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“A fonte das mulheres”: narrativas e linguagem cinematográfica para a desconstrução do machismo

“A fonte das mulheres”: narrativas e linguagem cinematográfica para a desconstrução do machismo

Ramon Bezerra de Souza [1]

Jadson Pereira Vieira[2]

Kátia Farias Antero³ 

 

Resumo: A ideia de “superioridade masculina” se manifesta nas mentalidades das ditas sociedades ocidentais em seus diversos meios estruturais, podendo ser destacado então: âmbito familiar, educacional, econômico, político, social dentre outros, esta “superioridade”, foi instituída historicamente partir de um do que Machado (2000) chama de modelo patriarcal de sociedade. Para quebrar tais ideias precisamos desconstruir os lugares destinados ao que se diz ser masculino e ou feminino dentro de uma perspectiva das relações de gênero para que seja formada uma educação escolar menos misógina e sexista. Neste sentido, objetivamos com este trabalho desenvolver uma crítica à produção cinematografia “A Fonte das Mulheres”, de modo a apresentá-la como um instrumento de problematização em sala de aula sobre o protagonismo feminino na História. E, como a narrativa fílmica pode ser utilizada pelos (as) professores (as) na promoção de uma educação voltada para a diversidade de gênero. Dialogamos teoricamente com Foucault (1970), quando fala das relações de poder e usamos suas considerações acerca dos discursos, assim como Aguiar e Barro (2015), que propõem uma ressignificação do papel social da mulher, além de Ferro (1992) para traçar meios a utilização do filme e sala de aula. A aceitação da diferença do outro, e até indo além, o reconhecimento de que é importante que exista a diferença, de que deve está presente o diálogo, a troca de saberes e a reflexão de argumentos de ambos os lados, deixando de lado o fundamentalismo, que tanto causa silêncios opressores em determinadas sociedades, é algo que deve ser construído na mentalidade do aluno ao mesmo tempo em que desconstruímos conceitos arcaicos e machistas.

Palavras- chave: Mulheres, Gênero, Filme e Ensino de História.

 

“La fuente de las mujeres”: lenguaje narrativo y cinematográfico para la deconstrucción del machismo .

Resumen: La idea de “superioridad masculina” se manifiesta en la mente de las llamadas sociedades occidentales en sus diversas medidas estructurales que se pueden observar a continuación: parte de la familia, educativo, económico, político, social y otros, esta “superioridad” se estableció históricamente de una de Machado (2000) denomina el modelo patriarcal de la sociedad. Para romper tales ideas deben deconstruir, los lugares de lo que se dice que es hombre o mujer, y dentro de una perspectiva de las relaciones de género de recibir una educación menos misógino y se forma sexista. En este sentido, nuestro objetivo es trabajar para desarrollar una crítica de la producción de la cinematografía “La Fuente de la Mujer”, con el fin de presentarlo como un instrumento problemático en clase sobre el papel de la mujer en la historia. Y a medida que la narrativa película puede ser utilizada por los (las) maestros (as) en la promoción de una educación menos misógino. Dialogó teóricamente con Foucault (1970), cuando habla de las relaciones de poder y utilizar sus consideraciones acerca de los discursos, así como y Aguiar y Barro (2015), que propone una reinterpretación del papel social de la mujer y de hierro (1992) para dibujar significa el uso de la película y en el aula. La aceptación de la diferencia de la otra, e incluso más allá, el reconocimiento de que es importante que haya una diferencia, que deberían es este diálogo, el intercambio de conocimientos y los argumentos de reflexión sobre ambos lados, dejando a un lado el fundamentalismo que tanto los silencios causan opresores en determinada sociedad, es algo que debe ser construido en la mentalidad del estudiante mientras que desconstruir conceptos arcaicos y sexistas.

Palabras clave: Mujeres, Género, Cine y enseñanza de la historia.


 

INTRODUÇÂO.

Problematizar o papel das mulheres dentro do campo da História é compreender os lugares que a elas são devidos. Estas são protagonistas de histórias possíveis, mas infelizmente, ainda pensar desta forma é um desafio aos estudos acadêmicos, que devem muito as mulheres que foram silenciadas de seus escritos. Segundo Rago (1998), é preciso quebrar pensamentos que se julgam o modelo de Homem como ser universal, que se posta como “o branco, heterossexual, civilizado do Primeiro Mundo, deixando-se de lado todos/as aqueles/as que escapam deste modelo de referência.

