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A COR, A RAÇA E O RACISMO: UM “OLHAR ASTRONÔMICO” SOBRE ESTAS QUESTÕES

 

MARTINS, Jander Fernandes[i]

WINGERT, Vitória Duarte[ii]

RESUMO

autor Jander Martins

Jander Martins. Mestrando do PPG Processos e Manifestações Culturais – FEEVALE, Pedagogo, Especialista em Tecnologias na Educação. E-mail: martinsjander@yahoo.com.br

O presente texto busca socializar algumas reflexões sobre a temática “cor”, esta enquanto categoria política, desdobrada das questões mais complexas e profundas que assolam as relações sociais no Brasil desde meados do séc. XX, em especial as tensões e lutas referentes à questão de raça. Para tanto, optou-se por abordar esta temática a partir de um viés distinto da literatura especializada que atualmente debruça-se sobre as discussões de raça, racismo, antirracismo, cor, qual seja, a astronomia. Entendida a questão de cor, no âmbito da Política, lançando mão de perspectivas biologizantes, evidencia-se que, não apenas a Sociologia, Antropologia, História e Educação contribuem enquanto mecanismos científicos estratégicos na luta contra o preconceito e discriminação de raça, etnia, classe e cor, mas áreas especificas como a Astronomia também venham a contribuir para a discussão a partir de reflexões filosóficas, a partir das evidencias e produções científicas que esta área do conhecimento vem produzindo e servindo de colaboração para se pensar uma nova configuração de relações sociais, étnicas e culturais, a partir de um diálogo interdisciplinar.

PALAVRAS CHAVES: Astronomia; Relação Étnico-racial; Racismo;

ABSTRACT

This text seeks to socialize some reflections on the theme of “color”, this as a political category, unfolded the most complex and profound issues plaguing social relations in Brazil since the mid-century. XX, especially the tensions and struggles related to the issue of race. Therefore, it was decided to address this issue from a distinct bias of the literature that currently focuses on the race discussions, racism, anti-racism, color, namely astronomy. Understood the color issue, under the policy, making use of biologizing perspective, it is evident that not only sociology, anthropology, history and education contribute as strategic scientific mechanisms in the fight against prejudice and discrimination based on race, ethnicity, class and color, but specific areas such as Astronomy also will contribute to the discussion from philosophical reflections, from the evidence and scientific productions that this area of ​​knowledge has been producing and serving of collaboration to think about a new configuration of social relations, ethnic and cultural, from an interdisciplinary dialogue.

KEYWORD: Astronomy; Ethnical-race relationship; Racism; Interdisciplinarity

autora Vitoria Wingert

Vitória Wingert. Historiadora pela Universidade FEEVALE – Email: vitoriawingert@hotmail.com

Como o título desta postagem diz, buscarei expor uma breve consideração sobre estas perspectivas sobre a “questão da cor”. Dito isto, faço a seguinte indagação qual seja: por quê pesquisar, refletir, indagar, dialogar e refletir sobre a “questão de cor” é assim tão difícil, complexo e profundo, se levarmos em consideração toda o acúmulo teórico, científico produzido socialmente e acumulado historicamente pela Humanidade?

Tal indagação nos angustia, e certamente a muitos outros pesquisadores e militantes, disto decorrem que talvez não haja ainda uma resposta satisfatória para tal pergunta e o presente texto não intenta esgotar tal problematização com uma resposta simplista. Mesmo assim, tentarei apresentar algumas considerações para tal questão e esta será me pautando totalmente no celebre astrônomo e cientista Carl Sagan.

E parto de uma ótica totalmente desconsiderada, ao se tratar desta temática. Vejamos o fragmento de uma obra intitulada “Bilhões e Bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio” de Carl Sagan[iii][iv], abaixo:

A vegetação absorve a luz vermelha e azul, reflete a luz verde, e por isso nos parece verde. [...] Algo que absorve a luz azul e reflete vermelha nos parece vermelho; algo que absorve a luz vermelha e reflete a luz azul nos parece azul. [...] A diferença entre preto e branco não é uma questão de cor, mas de quanta luz eles refletem. [...] preto e branco são fundamentalmente a mesma coisa; a diferença está apenas nas quantidades de luz refletida, e não na sua cor. (SAGAN, 2008, pp. 54-55, grifos nossos)

 Pode-se a partir disto já estabelecer outra indagação de “por quê trazer para as reflexões um “astrônomo” e não um sociólogo ou antropólogo de renome nas áreas que nos predispomos a tecer aqui?”

