Crédito da foto: https://morguefile.com/search/morguefile/1/darkness/pop

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Em tempos de incertezas…

Gilda E. Kluppel

Toda a vez que ela passa, por aquela esquina, lá está o homem. Ele chega a cumprimentá-la, desejando um bom-dia, mas os comentários não deixam dúvidas de suas ações. O homem é um ladrão. Os novos tempos estão tão estranhos que as pessoas acostumaram a conviver com algo que, há pouco tempo, poderia ser considerado uma atitude impensável: cumprimentar um ladrão.

Além de precisar cumprimentar o ladrão, perguntava-se: “o que está acontecendo”? Ela não conseguia mais, como fazia naturalmente, conversar sobre política na universidade, não existe o diálogo entre pensamentos divergentes. Apenas o ódio. O ódio não abre brechas, bloqueia e julga o outro pela força do sentimento. Logo, troca ideias apenas com pessoas que compartilham os mesmos pensamentos. Deixou de discutir sobre política no facebook, desde que começou a ser chamada de mais uma “comunistinha”, além de termos vulgares e agressivos.

Afastou-se de sua melhor amiga, agora a amiga virou uma coxinha. Contudo, quando ouviu pela primeira vez o termo coxinha, usado para rotular uma pessoa, imaginou que poderia estar enquadrada, afinal gosta de andar bem arrumada. Entretanto, a expressão adquiriu a conotação política de uma pessoa elitista e conservadora. Vizinhas do prédio em que mora, as famílias, amigas por longos anos, não se falam mais por rusgas políticas.

Ela passou a ser considerada uma mortadela, uma pessoa de esquerda, mas, ela não era mais uma mortadela tentando combater os coxinhas. Entristecia-se ao saber que a melhor amiga também passa por situações constrangedoras. Sentia saudades do tempo em que saía com a amiga, para as baladas e passeios no parque, as divergências políticas nunca foram um entrave para a convivência, pelo contrário respeitava-se a diferença.

Ultimamente, as palavras coxinha e mortadela transformaram-se em escudos de uma grande batalha nas redes sociais, na qual parentes e amigos, com os estereótipos mais presentes do que nunca, despejam toda a sua a ira. Deste modo, baseado no medo de quem se assusta com o outro, os pais das amigas, polarizados entre os mortadelas e os coxinhas, muniram-se de ofensas e ironias, com um mandando o outro morar em Cuba ou passear em Miami. O simples fato da existência da diferença converte-se em justificativa suficiente para achincalhar alguém.

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná

Em tempos de incerteza, em que se teme o contraditório, atos que antes eram considerados condenáveis, ocorrem livremente no cotidiano, ainda recebendo aplausos, algumas pessoas não têm mais vergonha de expor seus preconceitos. Diante da radicalização, em que a cor da roupa pode motivar xingamentos e agressões, até o seu irmão, de apenas nove anos, brigou na escola, por motivos políticos. As crianças reproduzindo, em sala de aula, o sentimento de intolerância, impregnados pelas discussões e acusações que observam em suas casas.

Existe uma mácula em seu coração, quando tudo isso pertencer ao passado, sobraram as cicatrizes que a acompanharão por muito tempo. Entretanto, o ladrão permanece em evidência, naquela esquina, tentando vender o produto do seu roubo, enquanto essas famílias continuam se digladiando. Assim, seguia indignada, assistindo os donos da grande narrativa alimentando a discórdia, guiados pelo maniqueísmo, transformando qualquer opinião conveniente, em verdade absoluta. E por não poder mudar essa realidade, para ela, parece que basta, por enquanto, apenas cumprimentar o ladrão.

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