Há quem diga, aliás, que a questão interessa pouco ao “feminismo dos trópicos”, onde a urgência dos problemas e a necessidade de rápida interferência no social não deixariam tempo para maiores reflexões filosóficas.  Contrariando posições e    tentando aproximar-me da questão, gostaria de esboçar algumas ideias. Afinal, se considerarmos que a epistemologia  define um campo e uma forma  de  produção  do  conhecimento,  o  campo  conceitual  a  partir  do  qual  operamos  ao produzir o  conhecimento científico, a maneira pela qual estabelecemos a relação sujeito-objeto do conhecimento e a própria representação de conhecimento como verdade com que operamos, deveríamos prestar atenção ao movimento de constituição  de uma ( ou seriam várias?) epistemologia feminista, ou de um projeto feminista de ciência. (RAGO,1998, p.3)

Não se trata como defende Rago (1998) e por tantas/os outras/os que discutem o tema “Mulher”, de criar dicotomias e esquemas binários[3] entre Homem-Mulher, que alimentam divisões e separatismos entre os sexos, o que se pretende com estes debates é adentrar nas ralações, que são antes de tudo de “Poder” [4] e se estabelecem nos âmbitos sociais.

Sobre o trabalho com a desconstrução dos machismos em sala de aula, nestes escritos, procuramos traçar um pouco de uma nova possibilidade de narrativa para o professor de História, que em seu ambiente de debates pode reeducar sues educando para uma aceitação da mulher em patamar de igualdade aos homens contribuindo assim para diminuição do Machismo.

Este artigo e apresentado em um primeiro momento com uma breve conceituação da trajetória Historiográfica dos estudos sobre as mulheres do Gênero, mostrando alguns entraves e os debates que se delinearam ao longo do século XX e posteriormente buscamos apresentar uma possibilidade para o debate do Professor em sala de aula, a análise do filme “A fonte das mulheres”, este segundo momento se caracterizando como uma proposta didático/metodológica dentre inúmeras existentes para o trabalho na perspectiva de gênero em sala de aulas.

Entre a história das mulheres e o gênero: proposta de uma educação antissexista.

Pensar os estudos sobre as mulheres é lançar olhares para praticamente do mundo ocidental, e, sobretudo, quando estamos falando da História do Brasil, temos que pensar esta problemática a partir de disputas que se caracterizaram como tensões existentes nas relações entre homens e mulheres dentro da nossa formação histórica. É nestes entrelaçamentos de debates que colocamos em discussão a categoria epistêmica “Gênero”, que tão foi bem definida por Scott (1995) quando fala sobre as disputas que culturalmente se construíram nas relações entre os gêneros na História.

Partindo do pressuposto que as relações em sala de aula, não são obstantes das que acontecem nas outras esferas da vida social e neste sentido o educador constantemente se depara com relações de disputas de poder entre os educandos e estas disputas muitas vezes pautadas em uma ideia de segregação machista[5] e misógina[6]. Assim, a nosso ver, a sala de aula é um lugar de desconstrução de preconceitos e de debate sobre os gêneros. Partindo deste pondo podemos iniciarmos nossa discussão apresentando um pouco sobre a história do conceito Gênero para posteriormente o apresentarmos como elemento de debate em sala de aula.

Sobre a origem do termo, este surge nos pensamentos sobre as lutas das mulheres no Brasil, lutas estas que são divididas pelas feministas em três momentos mais evidentes, conhecidos como “Ondas”, como vai dizer Pedro (2006). Tais ondas seriam momentos históricos em que o pensamento sobre as mulheres tem picos de efervescência política de reivindicações, isto em uma escala mundial, mais que de certo modo influencia os debates existentes no Brasil.

De certo modo, estudar o processo de formação dos debates sobre Gênero, não pode passar à História de forma dissociada as lutas sociais promovidas pelas feministas, no decorrer do século XX, por isso, faz-se necessário entender que os dois momentos foram marcados por levantes de lutas sociais das feministas, sendo o primeiro deles no início do século e o segundo nos anos de 1960.

