Assim deve ser o amor

ASSIM DEVE SER O AMOR

Margarete Hülsendeger

 

Talvez entre eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço instransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência.

Carola Saavedra

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Inventário: “descrição detalhada do patrimônio de pessoa falecida, para que se possa proceder à partilha dos bens” ou “levantamento minucioso dos elementos de um todo; rol, lista, relação”. Ausente: “que ou quem se afastou temporariamente do lugar em que habita, que frequenta etc.” ou “que não se envolve, que não tem parte ativa em um relacionamento, em um grupo etc.; distante”. O primeiro, um substantivo, o segundo, um adjetivo, que, se combinados em uma mesma frase, podem gerar uma espécie de paradoxo. Afinal, como inventariar algo que não está, que se afastou? No entanto, essa é a proposta da escritora Carola Saavedra, no romance O inventário das coisas ausentes[1].

Saavedra nasceu no Chile, mas desde os três anos vive no Brasil, tendo cursado Jornalismo na PUC do Rio de Janeiro e mestrado em Comunicação Social na Alemanha. Com quatro romances publicados[2] e alguns prêmios[3] ela foi escolhida pela revista Granta[4] como um dos vinte melhores jovens escritores da literatura contemporânea brasileira. Contudo, apesar desse currículo invejável, preciso confessar que eu não a conhecia.

Assim como já aconteceu muitas outras vezes, fiquei sabendo dela por meio de uma outra leitura. Como as referências foram bastante positivas, fui, movida pela curiosidade, procurar uma de suas obras, o que acabou me levando ao Inventario das coisas ausentes. Trata-se de um livro pequeno (128 páginas), mas nem por isso menos rico em sutilezas, com um texto muito bem escrito, personagens consistentes e um todo, não só coerente, mas cheio de significados. Um romance que, desde o primeiro minuto, força o leitor a ficar atento, pois o que aparentemente não tem relação é o que dá sentido à história.

O Inventário está dividido em duas partes, a primeira chama-se “Caderno de Anotações” e a segunda “Ficção”. No “Caderno” vamos encontrar, além das histórias dos protagonistas – uma mulher chilena, chamada Nina, e um escritor –, várias histórias paralelas que parecem ter sido extraídas ao caso das páginas de um jornal. Em “Ficção” o leitor depara-se com uma narrativa densa, entremeada de silêncios, de sentimentos fortes e até mesmo angustiantes.

De Nina ficamos sabendo quase tudo: a profissão do pai (engenheiro), o fato de o avô paterno ter passado de cineasta socialista a membro entusiasta da Igreja Presbiteriana, do casamento desastroso de sua avó materna e até mesmo um pouco da história da bisavó (mãe do pai de sua mãe), “uma das primeiras mulheres no Chile a dirigir um carro”. Essas histórias familiares são interrompidas pelo narrador para mostrar como evolui o relacionamento de Nina com o escritor. Quando ela um dia desaparece, sem aviso ou explicações, deixa para o escritor uma caixa forrada de vermelho contendo dezessete cadernos, os seus diários. Diários que ele só abriria quatorze anos depois.

O interessante é que o narrador dessa primeira parte é, na verdade, o escritor, namorado de Nina. É ele que narra as histórias relacionadas com a família de Nina e fica, após o seu desaparecimento, como guardião de suas memórias. O escritor (ele não tem nome) é um homem que se arrasta pela vida, cercado por uma nuvem de apatia, indiferente a quase tudo: “Há uma mulher. Luiza. Casamos. Foi assim, um dia acordei, fiz café, olhei para aquela mulher sentada à mesa, eu disse, e se a gente casasse, ela sorriu, foi até onde eu estava, me abraçou e casamos, pronto”. O próprio tema do livro que deseja escrever vai sendo revelado aos poucos: “Ainda não sei nada sobre a história. Apenas algumas ideias desconexas, um homem velho, uma casa, diários. Um filho”. Quando um amigo sugere que ele escreva um romance autobiográfico ele responde, “não gosto de romances que acabam antes do fim”. Nessas incertezas e inseguranças, avanços e retrocessos, observa-se o trabalho por detrás do ofício de escrever, na maioria das vezes um processo complicado sobre o qual o próprio escritor não tem controle.

No “Caderno de anotações” há uma mistura de presente e passado e de relacionamentos que, na maior parte do tempo, carecem de comunicação. Ao término do “Caderno”, o escritor está a ponto de abrir o primeiro dos dezessete cadernos e, quando o faz, decide lê-los como se fossem parte de um romance, pensando que “Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção”.

Pessoalmente, considero a segunda parte do Inventário, “Ficção”, a mais interessante e instigante. Ali vamos encontrar um espaço onde o não dito é mais eloquente do que o dito e no qual tudo o que foi laboriosamente construído na parte inicial se encaixa como as peças de um grande quebra-cabeça. Em “Ficção” não há diálogos e nem histórias paralelas, mas apenas o confronto entre um pai e um filho que não se veem há vinte e três anos: “Há lugares que nunca nos abandonam. Me aproximo, não sei se me anuncio, se bato na porta, se espero. Mas ele se adianta, do outro lado, ele à espreita, entre, reconheço a antiga voz. Por mais que planejemos. Vinte e três anos, eu entro”.

Um pai abusivo, um filho refém de uma educação sem afeto, baseada sempre no desejo cruel de ensinar diminuindo, menosprezando, um ódio que se constrói a fogo lento, um rancor sem fim impossibilitando qualquer tipo de diálogo. Esses são alguns dos ingredientes de “Ficção” que, na verdade, é longo e sofrido monólogo, pois apenas um fala (o pai) enquanto o outro (o filho), em silêncio, remói antigas e dolorosas lembranças: “Porque filho meu não tem medo, ouviu, filho meu pode ser até bandido, pode até ser injusto, pode até morrer ou matar, mas não pode é ser assim como você, um covarde”.

Reparem: estou me esforçando para não adiantar informações que possam tirar o prazer da leitura. Sem contar que qualquer explicação que eu possa dar será apenas isso, uma explicação. Minha leitura, com certeza, será diferente da sua. A tensão que eu disse sentir na segunda parte, talvez você sinta na primeira ou nem mesmo sinta. Muito provavelmente o que me tocou, não toque você, pois quando lemos também levamos para dentro da história nossas experiências, desejos e expectativas e é isso que torna a literatura tão rica e especial.

De minha parte, só posso recomendar O inventário das coisas ausentes como um livro muito bem escrito, com uma narrativa bem construída, com personagens fascinantes nos quais não falta profundidade e coerência. Uma história de encontros e desencontros, onde o amor, quando aparece, o faz das mais diferentes formas. Vale a pena a leitura!

[1] SAAVEDRA, Carola. O inventário das coisas ausentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

[2] Toda terça (2007), Flores azuis (2008), Paisagem com dromedário (2010) e Inventário das coisas ausentes (2014), todos publicados pela Companhia das Letras.

[3] Toda terça, melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte; Paisagem com dromedário, prêmio Raquel de Queiroz na categoria jovem autor. E finalista, por duas vezes, nos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

[4] Revista literária britânica que divulga trabalhos de jovens autores.

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