imagem de  http://vivomaissaudavel.com.br/atividade-fisica/esporte/balonismo-requer-investimento-financeiro/.

imagem de http://vivomaissaudavel.com.br/atividade-fisica/esporte/balonismo-requer-investimento-financeiro/.

ENTRE VOOS E QUEDAS

Margarete Hülsendeger

Nós lidamos mal com a morte, essa coisa banal, única; não conseguimos mais colocá-la num contexto mais amplo.

Julian Barnes

Todos, em algum momento, desenvolvemos estratégias para lidar com a morte. Alguns choram, outros permanecem em silêncio, há os que se voltam para a religião e existem aqueles que, simplesmente, surtam. Eu, segundo familiares, estou no último grupo. Quando minha mãe faleceu, há mais de 20 anos, tive uma reação estranha: no velório mantive-me falante, quase alegre, fazia piadas, e não parava de repetir, para quem quisesse ouvir, que ela estava bem e, mais importante, eu estava ótima. Sim, é estranho, mas não faça julgamentos apressados.

Obviamente, esse “bem” ou esse “ótima” era uma ficção construída com o único propósito de lidar com a dor profunda da perda de uma das pessoas que mais amei na vida. Depois do enterro, senti as paredes que havia erguido se derrubarem e o que ficou foi a sensação indescritível de estar exposta, em carne viva. Meu desejo era me esconder e continuar fingindo que tudo estava bem. No entanto, na época meu filho ainda não havia completado dois anos e precisava da mãe ao seu lado. Além disso, sendo professora tive, como qualquer trabalhador, apenas sete dias para “gerenciar o luto”, pois, a vida não espera, ela segue independente de nossas dores e desejos mais profundos.

Lidei com o luto da melhor maneira possível e, se vou ser sincera, continuo lidando com ele até hoje. A imagem de minha mãe, aos poucos, foi perdendo os contornos a ponto de, muitas vezes, precisar olhar fotos antigas para lembrar do seu rosto. Esse apagamento das imagens é uma das grandes culpas do sobrevivente, pois se assemelha a uma traição: “Como é possível não lembrar das diferentes expressões do rosto de alguém que se amou tanto?”. Sim, a culpa é imensa, mas ao longo dos anos aceitei que esse apagamento é normal, diria mais, necessário para que se possa seguir em frente. Isso não significa, no entanto, que eu não lembre dela. Ao contrário. Hoje minhas memórias estão mais ligadas a sensações do que a imagens. Assim, posso não recordar com clareza do seu sorriso, mas lembro do que ele provocava. O mesmo acontece com o seu cheiro ou o sentimento de estar sentada no seu colo. Essas lembranças ainda são incrivelmente nítidas.

De qualquer maneira, essa tem sido a minha maneira de lidar com o luto, mas como disse antes há outras formas. O escritor inglês Julian Barnes, por exemplo, escreveu um livro chamado Altos voos e quedas livres[1] (2014), onde conta a sua experiência com o luto. Um livro que, ao trabalhar esse tema, transforma-se em uma linda e emocionante declaração de amor. Dividido em três partes, Barnes brinca com a história do balonismo, com uma história de amor que não deu certo e termina com o seu testemunho sobre a morte. Na verdade, as duas primeiras partes – “O pecado da altura” e “No nível do chão” – são uma preparação para a terceira, “A perda da profundidade”.

altosvoosA esposa do autor, a agente literária Pat Kavanagh (1940-2008), diagnosticada, em 2008, com câncer no cérebro, sobreviveu apenas cinco semanas após o diagnóstico. Barnes permaneceu ao seu lado até o fim e, seis anos depois, transpôs para Altos voos e quedas livres seus sentimentos sobre a perda daquela que foi o amor da sua vida; “a vida do seu coração”. Trata-se, portanto, de um testemunho pungente, no qual a dor não se apresenta encoberta ou disfarçada, mas completamente exposta.