O feminismo como movimento social visível, tem vivido algumas “ondas”. O feminismo de “primeira onda” teria se desenvolvido no final do século XIX e centrado na reivindicação dos direitos políticos – como o de votar e ser eleita –, nos direitos sociais e econômicos – como o de trabalho remunerado, estudo, propriedade, herança. O feminismo chamado de “segunda onda” surgiu depois da Segunda Guerra Mundial, e deu prioridade às lutas pelo direito ao corpo, ao prazer, e contra o patriarcado – entendido como o poder dos homens na subordinação das mulheres. Naquele momento, uma das palavras de ordem era: “o privado é político”. (PEDRO, 2005, P.79)

Em um primeiro momento o feminismo, no caso brasileiro, se desenvolverá nos anos iniciais do século XX, marcado por mulheres que tiveram em suas personalidades, uma construção de militância. Suas Histórias de vida foram marcadas por reivindicações a espaços políticos e ideológicos, que até então lhe eram devidos. Na recente república brasileira, algo bastante corriqueiro eram os cerceamentos das liberdades políticas das mulheres. Até a década de 1930, por exemplo, era proibido o direito feminino ao voto e em períodos anteriores, como bem analisou Soihet (2000), as mulheres não poderiam trabalhar em serviço público. Basta lembrar que a Bióloga Bertha Lutz, foi em 1918, a primeira mulher a entrar na carreira pública brasileira, para trabalhar no Museu nacional do Rio de Janeiro. Fato este que ocorreu, segundo a autora, em meio a fortes protestos de candidatos que inclusive se recusaram a concorrer em uma seleção pública na qual se aceitava a participação de mulheres. “Um dos candidatos chegou a enviar uma carta para o diretor do Museu, reclamando da participação de uma mulher, o que considerava contra todas as boas normas da moral e da família, e, revoltado, desistiu ele do concurso”. (SOIHET, 2000, p.97).

A primeira Onda foi decisiva para inserção de várias destas agentes sociais no contexto da sociedade patriarcal brasileira, pois abriu brechas às outras em momentos futuros, entrarem no serviço público e tirem direitos à cidadania. São repercussões para a escrita inclusive da História destas, Bertha Lutz[7] é um exemplo dentre tantas que surgem neste período e que de maneira direta irão iram influenciar uma escrita da História das Mulheres.

A “Segunda Onda”, começa a partir do termino da segunda guerra e ganha mais força com os movimentos políticos dos anos finais da década de 1960 e início de 1970, pensamentos de uma militância de esquerda e de mulheres que em suas Histórias de vida foram marcadas pelas lutas dos direitos femininos. Simone de Bouvard, com sua obra o Segundo Sexo[8], retoma o debate sobre questões relacionadas a esta “nova militância” feminista, que ganha muita força na Perspectiva dos estudos Historiográficos a partir da década de 1970, coma chamada “Nova História” [9], e seus estudos sobre os ditos excluídos (Mulheres, Negros, Camponeses, Ciganos, Etc.). Bem como, a aproximação destas novas produções da História com a Antropologia Cultural, vão ser marcos deste momento de efervescência política que de certo modo influenciam diretamente no que foi produzido naquele momento.

Prova das mudanças que ocorreram neste momento histórico é o próprio surgimento do conceito de Gênero, que em meados de 1970, ganhando força como substituto para os debates até então existentes em torno da História das mulheres, visão esta defendida por alguns teóricos. Mas a questão que se constrói é, quais destas perspectivas teóricas (Gênero ou História das Mulheres) seriam mais adequadas para o trabalho com a História? O que cada uma traria de vantagem ou desvantagem teórica? Estas são questões que exigem um exercício de reflexão historiográfico profundo e que não podem ser respondidas por reducionismos nem muito menos por classificações de graus de utilidade de cada um destes conceitos.

A resposta estaria muito mais na compreensão das trajetórias das correntes teóricas que irão defender cada um destes conceitos, basta refletir como fez Del Priore (2005) ou Scott (1995)[10] e pensar que na verdade são caminhos possíveis para se chegar a interpretações, que têm como base a falta de voz que foram negadas nos vários momentos da escrita da História.