Pois bem, por duas questões iniciais, que também poderíamos problematizá-las, mas não sei se aqui daríamos conta disto, a primeira é de que, desde as primeiras tentativas de organização e engajamento contra estas práticas discriminatórias se produziu cientificamente muito, principalmente nas Humanidades, no entanto, as áreas da saúde foram e ainda são as que mais contundentemente demarcam e marcam conceitos, definições, diferenciações e (além é claro de não haver unanimidade em suas proposições sobre os temas relacionados a preconceito, discriminação).  (SCHWARCZ, 1993)

Logo, tal situação evidencia uma certa fragilidade ao passo que são as áreas médicas que determinaram historicamente certas diferenciações (entre humanos) do ponto de vista biológico, mas que desta dimensão, migrou para outros como a social, cultural, estabelecendo, historicamente, com isto uma “herança” de conhecimentos (que nada mais eram do que “constructos” pautados em determinado Paradigma (KUHN, 2013).

Hoje, este paradigma já foi superado, no entanto, há àqueles constructos imperam ainda, senão em termos de reflexão científica, em termos de “imaginário social” (DURAND; 1996; MAFESSOLLI, 2001), visto que, por exemplo, a própria história da formação brasileira, ambas postulações nortearam a cosmovisão social de diferenciação estabelecendo com isto a relação de distinção de  “branco x negro/preto”, por exemplo. (GUIMARÃES, 1995; 1999)

Por isso, de iniciar esta escrita com um comentário de Sagan (2008) sobre “porquê vemos os objetos nas cores que vemos” (e nisto se inclui o ser humano), ou seja, tudo o que nossos olhos captam está determinado e relacionado com a natureza e a capacidade de absorção de luz solar.  Como bem escreve o astrônomo, a única diferença existente no Universo visível e conhecido até o momento, está apenas nas quantidades de luz refletida, e não na sua cor”.

Diante desta afirmação contundente, que a título de informativo fora produzida em meados da década de 1990 como um convite sério para a “responsabilidade para com a humanidade”, ficamos nos perguntando se algum geneticista, antropólogo, etnólogo, sociólogo, pedagogo, historiador ou algum outro catedrático levantou a questão problemática de “cor” em relação ao homem? Ou se foi este “astrônomo” o primeiro? Enfim, estas não são perguntas que aqui nos predispusemos a responder, apenas convidar a reflexão.

Continuando, ao nos propormos a produzir um texto que refletisse sobre raça, preconceito, discriminação, começamos a nos indagar sobre a questão de “cor”, mas esta não no sentido tácito, já dado, ou simplificado em termos “biológicos” ou “geneticistas”. Indagava-se sobre a relação “nua e crua”, concreta, objetiva, sobre essa palavra, e disto surgia a questão: “por que eu enxergo, vejo uma pessoa ‘branca’, outra pessoa ‘preta/negra’, outra ainda de tonalidade de pele mais ‘amarelada’, outra mais ‘avermelhada’, etc. este tipo de suposição e percepção é tão natural, ou melhor, naturalizou-se de tal modo de que, simplesmente identificamos e nos diferenciamos dos demais pela “tonalidade de cor de pele”.

E o que nos instiga a refletir um pouco mais ainda, é que, desta constatação de cores (de pele e de objetos) introduziu-se (historicamente) uma noção de “raça”, hoje nem tanto debatida nos meios antropológicos e geneticistas (mas não é unanimidade nestes meios), no entanto, em inúmeras outras áreas sequer dedicam alguns minutos para pensar e debater sobre.

Mais ainda, é a constatação do processo de naturalização ocorrida e vigente ainda hoje, de tal modo, como se houvesse “raças” de homens (distintas por “coloração de pele”) assim como existem “raças de cães” (distintas por tamanho e pelos corporais), “Entre os humanos, a maioria dos “brancos” não são tão brancos como a neve recém-caída (nem mesmo como uma geladeira branca); a maioria dos “negros” não são tão negros como veludo preto” (SAGAN, 2008, p.55)

Neste sentido, bem se sabe hoje e desde a Educação Básica nacional, se estuda, nas disciplinas da Biologia, o porquê das tonalidades de pele. No entanto, o que se vincula é no sentido de “como ocorre organicamente esse processo de coloração de pele”. Mas, o que queremos aqui é justamente “dar um passo adiante” nesta questão e neste quesito, achamos que a visão criteriosa, rigorosa, objetiva e concreta oriunda de uma área de pesquisa distinta das Humanidades (nem tanto, porque a Astronomia, Física, Astrofísica, Matemática, Química muito contribuem para a humanidade, diga-se de passagem) é colaborativa e propositiva. Ou seja, em termos biológicos se sabe que “[...] A pigmentação da pele é produzida principalmente por uma molécula organiza chamada melanina, que o produz da tirosina, um aminoácido comum nas proteínas” (IDEM).