Ao mesmo tempo que Barnes expõe ao leitor suas emoções e sentimentos, ele também faz reflexões sobre a morte, o amor, a vida em comum e a amizade. Além disso, ele continuamente lança alertas que o leitor mais sensível poderá intuir como uma forma de exorcismo. No início da terceira parte, por exemplo, ele escreve que a dor nunca é igual para todos, pois enquanto alguns encaram a morte como uma espécie de carta de alforria (“Estou livre!”), para outros é como se uma parte vital fosse arrancada, de maneira que “uma dor não lança luz sobre outras”, como parece ter sido o seu caso.

Altos voos e quedas livres é um livro curto (128 páginas) e, segundo a pesquisa que realizei na internet, foi lançado sem nenhum aviso. Diante de um conteúdo tão pessoal, não posso acreditar em um golpe de marketing; afinal, um produto só pode ser bem vendido se antes for muito bem anunciado, o que não foi o caso. Por essa razão, prefiro pensar que o autor desejou apenas que esse livro fosse visto como uma espécie de tributo a sua amada esposa, uma declaração de seu profundo amor por ela. Essa ideia fica clara (pelo menos para mim) quando, quase ao final, ele diz ter pensado em suicídio, mas que rejeitou a ideia porque, se fosse adiante com ela, estaria matando a esposa pela segunda vez: “Ela morreria uma segunda vez, minhas vivas lembranças dela desaparecendo à medida que a água do banho fosse ficando vermelha”. E Barnes pergunta o que todo o sobrevivente também se pergunta: como vou viver de agora em diante?

Pensar o luto não é fácil. Vivê-lo parece uma tarefa impossível. Nesse sentido, Altos voos e quedas livres é quase um manual de sobrevivência, pois o autor passa por todas as etapas e problemas do enlutado: o fato do luto ser uma condição humana e não médica, portanto, não existindo compridos para curá-la; a decisão de falar da esposa sempre e quando quisesse (fiz o mesmo!); das amizades, que podem se fortalecer ou, simplesmente, perder a importância, já que nem todos conseguem lidar bem com a dor do outro; a raiva do morto, de Deus, de si mesmo, do universo e até da “indiferença da vida que simplesmente continua até que simplesmente acabe”. E, finalmente, o medo de nunca mais ser feliz.

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestre em Teoria Literária na PUC-RS

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestre em Teoria Literária na PUC-RS

Altos voos e quedas livres é um soco no estômago, mas, no meu caso, que ainda me vejo lutando com a tristeza da perda, foi um momento de reencontro comigo mesma e com a memória de minha mãe. A identificação foi imediata, parecia que o autor estava sentado diante de mim compartilhando suas emoções e sentimentos e me mostrando que eu não estou sozinha. Por essa razão, é um livro intenso e que eu li de um fôlego só. É também um texto sensível, absolutamente emocionante e ao qual não conseguimos ficar indiferentes. Barnes, já nas últimas páginas, lança um novo alerta: “…existem muitas armadilhas e muitos perigos no luto, e o tempo não os diminui”. É verdade. Hoje, passados mais de 20 anos, ainda luto contra a autopiedade, o isolacionismo e o sentimento, mistura de egoísmo e vaidade, de que minha dor é maior do que a de qualquer outro.

Desse modo, para quem não tem medo de olhar de frente a dor do outro ou a sua própria, recomendo, fortemente, Altos voos e quedas livres. Trata-se não só de um livro muito bem escrito, mas de uma narrativa que consegue revelar todos aqueles pontos sensíveis que, na maior parte do tempo, mantemos muito bem escondidos.

Boa leitura, mas lembre-se de ter à mão uma caixa de lenços de papel!



[1] BARNES, Julian. Altos voos e quedas livres. São Paulo: Rocco, 2014.

Compartilhe esse texto

Share to Google Buzz
Share to Google Plus
Share to LiveJournal
Share to Yandex