Pensamos que os debates foram importantes para a construção de uma História feminista, independente da corrente que se põe para o estudo delas o interessante é perceber que buscam, com bem disse Rosa (2013), uma quebra da “invisibilidade que faz parte da história das mulheres, ou dos lugares reservados a elas Historicamente.” Para que mudemos visões, que como bem Sabemos, envolvem “sociedades patriarcais como a nossa a lugar das mulheres ao longo dos séculos oficialmente, tem sido o espaço privado – espaço doméstico da casa da cozinha, do quarto, etc. espaço que é dado pela invisibilidade e o silêncio (ROSA, 2013, p. 45)”

Algumas feministas irão tomar um caminho diferenciado quanto aos pensamentos sobre os estudos relacionados às mulheres. Para Scott e Davis, esta História deveria ser repensada, uma vez que, os estudos que vinham sando desenvolvidos se baseavam em premissas de uma valorização da figura feminina na História em detrimento aos demais humanos (Homens, Gay e outros). Deste modo, a reflexão que deveria ser feita, segundo Scott (1995), estava justamente às disputas existentes entre os sujeitos (Masculino-Feminino). Esta visão ajudou a criar os pensamentos do que se chama de terceira Onda feminista, que se abriu muito mais as diversidades dos conflitos.

Penso que deveríamos nos interessar pela história tanto dos homens quanto a das mulheres, e que não deveríamos tratar somente do sexo sujeito, assim como um Historiador da classe não pode fixar seu olhar apenas sobre os camponeses. Nosso objetivo é compreender a importância dos sexos, isto é, dos grupos de gênero no passado histórico. Nosso objetivo é descobrir o leque de papeis e de símbolos sexuais nas diferentes sociedades e períodos, é encontrar qual era o seu sentido e como eles funcionam para manter a ordem social ou para muda-la (SCOTT, apult. DAVIS, 1995 p.72)

Partindo de uma visão que as relações humanas se constroem entre as relações de disputa de poder entre os sexos, e que estas disputas são imprescindíveis para o entendimento de muitas das construções culturais do mundo ocidental, como afirma Foucault (1988), quando pensa que a “História da sexualidade” nas sociedades contemporâneas se caracterizam como fumacenta de reflexão para o historiador. Neste sentido, o “Gênero” surge como alternativa de explicações das relações femininas na História, mostrando que estas agentes se relacionaram e se relacionam com outros sexos.

Assim como, no movimento feminista, foi do interior da categoria mulheres que surgiu a categoria gênero, foi também entre as historiadoras que estavam escrevendo sobre história das mulheres que a categoria de análise “gênero” passou a ser utilizada.  Estas foram inspiradas, em sua maioria, pelo texto, muitas vezes citado, de Joan Wallach Scott: “Gênero: uma categoria útil de análise histórica (PEDRO, 2005, p.86)

Após as ponderações apresentadas sobre o termo “Gênero” e suas ligações com as lutas do feminismo no Brasil e no mundo, podemos marcar temporalmente seu surgimento nos Estados Unidos da América (EUA) por volta de 1968, como afirma Pedro (2005), este irá ganhar repercussão e servirá ao feminismo como forma de pensar as explicações para a subordinação das mulheres ao mundo dos homens, também será um instrumento de luta política na tentativa de afirmar poder a este conceito semelhante ao que ocorria com os de “Raça” e “Classe”.

Sobre os sentidos da palavra Gênero, surge de um debate existente no feminismo, em que algumas línguas – dentre elas o Português, são machistas, tornando-se evidente disputa na construção dos sentidos das palavras. Tal discussão vem para diferenciar o termo “Sexo” dos objetos e dos seres (masculino e feminino). Que no caso dos últimos, seria algo posto biologicamente, do Gênero que seria uma construção social das culturas humanas ocidentais.

O termo surge dentro do próprio campo da História das mulheres transformando-se em um conceito que para muitos/as historiadores/as mais completo ao estudo sobre o lugar das mulheres na sociedade. É bem verdade que desde seu surgimento até a atualidade a compreensão de sua utilização ganhou um leque de possibilidades que transcendem tentativas de explicação nestes escritos. Mas, de maneira geral este conceito ainda continua valido para a construção de sustentáculos à História.