Portanto, quando se fala, discute-se, debate-se sobre a “questão da cor” (de pele), pensa-se que deveríamos também levar em consideração a totalidade de estudos que evidenciam, comprovam que essa questão “produção de melanina”, bem da verdade, geraria uma “pardificação”, “preteamento”, “bronzeamento” e não um “branqueamento” como se postulou durante décadas, ou pelo menos desde os séculos XVIII em diante.

Dizemos isto, por que, se extrapolarmos nossas reflexões, pois estamos nos pautando em interdisciplinaridade, multi e transdisciplinaridade, (POMBO, 2008) e trazermos para discussão questões de ordem ambiental, mais especificamente, ordem climática, demonstram em pesquisas, desde século XIX,  o aumento acelerado da temperatura global, ora com uma exposição maior a luz solar, logo também ocorre o fenômeno de “escurecimento” da pele, devido a exposição, assim, “todos os seres humanos comuns, assalariados ou intelectuais, que necessitem realizar atividades que envolvam deslocamento vivendo ou não em regiões temperadas, ou que tem uma exposição solar durante o dia (com exceção das zonas próximas aos polos extremos do planeta) frequente, certamente está sendo “bronzeado, pardificado, preteado”, pois a luz solar está e estará incidindo sobre a melanina. Além é claro de estar ocorrendo o processo de “reflexividade” mencionada anteriormente. Nas palavras de Sagan (2008) “[...] A fração de luz incidente que a pele humana reflete (reflexividade) varia muito de indivíduo para indivíduo”. Assim, podemos falar então em “diversidade” e “singularidade”, “individualidade” de “cores” (de pele) em “todos os indivíduos”.

Mais ainda, Sagan (2008, pp.55-56, grifos nossos) é taxativo e explícito ao esboçar sua linha de raciocínio sobre esta temática de “cor” e consequentemente, raça, preconceito, discriminação:

Nos Estados Unidos, quase todo mundo é moreno. Nossa pele reflete um pouco mais de luz em direção à ponta vermelha do espectro da luz visível do que em direção à luz azul. Não tem mais sentido descrever indivíduos com elevado teor de melanina como “negros” do que descrever indivíduos com baixo teor de melanina como “brancos”.

E complementa seus argumentos estendendo-o à nível global, social e porque não histórico?

Só nas frequências visíveis e nas imediatamente adjacentes é que se tornam diferenças significativas na reflexividade da pele. Os povos vindos do norte da Europa e os povos provenientes da África central são igualmente negros na ultravioleta e na infravermelha, quando quase toda as moléculas orgânicas, e não apenas a melanina, absorvem a luz. Só na luz visível, quando muitas moléculas são transparentes, é que a anomalia da pele branca se torna até possível. Na maior parte do espectro, todos os humanos são negros. (SAGAN, 2008, pp. 54-56, grifos nossos)

Ou seja, se sabe que este astrônomo certamente não é e foi o único a levantar a bandeira e dedicar alguns momentos de sua vida profissional para pesquisar, refletir, escrever e socializar seu entendimento e posicionamento “contra todo e qualquer prática racial” e para isto, ele buscou dentro de sua própria área de atuação para “comprovar” que tais práticas comportamentais são hoje inadmissíveis, do ponto de vista de esclarecimento, estudos, reflexões e políticas públicas sobre estes temas.

A pergunta que ainda se mantém e não quer calar é: e porque diante de todo este volume de informação e movimentos contra, não foram e não são suficientes para erradicar tais distinções? Pois como bem vimos, se trata de uma “ilusão e limitação sensorial” que faz com que nós, seres humanos, percebamos o “outro” como diferente, no ponto de vista fenótipo, biológico.

