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*Evelin Gomes da Silva

– Ai, que raiva!
– Nossa, que ódio!
– Que vontade de esfolar fulano no asfalto quente.

Tenho (uma leve) certeza de que uma dessas três frases você já disse, pelo menos este ano. Além disso, posso afirmar que já passou pela sua cabeça (no mínimo uma vez na sua vida) fazer justiça com suas próprias mãos.

Diante dessa afirmativa, eis a questão: em algum momento você já perdeu as estribeiras e colocou em prática aquela necessidade pujante de se vingar daquele indivíduo que todos os dias lhe irrita? Já parou para pensar o que esses pequenos sentimentos de “raiva” do cotidiano podem ou poderiam fazer com você?

Ou você é como todos os seres “literários-racionais”? Teatraliza olhos e boca raivosos, manipula as mãos em garras, deixando o corpo ser dominado por um ardor que avermelha as maçãs do rosto, para, ao fim, perceber que tudo não passou de histórias em sua mente. Sim, se você age desta forma, sinto lhe dizer: é como todos os mortais, ou seja, condicionado pela civilidade humana e sujeito às suas falhas, que fazem irromper o ódio e a barbárie.

O que acontece com os personagens do filme Relato Selvagens (Relatos Salvajes, 2014) é que esta civilidade é levada ao limite de sua suspensão. Tensionada pelas relações de injustiça e desamor da sociedade contemporânea, acaba por se romper e mostrar o ódio e a brutalidade de que o ser humano é capaz.

No longa-metragem argentino, o diretor Damián Szifron traz para a telona de forma sarcástica e irônica a dilatação dessas irritações diárias. Com um roteiro bem articulado, repleto de diálogos ácidos, a produção conta com planos de câmera selecionados de forma sagaz para demonstrar não só a perspectiva do personagem e o seu contexto, mas delinear gradativamente a calmaria antes do caos.

As situações do cotidiano vivenciadas pelos protagonistas das seis histórias proporcionam uma familiaridade instantânea com os espectadores, que até torcem pelos injustiçados. Como o aspirante a músico que reúne seus desafetos em um só lugar, desde o crítico musical até a namorada que o traiu com seu melhor amigo. A noiva que descobre na festa de casamento a traição do marido, que ainda convida a amante para o baile. A garçonete de uma pequena lanchonete de beira de estrada com a chance de se vingar do homem que destruiu sua família. Um engenheiro indignado (Ricardo Darín) com uma multa indevida e que resolve acabar de vez com a burocracia da administração pública.

Cada história traz a peculiaridade de instigar o espectador à risada, mas é um riso de nervoso e que promove uma palpitação angustiante à espera do que virá. A genialidade está exatamente na contraposição entre a narrativa visual e a auditiva.

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No episódio que retrata uma briga de trânsito, tão comum em pequenas ou grandes cidades, a violência brutal e grotesca é embalada por melodias da década de 1980, como Lady, Lady, Lady (G. Moroder/K. Forsey, 1980) e Love Theme From Flash Dance (Helen St. John, 1983). Este som não diegético, ou seja, o áudio inserido na cena da narrativa audiovisual é correlacionado à interpretação dos investigadores do suposto assassinato. Neste trecho, este é o elemento fundamental que vai provocar o incômodo despertar dos espectadores para a capacidade vil e, ao mesmo tempo, superficial do ser humano.

Relato Selvagens (2014) instiga do começo ao fim a reflexão sobre a condição humana e surpreende-nos ao percebemos que ao final do filme estamos, instintivamente, com um leve sorriso nos lábios. Resta saber, que tipo de sorriso seria este…

 

Publicado originalmente no blog do grupo de pesquisa estudos Interartes:

https://interartesufgd.wordpress.com/2016/09/05/resenha-evelingomes-relatosselvagens/

 

Assista ao Trailer de Relatos Selvagens (2014)

https://www.youtube.com/watch?v=VQM4BxppAqw

14051773_1079481352120244_9187956015868711324_nEvelin Gomes da Silva (Currículo Lattes)
Mestranda do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Letras (PPGL), na Faculdade de Comunicação, Artes e Letras (FACALE), da UFGD. Integrante do grupo de estudo InterArtes. Pesquisa a correspondência da Literatura e da Televisão, a partir do estudo da microssérieCapitu (2008), com direção de Luiz Fernando Carvalho, adaptação do livro Dom Casmurro(1899), de Machado de Assis. É formada em Comunicação Social – Jornalismo, pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB

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