Uma vez entendidos sobre o que é Gênero, ou melhor, dizendo o que sãos as relações entre os gêneros, podemos lançar sobre as possibilidades de trabalho com esta categoria em sala de aula, para este artigo nos propomos a analisar o Filme “A fonte das mulheres” como proposta metodológica de debate nas aulas de História sobre os lugares ocupados pelas mulheres dentro da História ocidental, com intuído de quebrarmos preconceitos e traçarmos novos caminhos e possibilidades de debate.

 

 A Fonte das mulheres: uma análise fílmica como proposta para o trabalho com gênero em sala de aula.

O filme ‘’A Fonte das mulheres’’, dirigido por Radu Mihaileanu (diretor de filmes como “Trem da vida”, “Um Herói do Nosso Tempo”, “O concerto”, entre outros), com roteiro de Alain-Michel Blanc e do próprio diretor, foi lançado em 2011 na França, distribuída pela Paris Filmes com o título original ‘’La Source des Femmes’’, e tem sob ponto de gênero cinematográfico aspectos de drama e comédia. Mas antes de fazer uma análise reflexiva do filme, faz-se necessário, como bem explicita Certeau (1975) fazer um apanhado do lugar social de quem o produziu, visto que isso não é apenas uma crítica de um filme, mas uma análise historiográfica.

Radu Mihaileanu é um cineasta judeu-romeno radicado na França. Nasceu em 1958 em Bucareste, na Romênia. Formou-se no Institut des Hautes Études cinématographiques, uma escola francesa de cinema, com sede em Paris. A partir da sua formação acadêmica no cinema podemos nos ater a uma característica marcante desse instituto francês, o de possibilitar o ingresso estrangeiro com certa frequência, promovendo a essa instituição um caráter cosmopolita de ensino, principalmente direcionado a estudantes de países pobres ou de países em desenvolvimento.

Ao sair IDHEC, muitos destes estudantes retornam a seus países para praticar o que foi ensinado, inclusive muitos jovens latino-americanos, atraídos pela tradição francesa cinematográfica. Os cineastas mexicanos Felipe Cazals e Paul Leduc também estudaram na IDHEC, assim como o diretor Pham Ky Nam, que em 1959 dirigiu o primeiro filme Vietnamita. A escola também permite o surgimento da primeira geração de cineastas da África Negra, como Paulin Vieyra SoumanouGeorges CaristanBlaise SenghorYves Diagne. Visto isso, Radu teve uma formação abrangente, que entrava em contato com diversas culturas estrangeiras, numa espacialidade onde o diferente era aceito e incentivado.

Radu e Alain-Michel Blanc produziram o roteiro onde abordaram a história de uma pequena comunidade localizada entre o norte da África e o Oriente Médio, em que as tradições islâmicas são fortemente enraizadas e onde o lugar social da mulher era estratificado a uma condição meramente procriadora e de manutenção do lar, não cabendo a elas interferir em assuntos ditos masculinos.

Essa localidade ainda não via as influências consideradas modernas, sem abastecimento de água, luz elétrica e a maioria dos habitantes viviam com pouco e em situação de miséria. Outro ponto a ser explicitado sobre a tradição islâmica presente nessa especifica comunidade, e ao qual faz alusão ao título do filme, é a de que as mulheres desse vilarejo, com frequência tinham que ir buscar água em um local distante e de difícil acesso, devido à indisponibilidade de abastecimento desse recurso na comunidade, fazendo isso sem qualquer auxílio por parte dos homens. Os baldes eram pesados e o caminho era pedregoso e traiçoeiro, fazendo com que por diversas vezes as mulheres caíssem, e o filme demonstra bem a seriedade disso quando diante de um acidente, uma das mulheres perde o bebê, algo que inclusive era tido como bastante comum.

Ao perder um bebê, a mulher ao qual passava por isso era tida como infértil, ou seja, perante uma sociedade marcada pela figura feminina onde a principal função era procriar, essa mulher se tornava mal vista e renegada. Diante disso, as mulheres resolvem fazer uma greve de sexo, ou como chamado no filme, uma greve de amor, onde só voltariam a ter relações com seus esposos quando eles se dispusessem a ajuda-las.

