Relações de trabalho no circuito espacial da produção de papel reciclado

RELAÇÕES DE TRABALHO NO CIRCUITO ESPACIAL DA PRODUÇÃO DE PAPEL RECICLADO

 

Taís de Oliveira*

Luis Felipe Carvalho**

 

INTRODUÇÃO 

O presente trabalho analisa o circuito espacial produtivo de uma fabrica que produz papel reciclado inserida na cidade de Irati – PR. O termo papel é dado a uma folha composta por fibras vegetais, as quais foram desintegradas, refinadas e depuradas e tiveram ou não a adição de outros ingredientes, para se obter o produto final.

Com a produção de bens o homem passa de uma existência meramente biológica a uma existência social, ou seja, passa a ter um meio de gerar lucro para sua vida.  Para produzir os homens não podem permanecer isolados, é preciso a força humana em conjunto, o trabalho em equipe.  Essa vida social não é apenas existência em conjunto, é comporta também por relações necessárias, definidas pelos homens pela posição que ocupam na produção e nos demais tipos de atividades dentro da empresa. Estas relações vão se multiplicando quantitativa e qualitativamente.

Serão apontadas as relações de trabalho, bem como a organização social e espacial da empresa de papel, descrevendo as fases do processo de fabricação do papel até o produto final e sua comercialização.

 

2. DESENVOLVIMENTO 

Nas últimas décadas, a sociedade contemporânea vem passando por profundas transformações, tanto nas formas de materialidade quanto na esfera da subjetividade, dadas as complexas relações entre essas formas de ser e existir da sociabilidade humana. A crise experimentada pelo capital, bem como suas respostas, das quais o neoliberalismo e a reestruturação produtiva da era da acumulação flexível são expressão, têm acarretado, entre tantas consequências, profundas mutações no interior do mundo do trabalho. Dentre elas, podemos mencionar o enorme desemprego estrutural, um crescente contingente de trabalhadores em péssimas condições, além de uma degradação que se amplia, na relação metabólica entre homem e natureza, conduzida pela lógica societal voltada para a produção de mercadorias e para a valorização do capital.

Para Leo Huberman (1981 p. 156) “O dinheiro só se torna capital quando é usado para adquirir mercadorias ou trabalho com a finalidade de vendê-los novamente, com lucro”. Toda e qualquer empresa primeiramente visa o lucro, mesmo que para isso não ofereça para seus trabalhadores salários dignos e boas condições, segundo Leo Huberman (1981 p. 141) ”O lucro vem do fato de receber o trabalhador um salário menor do que o valor da coisa produzida”, para sobreviver o homem acaba se sujeitando a esse tipo de emprego.

A seguir são apontadas as etapas para a produção do papel reciclado de uma empresa instalada em Irati – PR: Etapa 1: Entrega das aparas (fardo) na fábrica recicladora de papel, em seguida passa pelo controle de qualidade e é classificado, depois vai para o estoque de aparas. O lote do estoque mais antigo vai para as esteiras transportadoras. O papel é descarregado juntamente com água industrial em máquinas especiais, depois de desagregado, a bomba puxa a massa de papel para outras etapas. Etapa 2 : Turbo tiraplástico (retirada de plástico). Etapa 3: Processo de centrifugação para retirada de impurezas (areia, prego, etc). Etapa 4: Processo de refino da massa, depois aditivos são adicionados à massa: sulfato de alumínio, amido de mandioca, etc. Etapa 5: Caixa de entrada da máquina de papel. Etapa 6: Mesa formadora (vácuo retira umidade excedente). Etapa 7: Prensa acerta gramatura do papel. Etapa 8: O papel passa pelos rolos secadores. Etapa 9: Chega até a enroladora. Etapa 10: Forma-se o rolo de papel. Etapa 11: O rolo é transportado por ponte rolante até a rebobinadeira. Etapa 12: O papel é rebobinado conforme formato da bobina. Etapa 13: A bobina de papel acabada vai para o controle de qualidade. Etapa 14: Vai para o estoque, podendo ser vendida ou vai para a cartonagem, transformando-se em chapa de papelão, a fim de ser industrializada como caixas de papelão. Etapa 15: Transporte – Venda.

No circuito espacial todas as etapas para a fabricação de papel citadas exigem mão de obra qualificada, seja ela braçal ou mecanizada. Para obter o produto final, precisamos de trabalhadores qualificados em dadas funções e que trabalhem em equipe, afinal todo o processo necessita de um circuito que esteja interligado, isso vai desde o catador de papel, o operador da máquina dentro da empresa até o motorista que irá transportar esse produto até a comercialização. Vale ressaltar que cada trabalhador precisa de uma qualificação especifica para realizar suas atividades, consequentemente seu salário também é de acordo com sua produção e qualificação.

O processo de produção compõe-se de três elementos associados: trabalho, matéria-prima, e instrumentos de produção. Na lógica de produzir mercadorias, o capital busca intensificar a produtividade do trabalhador. Essa intensificação consiste na redução do tempo de trabalho necessário e prolongamento do tempo de trabalho não pago, em que o trabalhador continua a produzir (MARX, 1982). Segundo Marx “Modo de Produção”, é a maneira como se organiza o processo pelo qual o homem age sobre a natureza material para satisfazer as suas necessidades. “Produzir é (…) trabalhar” pondo “em movimento forças” que ajam sobre a natureza (p.67). Os trabalhadores vendem sua força de trabalho, ou seja, vendem a energia física e mental gasta durante o processo de trabalho.

