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Pesquisadora da UFSCar levou cinco anos para finalizar estudo e utilizou documentos e análise da obra do autor

 

De Coordenadoria de Comunicação Social – Universidade Federal de São Carlos

47410_isabel_final_5888208191510660081Muito já se especulou sobre a vida profissional do escritor Joaquim Maria Machado de Assis. As inúmeras biografias relativas a um dos principais escritores brasileiros concordam quanto ao posto de funcionário público que ocupou, e que este era a principal fonte de receitas do autor, que chegou ao posto de Diretor-Geral de Contabilidade do Ministério de Viação em Obras ao final de sua trajetória profissional. Mas, teria Machado de Assis sido lançado como diretor na área de Contabilidade por indicação política ou por mérito, pela atuação e competência na área? Esta e outras questões levaram Isabel Cristina Sartorelli, docente do Departamento de Administração do Campus Sorocaba da UFSCar, a realizar uma pesquisa que levou cinco anos para ser concluída, com o objetivo de responder de fato qual foi a profissão de Machado de Assis.
O artigo científico que traz o resultado da pesquisa, escrito em coautoria com o professor Eliseu Martins, docente emérito pelas faculdades de Economia, Administração e Contabilidade da USP e da USP de Ribeirão Preto, foi publicado na revista Estudos Avançados.
A pesquisa trata-se justamente de uma investigação a respeito do escritor ter exercido funções de um contabilista enquanto funcionário público. Essa afirmação não é consenso entre biógrafos de Machado de Assis. Para isso, o estudo traz um retrospecto da carreira de funcionário público e discute a relação do autor com a área contábil, o que inclui informações de sua vida funcional e de suas responsabilidades, além de analisar alguns fragmentos textuais e observações de biógrafos, com o objetivo de explorar a relação do autor com a Contabilidade. “Eu queria saber de fato como foi a atuação de Machado, o que ele fazia, que documentos assinava, queria saber o que fez durante décadas no serviço público”, explica Sartorelli.
Machado de Assis ingressou na vida pública em 1873, aos 33 anos de idade, por questões financeiras, e reconhece que seu papel de burocrata garantiria, até o fim de sua vida, o meio principal de sobrevivência. O escritor atuou como funcionário público, ocupando diversos cargos, por um período de 35 anos. Entre as diversas promoções que recebeu ao longo de sua carreira está a de Diretor de Comércio da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, em 1889. Algumas informações veiculadas em jornais da época dão uma ideia das responsabilidades de Machado de Assis neste cargo, dentre elas a de licitação sobre serviços de navegação para a região Norte, assinada por Machado, e que estabelecia a condição das barcas, preço das passagens, dentre outros detalhes.
Para o estudo foi feita a comparação das atribuições designadas ao ocupante do cargo de Diretor-Geral de Contabilidade com as atribuições técnicas dos profissionais que poderiam ser enquadrados como burocratas, como contador, economista e administrador, para, por aproximação, analisar com qual profissional a atuação de Machado de Assis mais se aproximaria. A conclusão é que se fosse vivo à época das primeiras legislações que trataram do reconhecimento das práticas profissionais e se tivesse solicitado o registro profissional, Machado de Assis teria teria obtido o reconhecimento como guarda-livros, denominação à época aplicada ao contador.
Também como parte da pesquisa, além da documentação profissional foi analisada a obra literária de Machado de Assis, em que se encontra um olhar aguçado sobre questões econômicas e financeiras. Também é possível notar a presença da figura de guarda-livros (contadores) em sua obra, como é o caso dos contos “Frei Simão (1870), “A inglesinha Barcelos” (1894), “Um homem superior” (1873), “Ernesto de Tal (1873), “Um almoço” (1877), “Pílades e Orestes” (1903), e do romance “Memorial de Aires” (1908). Sobre esta última obra, alguns biógrafos de Machado de Assis reconhecem no romance sua autobiografia, porém não é unânime a opinião sobre qual personagem seria o autorretrato do autor: alguns entendem ser o Conselheiro Aires, outros a personagem de Aguiar. Outras obras podem ser ilustrativas quanto à área de atuação em sua carreira como funcionário público, por exemplo suas crônicas publicadas em “A Semana”, em que a Contabilidade estava presente no repertório do autor.
Isabel Sartorelli alerta que essa pesquisa tem o potencial de trazer um novo olhar sobre o trabalho de Machado de Assis. “Pensando que o autor era sensível às questões econômicas, sabendo que ele foi Diretor de Contabilidade de um ministério e que tinha acesso a ministros e outras pessoas do alto escalão, dá para entender melhor o autor e sua obra.” Outro destaque da pesquisadora é como o papel de funcionário público e o de escritor se entrelaçam. “Acredito que a análise da vida funcional dele ajuda muito no entendimento de sua obra e, ao mesmo tempo, pode trazer um novo olhar sobre a figura do contador, uma profissão que tem muito ainda a crescer no Brasil”, finaliza.

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