Vários são os debates que podemos dispor a partir dessa fonte histórica, sim, aqui o filme será visto como uma fonte histórica, pois como bem assinala Ferro (1976) em sua obra ‘’Cinema e História’’, alguns historiadores tradicionais não se dão conta da contribuição que o cinema traz. Mas longe de uma análise inocente das obras cinematográficas, ele faz um contraponto teórico metodológico onde aponta os caminhos iniciais para adentrar em uma análise satisfatoriamente histórica. Para além das representações do real contidas no filme, o historiador deve buscar o oculto, o não dito.

Partir da imagem, das imagens. Não buscar nelas somente ilustração, confirmação ou o desmentido do outro saber que é o da tradição escrita. Considerar as imagens como tais, com o risco de apelar para outros saber para melhor compreende-las. Os historiadores já recolocaram em seu lugar legítimo as fontes de origem popular, primeiro as escritas, depois as não escritas: o folclores, as artes e as tradições populares. Resta agora estudar o filme, associa-lo com o mundo que o produz. Qual é a hipótese? Que o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autentica ou pura invenção, é História. E qual o postulado? Que aquilo que não aconteceu (e por que não aquilo que aconteceu?), as crenças, as intenções, o imaginário do homem, são tão História quanto a História. (1976,p.6)

Segundo Nova (2007) devemos ir além das imagens, buscar elementos da realidade histórica através da ficção, indo além do que está sendo apresentado e assim, compreender as entrelinhas. No caso do filme analisado, podemos estabelecer uma reflexão sobre três eixos principais: mulheres, homens e Estado-religião. No que se refere às mulheres, podemos identificar a influência que o machismo exerce na maioria delas, muitas delas contidas e com medo de tomar alguma ação contrária as ordens do marido. O que muda o quadro dessa situação são os discursos produzidos pela personagem Leila (interpretada pela atriz Leïla Bekhti), esta, que não havia sido criada na comunidade, mas que veio casar-se com um de seus membros, Sami (interpretado por Saleh Bakri), homem que estudou fora (essa experiência vai fazer com que ele tenha uma perspectiva mais consciente, mais flexível, quebrando os moldes da tradição arraigada em si) e que se tornou professor na localidade, e ao qual vai ter forte influência no movimento de contestação feminina ao dar apoio a sua esposa, e meios pelos quais ela possa argumentar suas ideias, como muitas vezes durante o filme, ele o ensinava a fundamentar suas prerrogativas pelo Corão.

A partir do exemplo desse casal, podemos estabelecer uma rápida reflexão acerca de um erro crítico que muitas pessoas cometem o da generalização, no caso abordado, por exemplo, nem todos os homens da comunidade eram inteiramente machistas (Sami) – embora algumas vezes ele demonstre traços dessa tradição -, e nem todas as mulheres aceitavam ser submissas. Certeau (1980) aborda bem essa questão ao indicar a existência de pessoas ordinárias, ou que se confrontam com a disciplina imposta pelo meio em que vivem, se configurando como uma espécie de exceções a regra.

Os choques entre o moderno e o tradicional se confrontam com frequência durante o filme analisado, seja por modernidade material, como energia elétrica e água encanada, ou por modernidade de pensamento, como formas de liberdade e de uma maior igualdade entre gêneros. O filme não aborda tanto a igualdade entre os homens e as mulheres, mas realça o fato de que os homens da comunidade deveriam auxiliar, o que nos passa a ideia de que a tradição não se pretende ser rompida de forma abrupta, mas gradualmente.

Durante muito tempo os historiadores se negaram a ver o cinema como um documento histórico, por diversos motivos metodológicos, mas com o alargamento das possibilidades de fontes, assim como a interdisciplinaridade, aspectos advindos dos Annales, as obras cinematográficas foram ganhando um caráter mais utilitário nos estudos históricos. Assim como nas análises, também foi se constatando o papel das novas tecnologias no processo de ensino-aprendizagem, onde o cinema se destacou.

Embora seja eficaz, pois possibilita ao aluno ter um contato diferenciado com o conteúdo, existem certas ‘’advertências’’ ao se trabalhar um filme em sala de aula. Como bem cita Nascimento (2008):

O uso do cinema em sala só é válido quando inteirado com a leitura e contextualizado com a sociedade atual e o conhecimento historiográfico corrente, propiciando o entendimento das entrelinhas, ou seja, decifrando o que está implícito no filme’’. (2008, p. 12).