O homem precisa sobreviver sustentar sua família e acaba se sujeitando a péssimas condições de trabalho, muitas vezes é a única opção que ele tem, o único meio de tirar o seu sustento.

Segundo Antunes (2001, p. 16) “a lógica do sistema produtor de mercadorias vem convertendo a concorrência e a busca da produtividade num processo destrutivo que tem gerado uma imensa precarização do trabalho e aumento monumental do exército industrial de reserva, do número de desempregado”. O trabalho na empresa é precário, trabalhadores e moradores têm de conviver com a poluição do ar atmosférico causada pela fábrica na produção do papel, sem as mínimas condições de trabalho, funcionários são obrigados a fazer suas refeições em meio a poeira, bactérias e a sujeira. A empresa não esta situada no centro da cidade de Irati, mas teve sua sede instalada na saída da cidade, facilitando assim o transporte para a região, tendo em vista questões econômicas  e sociais.

 “A economia capitalista moderna era vista como um sistema industrial com padrões e trajetórias de localização industrial e desenvolvimento regional que parecia ser, e certamente era, bem comportado e previsível”. Ron Martin (1996 p. 32).

Martin (1996) também aponta sobre a terceirização do trabalho, a tecnologia da informação e da comunicação, o que acaba prejudicando e exigindo muito mais do trabalhador. Quanto a essa especialização, o trabalhador é um trabalhador parcial, mutilado, e o seu saber padece de um conhecimento único adquirido.  Segundo Marx (1982, p. 413) “a divisão manufatureira do trabalho opõe-lhes as forças intelectuais do processo material de produção como propriedade de outrem e como poder que os domina”.

A perspectiva sobre o modo de produção Toyotista ou Era da Acumulação flexível teve impacto no mundo ocidental a partir dos anos 70.  Esse novo modo de produção com suas mudanças se fundamentam num padrão produtivo organizacional e tecnologicamente avançado resultado de novas técnicas de gestão da força de trabalho e da introdução de computadores no processo produtivo e de serviços.

Com relação à caracterização da força de trabalho ao longo do tempo, Marx (1982) denominou de cooperação, manufatura e maquinaria, nos quais a propriedade, uso e significado do saber do trabalhador sofreram mudanças em razão da relação social historicamente desenvolvida entre trabalhadores e capitalistas. O saber do trabalhador ainda era de seu domínio na etapa caracterizada pela cooperação, apesar da divisão do trabalho já existente.

O autor David Harvey nos aponta que ocorreram algumas transformações no capitalismo do século XX, passando do modernismo para o pós-modernismo, que do ponto de vista econômico cria a flexibilização, o financiamento, muda-se a maneira de produzir, o campo se organiza, a urbanização se estende e começa a integração mundial através da informação.
A década de 1970, foi marcada pela grande expansão industrial e teve forte impacto no início nos anos de 1990, no governo Fernando Collor de Mello. O movimento operário e sindical reaparece na década de 1980 em função do processo de abertura política e cada um desses fatores alimenta e é alimentado pelos demais.

Por fim, passando por todas as etapas de produção, o produto final esta pronto para o transporte e sua comercialização. Segundo Leo Huberman, (1986 p.157) “É a força de trabalho do operário que o capitalista compra para vender com lucro, mas é evidente que o capitalista não vende a força de trabalho de seu operário. O que ele realmente vende com lucro são as mercadorias”.

  1. 3.  CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A reinserção no mundo do trabalho de trabalhadores excluídos do processo produtivo é dificultada pelo fato que ao longo do tempo a mão de obra operacional obteve qualificação somente para exercer funções específicas e não para a vida operária que abrange vários cargos e funções. Outra questão que vale ressaltar é a falta de condição que o trabalhador tem, a falta de ajustes na realização de suas atividades, prejudicando assim sua vida laboral e muitas vezes não é protegido pelas leis trabalhistas.

Além das exigências de polivalência, a qual significa a capacidade que a força de trabalho tem para desempenhar as várias atividades, tudo fica ligado aos interesses das indústrias, o que aumenta ainda mais a precarização do sentido de qualificação do trabalho e enfraquecimento a autonomia dessa classe. Contudo, a relação entre avanço tecnológico industrial e qualificação para o posto de trabalho está ligada diretamente à dinâmica do gerenciamento e controle pelo capital.

 

  1. 4.  REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho, ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 5 edição. São Paulo, Boitempo, 2001. Cap 4.

HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. ed. 21º. Rio de Janeiro: LTC, 1986.

MARTIN, Ron. Teoria econômica e geografia humana.  In: Gregory, D.; Martin, R. e Smith, G. (Orgs.). Geografia Humana: sociedade, espaço e ciência social. R.J. Zahar, 1996.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. 7. ed., v. 1. São Paulo: DIFEL, 1982.

HARVEY, David. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1994.

* Formada em Técnico em Segurança do Trabalho (2008) e Técnico em Meio Ambiente (2010) pelo Centro Estadual Florestal de Educação Profissional Presidente Costa e Silva. Graduada em Licenciatura em Geografia (2015) pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – Irati. Mestranda em Geografia pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – Guarapuava, linha de Pesquisa: Dinâmica da Paisagem, Geomorfologia e Análise Ambiental (2016-2018).

E-mail: thizoliver@hotmail.com

** Graduado em Licenciatura em Geografia (2015) pela Universidade Estadual do Centro-Oeste – Irati. Durante a graduação desenvolveu estudos voltados para a área da Geografia Humana com ênfase nas questões de gênero, sexualidade, segregação sócio-espacial e políticas públicas.

E-mail: luisfelipecarvalho21@hotmail.com

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