Se este entendimento em algum momento prevalecer, tem-se, ainda que utopicamente, a sua contribuição iria de encontro com a tão sonhada e trabalhada mudança, radicalmente, real e concreta nas relações interpessoais e interculturais. Além disso, é claro que certamente, como diz o autor, a grande “aberração e anomalia” na e da natureza, diante dos mecanismos e fenômenos físicos e universais conhecidos (até o presente momento), não seria o negro, o pardo, amarelo, mas sim o “branco”. (GUIMARÃES, 1999; 2004; MUNANGA, 1986; SCHWARCZ, 1993)

Tal consideração é por demais reflexiva e sugestiva!

REFERÊNCIAS

GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Racismo e anti-racismo no Brasil. Revista Novos Estudos – CEBRAP. Nº 43, 1995, p. 26-44. Disponível em: http://www.novosestudos.org.br/v1/contents/view/685. Acessado em: 15/05/2016.

_____________________________Preconceito de cor e racismo no Brasil. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 2004, v. 47, nº 1, pp.9-43. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ra/article/view/27181/28953.  Acessado em: 15/05/2016.

DURAND, G. Campos do imaginário. Lisboa, Portugal: Piaget, c1996.

KUHN, Thomas K.  A estrutura das revoluções científicas. Rad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 12ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2013.

MAFFESOLI, M. O imaginário é uma realidade. (Entrevista) In: Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 15 • agosto 2001 • quadrimestral. Disponível em:

http://200.144.189.42/ojs/index.php/famecos/article/viewArticle/285.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. Editora Ática -SP, 1986. Coleção Princípios.

POMBO, Olga. Epistemologia da interdisciplinaridade. Revista Unoeste. Vol. 10, n. I, p.9-40. 1º semestre. Foz do Iguaçu, 2008.

 

SAGAN, Carl. Os dragões do éden. Trad. Sergio Augusto Teixeira e Maria Goretti Dantas de Oliveira. Editora Circulo do Livro S. A. São Paulo: s/d.

___________O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Trad. Rosaura Eichemberg. 1ª Ed. 13ª reimpr. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

_____________Bilhões e Bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio. Trad. Rosaura Eichemberg. 1ª Ed. 5ª reimpr. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

SARAIVA, Juracy I. A. et al A interdisciplinaridade nos Processos e nas Manifestações Culturais. PPG em Processos e Manifestações Culturais. FEEVALE-RS. Disponível em: https://aplicweb.feevale.br/site/files/documentos/doc/32051.doc. Acessado em: 15/05/2016.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. 1ª reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 1993.



[i] Mestrando do PPG Processos e Manifestações Culturais – FEEVALE, Pedagogo, Especialista em Tecnologias na Educação. E-mail: martinsjander@yahoo.com.br.

[iinhia das Letras, 1993.

 

 



[i] Mestrando do PPG Processos e Manifestações Culturais – FEEVALE, Pedagogo, Especialista em Tecnologias na Educação. E-mail: martinsjander@yahoo.com.br.

[ii] Historiadora pela Universidade FEEVALE – Email: vitoriawingert@hotmail.com.

[iii] Carl E. Sagan (1934-1996) autor de mais de 600 publicações de artigos e 20 livros. Foi um dos mais influentes divulgadores da ciência e um ativista em prol da ciência como bem da/para a Humanidade. Além de reconhecimento pela divulgação científica também conhecido pela sua série televisiva Cosmos: uma viagem pessoal de 1980, de repercussão mundial.

 

 

 

 

 

Como citar:

MARTINS, J. F. & WINGERT, V. D. A cor, a raça e o racismo: um “olhar astronômico” sobre estas questões. Revista P@rtes, 2016. Disponível em: http://www.partes.com.br/

] Historiadora pela Universidade FEEVALE – Email: vitoriawingert@hotmail.com.

[iii] Carl E. Sagan (1934-1996) autor de mais de 600 publicações de artigos e 20 livros. Foi um dos mais influentes divulgadores da ciência e um ativista em prol da ciência como bem da/para a Humanidade. Além de reconhecimento pela divulgação científica também conhecido pela sua série televisiva Cosmos: uma viagem pessoal de 1980, de repercussão mundial.

 

 

 

 

 

Como citar:

MARTINS, J. F. & WINGERT, V. D. A cor, a raça e o racismo: um “olhar astronômico” sobre estas questões. Revista P@rtes, 2016. Disponível em: http://www.partes.com.br/

 

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