Por que as mulheres fazem artesanato?

Sonia Regina Rocha Rodrigues

Resumo:

Desde a antiguidade as mulheres se ocupam de pequenos trabalhos manuais. Essa atividade, desdenhada por Simone de Beauvoir como mera ocupação para preencher o tédio, tem, no entanto, uma importância maior do que manter as mãos ocupadas. De fato, a atividade artística é prazerosa e auxilia na manutenção da saúde mental e emocional das pessoas (sim, porque homens também fazem artesanato!)

Synopsis:

Since ancient times women have been engaged in small manual labor. This activity, dismissed by Simone de Beauvoir as a mere occupation to fill the boredom, has, however, a greater importance than keeping the hands occupied. In fact, artistic activity is pleasurable and assists in maintaining the mental and emotional health of people (yes, because men also make handicrafts!).

       Simone de Beauvoir que me desculpe, eu discordo. Li seu livro aos 17 anos, hoje tenho 60 e falo com conhecimento de causa. Mulheres fazem artesanato porque é divertido, criativo, interessante e cada pequena peça cuidadosamente elaborada expressa vida.

       Nos anos setenta, O segundo sexo tinha seu peso. Garotas intelectualizadas (como eu) torciam o nariz para tarefas domésticas e varavam as madrugadas sobre os livros, visando um futuro financeiramente e socialmente independente.

A verdade? Eu adorava cozinhar e pintar. Também admirava as lindas colchas de crochê feitas por vovó. A pouca habilidade de minhas mãos canhestras foi um fator determinante em minha decisão de debruçar-me sobre os grossos compêndios. Formei-me e por 35 anos empenhei-me em trabalhos enfadonhos sonhando em pilotar o fogão. Minha alegria era estar em casa a cuidar dos filhos. Pude trabalhar meio período por alguns anos a vivia pensando nos momentos passados em casa com a família.

     Ao longo da vida, como muitas colegas, em intervalos dos plantões, dedicava-nos a pequenas tarefas manuais, usufruindo uma agradável sensação de relaxamento mesmo que o resultado final estivesse muito aquém dos mimos comprados prontos nas lojas. O resultado objetivo, a princípio um completo desastre, aprimorava-se com o tempo, gerando profunda satisfação. Aquele sapatinho, aquele paninho de prato, aquela touquinha, feitas com as próprias mãos, expressavam amor. Cada pecinha tecia a vida, acalmava a mente, trazia a atenção ao momento presente. Comecei a ver o artesanato como uma forma de meditação ativa, potente e eficiente, como descobre através dos anos.

       Quantos depoimentos de mulheres que começavam a bordar do lado de fora da UTI (unidade de terapia intensiva), às portas do centro cirúrgico, nas salas de espera dos terapeutas, enquanto aguardavam notícias dos entes queridos? “Deu-me conforto espiritual”. “Salvou-me da depressão”. “Diminuiu meu desespero”.

Velhice chegando, maridos morrendo, que os egoístas dos homens insistem em morrer antes, pais idosos com doenças degenerativas, o que salva centenas de mulheres da solidão e da tristeza? A arte e o artesanato, seu primo próximo e igualmente gratificante.

       Não, Simone de Beauvoir, o artesanato não é necessariamente” a ocupação que mantém as mulheres ociosas em casa, preenchendo o vazio de suas vidas inúteis”. Nem acredito que fosse assim para todas as mulheres dos séculos passados.

        Ao aposentar-me, fiquei feliz em dedicar meu tempo a sanar a frustração da adolescência: aprendi a tricotar, a costurar e a fazer patchwork. Não o faço por sentir-me inútil. É simplesmente divertido. O patchwork é um quebra-cabeça de adultos. De quebra, relembro geometria, que eu teria aprendido com mais facilidade no ginásio confeccionando roupas do que me debatendo com a questão retórica “pra que diabos serve isso?”. É difícil. Desafiante. Criativo.

          Sou, como sempre fui, uma pessoa muito ocupada, com múltiplos interesses. Ainda exerço a profissão, dois dias por semana. Frequento todos os grupos que sempre quis frequentar, onde se discute literatura, poesia, cinema e….artesanato também! Esses caminhos criativos nos conectam com as pessoas, expressam o nosso eu.

        Simone, nem toda mulher nasceu para ser intelectual, e eu, que sou intelectual assumidíssima, tenho, sim, meu lado caseiro que me dá muita alegria.

Neste bom século XXI a mulher pode ter o melhor dos dois mundos.

         Vamos, então, ser feliz. Simples assim.

Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora e médica, idealizou o jornal “Um Dedo de Prosa” e foi co-editora da revista literária “Chapéu-de-Sol”, que circulou em Santos/SP de 1996 a 2001. É autora dos livros de contos “Dias de Verão”, (1998). É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014).

Em 1996, participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto “A Auditoria”, representando a cidade de Bebedouro. Sua monografia “A Importância da Cultura Para a Formação do Cidadão” foi utilizada pela prova do Enem em 2011.

http://soniareginarocharodrigues.blogspot.com.br/

Este artigo foi publicado originalmente na revista Santos – Arte e Cultura em outubro de 2015

 

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