Pegando a deixa da autora, podemos constatar que em sua passagem, o papel exercido pela leitura é indispensável no processo, assim como a contextualização. Também é necessário guiar o aluno para notar os aspectos do filme que interessam ao conteúdo abordado em sala, despertando seu senso crítico. Não cabe ao profissional de educação gastar o tempo de aula com filmes escolhidos aleatoriamente e sem nenhuma articulação com aula.

O filme ‘’A fonte das mulheres’’ poderia ser utilizado em sala de aula para tratar de temas diversos, como gênero, machismo, liberdade, igualdade, modernidade, Oriente Médio e Islamismo. As possibilidades são imensas, se trabalhadas com responsabilidade, profissionalismo e com planejamento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da análise do filme ‘’A Fonte das mulheres’’ pudemos estabelecer uma reflexão acerca da prática de ensino de história auxiliada pelo recurso cinematográfico, bem como a própria discussão do filme pelo viés historiográfico e de seus elementos. Constituindo-se como um espaço de diálogo sobre as tradições machistas de certas sociedades, e como essas tradições se confrontam com ideias modernas de maior liberdade e igualdade para as mulheres. É importante que tais situações possam ser apresentadas e difundidas, para passarmos a ideia aos discentes da grande variedade cultural que existe no mundo, e o quanto algumas dessas formas culturais se diferem da sua realidade. Onde o docente, ao utilizar tal filme em sala de aula, poderia fazer um comparativo com a sociedade a qual o aluno se enquadra, discorrendo sobre como a mulher é vista nesse meio e de como o movimento feminista foi ganhando espaço na história brasileira.

Para além da análise do machismo presente na sociedade apresentada na obra, o filme demonstra bem o choque entre tradição e modernidade, entre o que se constitui como sendo milenarista e o que se considera sendo justo. Também aborda questões acerca da falta de auxílio governamental para com determinadas localidade no Oriente Médio, assim como a preocupação que estes estados possuem para abafar determinados pensamentos considerados subversivos.

 

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[1] Graduando em História pela Universidade Estadual da Paraíba. e-mail:  ramonsouza65@gmail.com

[2]Professor da rede básica de ensino no município de Lagoa Seca- PB, Especialista em educação para as relações étnico-raciais UFCG e mestre em História pela Universidade Federal da Paraíba, PPGH/UFPB.  e-mail : jadsonpv@gmail.com

³ Doutoranda em Educação pela UniGrendal. email: professorakatiaantero@hotmailcom

[3] O sistema numérico binário é um sistema de numeração posicional em que todas as quantidades se representam com base em dois números, ou seja, zero e um (0 e 1). Este sistema é bastante utilizado na linguagem da Informática. Nas ciências humanas define campos antagônicos de posicionamento de ideias, teorias ou discursos.

[4] Ver: FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: edições graal, 1988, p.14 – 19.

[5]Machismo é opinião ou atitudes que discriminam ou recusam a ideia de igualdade dos direitos entre homens e mulheres. Disponível em < http://www.dicio.com.br/machismo/> Acesso em 22 de Agosto de 2016.

[6] Misógino indivíduo que sente repulsa ou aversão às mulheres. Disponível em < http://www.dicio.com.br/misogino/ > Acesso em 22 de Agosto de 2016.

[7] Cientista, líder feminista e política paulista (1894-1976). É uma das pioneiras da luta pelo voto feminino e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres no Brasil. Disponível em < http://www.sohistoria.com.br/biografias/berta/ > Acesso em 22 de Agosto de 2016.

[8] Obra o Segundo Sexo, que segundo Soihet (2000) foi publicada em 1949, repercutindo e influenciando o ressurgimento do movimento feminista francês.

[9] Ver, Burke Peter, O que é História Cultural? Trad.  2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 2008 p.58-62.

[10] Autoras refletem os posicionamentos que envolvem os debates sobre Gênero e História das mulheres, mostrando como cada uma das escolas teóricas se posiciona a respeito dos dois conceitos.

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