antimateria

ANTIMATÉRIA: A AUSENTE, MUITO PRESENTE

Margarete Hülsendeger

Conhecimento não é aquilo que você sabe, mas o que faz com aquilo que você sabe.

Aldous Huxley

 

Para muitos cientistas, o fato é o que importa. E o que seria “fato”? Segundo o Dicionário Houaiss, é “algo cuja existência pode ser constatada de modo indiscutível; verdade”. Portanto, vamos aos fatos.

Fato 1: a bomba lançada em Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945, carregava um núcleo de 60 quilos de urânio 235, com um potencial destrutivo equivalente a 15 quilo toneladas (kt) de TNT. O resultado foi a morte imediata de aproximadamente 140 mil pessoas.

Fato 2: se em vez de uma bomba atômica comum fosse utilizada uma bomba de antimatéria o resultado seria um “pouco” diferente. Apenas 1 quilo de antimatéria teria a capacidade de liberar a energia equivalente a 43 mega toneladas de TNT (Mt = 1000 kt). Permitindo-nos concluir que o número de pessoas que poderiam morrer, com certeza, seria muito maior que o registrado em Hiroshima.

A questão, porém, é que enquanto a bomba atômica é um fato, a bomba de antimatéria ainda é uma teoria. Por quê? Simples, não existe antimatéria dando sopa por aí. Segundo os cientistas, apesar de antes do Big Bang existirem quantidades iguais de matéria e antimatéria, após esse evento cósmico a antimáteria desapareceu, fazendo com que sobrasse mais matéria. Por quê? Ninguém ainda sabe

Contudo, você pode estar se perguntando: afinal, o que é a antimatéria?

A resposta mais curta seria dizer que ela é o contrário da matéria. Tudo o que você vê e até o que não vê é feito de diminutos corpos chamados átomos, que por sua vez são formados por outros diminutos corpos denominados quarks. São eles que constituem a matéria visível. Portanto, a cadeira onde você está sentado ou o computador no qual você lê esse texto são feitos de átomos/quarks e, consequentemente, de matéria. O problema é que após o Big Bang apenas 25% de todo o universo conhecido é feito de matéria. Para onde foram os restantes 75% é uma das muitas perguntas que os físicos se têm feito.

O primeiro a levantar a possibilidade da existência de partículas com características iguais de massa e rotação, mas com carga elétrica contrária foi o físico inglês Paul Dirac, em 1928. Nessa ocasião, a ideia da existência de antipartículas era apenas uma teoria. A confirmação só ocorreu quatro anos depois quando o físico americano Carl Enderson descobriu uma partícula exatamente igual ao elétron, mas com carga positiva, que denominou pósitron ou antielétron.

A partir desse momento tornou-se quase uma obsessão descobrir mais partículas – ou melhor, antipartículas – que confirmassem a existência da antimátéria. A dificuldade é que se a matéria e a antimatéria se encontram ocorre uma aniquilação – uma espécie de “repeteco” do Big Bang original – e o resultado é uma explosão que gera energia na forma de raios gama e luz.

Portanto, é muito difícil criar antimatéria, pois assim que entra em contato com a matéria, ela é aniquilada. Contudo, basta a tecnologia evoluir um pouco para transformar o que antes era considerado impossível em algo possível de ser feito.

Foi o que ocorreu em 2011, quando no CERN – Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (em francês, Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire) – cientistas conseguiram “engarrafar” antimatéria por 16 min e 40 s. Se você está torcendo o nariz para esse resultado, saiba que ele foi considerado uma realização espetacular. E se você está imaginando uma garrafa comum para esse armazenamento não poderia estar mais equivocado. Lembre: matéria e antimatéria não podem ocupar o mesmo espaço, ao mesmo tempo, pois o resultado é um BUM realmente inesquecível. Então como foi feito o “engarrafamento”? Utilizando campos magnéticos, ou seja, imensos ímãs que mantêm a antimátéria em suspensão.

Quem já leu “Anjos e Demônios”, de Dan Brown, deve estar reconhecendo algumas das informações deste texto. Por exemplo, as “garrafas magnéticas” são chamadas no livro de “armadilhas”. E quando é dito que se trata de uma fonte de energia “Mil vezes mais poderosa do que a energia nuclear. Cem por cento eficiente.”, o autor também não está errado. A antimatéria é tudo isso e, quem sabe, muito mais. A dificuldade é que as atuais “armadilhas” não conseguem manter presa a antimatéria por 24 horas como escreveu Dan Brown. Hoje o máximo de tempo são os “gloriosos” 16 min e 40 s.

A essa altura você deve estar se perguntando por que milhões de dólares são gastos nesse tipo de experimento quando à nossa volta existem tantas outras coisas nas quais podemos investir esse dinheiro. Qual a importância de se descobrir de que é feito o universo, quando no nosso quintal crianças ainda passam fome? Essa é a pergunta que assombra, não só as pessoas comuns, mas também os cientistas. A questão é que investir em ciência é investir em conhecimento e conhecimento, como disseram os filósofos ingleses Francis Bacon e Thomas Hobbes, é poder.

É preciso, no entanto, estar atentos para que esse conhecimento não crie problemas. Problemas que, com certeza, não serão resolvidos se nos rendermos à ignorância. Assim, a antimatéria pode, no futuro, tornar-se uma fonte de energia limpa e alimentar motores de espaçonaves intergalácticas como acontece na série “Jornada nas Estrelas”; ou pode transformar-se em uma bomba capaz de destruir uma cidade inteira, como inventou Dan Brown em seu livro.

O fato – sim, voltamos a ele – é que as pesquisas sobre antimatéria vão continuar. Querendo ou não, em breve, ela deixará de ser apenas tema de livros e filmes de ficção científica, passando a ocupar um espaço importante entre os fenômenos que podem gerar o desenvolvimento de novas e revolucionárias tecnologias. Portanto, o fato em si não é tudo. Para Einstein, antes disso, há um amplo espaço destinado à imaginação, “porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro”.

Compartilhe esse texto

Share to Google Buzz
Share to Google Plus
Share to LiveJournal
Share to Yandex