área da atividade humana. E é justamente por isso que podemos encontrar cultura humana em lugares onde mesmo, o homem não se faz mais presente.

         A segunda questão também é respondida por Díaz de Rada de forma categórica: Não! A escola não faz falta para se ter cultura! O surgimento da escola é resultado de um longo processo histórico, sendo a escola moderna uma organização burocratizada, institucionalizada, onde a aprendizagem produzida se caracteriza por não ter um destino prático imediato; dessa forma, segundo o autor, onde houver escola sempre teremos um problema de relação, ou mesmo de sincronia, entre o que se aprende e a prática da ação humana cotidiana. No que tange a cultura esse problema relacional é praticamente inexistente, pois as regras e convenções culturais constituem em si mesmas um discurso prático, uma ação imediata. Isso não quer dizer que a escola seja incapaz de preparar as pessoas para a prática da ação social, quer dizer que a escola é o lugar onde o distanciamento entre a aprendizagem e a prática da vida em sociedade é levada ao extremo (DÍAZ DE RADA, 2010, p. 209-211).

Percebe-se assim, duas características principais nessas duas perguntas e respostas: onde houver seres humanos teremos cultura e onde houver seres humanos teremos educação, independentemente de termos ou não a escola. São os seres humanos através de suas ações quem produzem todas as formas de cultura. As infinitas formas culturais que encontramos entre as diversas comunidades e povos que habitam o planeta são a máxima expressão de que a cultura é algo iminentemente do humano. Mais que isso, a cultura é dialética, a despeito do que possa parecer, ela está sempre em constante transformação, pressionada mesmo, pelo contato cultural e pelas novas gerações que chegam e a modificam. Nesse sentido, não se pode pensar em gente sem cultura ou com cultura inferior ou superior a outras. A despeito da sociedade globalizada, não é possível estabelecer parâmetros de comparação entre culturas diferentes pelo simples fato de que cada grupo humano produz sua cultura a partir de interesses e necessidades próprias, as regras e convenções criadas e desenvolvidas por cada grupo respondem as suas necessidades materiais e simbólicas específicas.

         Quanto à questão da educação, precisamos avançar na discussão e distinguir o conceito de educação do conceito de escola. Seguindo o pensamento de Díaz de Rada e como já esboçado anteriormente, uma coisa são os sistemas escolares, outra coisa são os processos educativos. A escola é uma instituição formal que modernamente surge com os Estados Nacionais e se desenvolve enquanto instituição responsável pelos “saberes legítimos”, que nada mais são do que os saberes legitimados pelas classes sociais dominantes, ou como diria, Althusser, a escola ou os sistemas escolares públicos e privados são, antes de mais nada, “Aparelhos Ideológicos de Estados” (ALTHUSSER, 1980, p. 41-52). A despeito dessas considerações, que poderiam ser ainda muito mais aprofundadas, cabe ressaltar que a escola cumpre um papel nas “sociedades modernas” de preparação das pessoas para a ação social, mesmo que essa preparação/aprendizagem esteja, em grande medida, distanciada da prática da vida cotidiana. Ao contrário do que ocorre com a cultura que como expressão ou propriedade da ação social, da prática cotidiana, corporifica a prática imediata.

Considerações Finais

         Enfim, podemos inferir que os processos educacionais ou a educação ocorrem entre os seres humanos desde sempre, em todos os lugares e em todos os momentos é possível identifica-los: “Los seres humanos han producido y producen cultura y educación en cualquier lugar y en cualquier época, com y sin escuela.” (DÍAZ DE RADA, 2010, p. 209). Ou seja, a escola é uma forma institucionalizada de educação, ao mesmo tempo em que é também uma forma cultural, pois é uma regra convencional da ação social. Mais do que isso, podemos avançar e perceber, como aponta Díaz de Rada, que a educação e a cultura, enquanto expressão e propriedade da ação social são produzidas cotidianamente, com ou sem a presença da escola.

Bibliografia

ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos do estado. Lisboa, Portugal. Editorial Presença/Martins Fontes. 1980.

DÍAZ DE RADA, Ángel. Cultura, antropología y otras tonterías. Editorial Trotta: Madrid, 2010.

GADOTTI, Moacir. Historia das idéias pedagógicas. 8 ed. Editora Ática: São Paulo, 2003.

GEERTZ, Clifford. Transição para a humanidade. In: ENGELS, Friedrich; et. al. O Papel da cultura nas ciências sociais. Editorial Villa Martha: Porto Alegre, 1980, p. 21-36.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

*Graduado em História-Licenciatura pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), atualmente é mestrando do Programa de Pós Graduação em Educação (PPGE-UFPel) e graduando do Bacharelado em Antropologia Social, também pela UFPel. Desde 2008 tem colaborado junto ao Núcleo de Arte Linguagem e Subjetividade (NALS), da Faculdade de Educação (FaE), da UFPel, onde desenvolve pesquisas sobre narrativas populares e diversos outros temas educacionais. E-mail: cgptapes@gmail.com.

Como citar: PINHEIRO, Cristiano G. Acerca dos conceitos de cultura e educação: uma mirada a partir do pensamento de Ángel Díaz de Rada. P@rtes: São Paulo, …

 

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