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Em tempos de pós-verdade

Gilda E. Kluppel

Eleita, ano passado, a “Palavra do Ano” pelo Dicionário Oxford, pós-verdade converte-se numa palavra síntese para expressar, segundo o dicionário inglês, que “apelos à emoção e à crença pessoal” possuem maior relevância para formar opiniões do que fatos objetivos. Esse termo ainda não consta em dicionários da língua portuguesa, contudo se torna frequente o uso em muitas publicações. Uma expressão que soa de modo menos rude para a velha e conhecida mentira, cantada por Erasmo Carlos. Muitos devem se lembrar da música “Pega na Mentira”, agora é a vez de “pegar na pós-verdade”.

A verdade não tem mais significância? Em inúmeros casos parece que não. A verdade fragmentada e colocada de lado, tal qual uma coisa qualquer. Assim se convive com meias verdades, verdades pela metade e verdades meias-bocas. A verdade até pode ser vendida, igual a um produto de supermercado, cada um “compra” a que melhor lhe convém.

Constantemente aparecem na internet, redes sociais e WattsApp, mensagens para replicar a mesma para os contatos em troca de ganhos financeiros, notícias sobre fungos de insetos que causam danos à pele e objetos sinistros encontrados dentro das garrafas de refrigerante; além daquelas “milagrosas” receitas para comer de tudo, inclusive refeições gordurosas, sem acarretar ganho de peso. Entretanto, não se trata apenas de mentiras corriqueiras do cotidiano, mas, sobretudo, uma maneira de manipular a sociedade norteado por estereótipos e não pelos acontecimentos.

Algumas vezes notícias inofensivas, outras nem tanto. Ocorre que, ao buscar informações nos grandes meios de comunicação, obtém-se uma fatia da verdade, informações são omitidas com o objetivo de conduzir o povo, tal qual o gado, à convicção desejada, movida pelo pensamento único. Quem nunca observou programas jornalísticos que apresentam vários comentaristas e, estranhamente, todos manifestam a mesma opinião sobre determinado assunto. Aliás, em alguns casos, a opinião prevalece em detrimento da informação. Logo, parte da sociedade, que não tem acesso aos outros meios de informação ou sequer tempo para se aprofundar em determinado tema, apropria-se de uma visão parcial, distorcida e um tanto perigosa. Diante das supostas certezas, algumas pessoas chegam a comentar, de modo raivoso e intolerante, acerca de conteúdos de origem controversa. Assim, não se pergunta, visto que não há dúvidas. Não se reflete, visto que não há tempo. Uma versão sentenciada e aceita como verdade irrefutável, pronta para o repasse.

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná

Calcados em “apelos à emoção e à crença pessoal”, resultando em estereótipos simplistas, em consonância com “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos são apenas para bandidos”, “todo o político é ladrão”, acentuando que “o maior problema do país é a corrupção”, ignorando outras questões, principalmente a desigualdade social. De tanto ouvir os apelos da mídia, muitos incorrem na repetição involuntária desses jargões do senso comum. Não se necessita de uma verdade absoluta, mas todas as versões do fato, para formar uma opinião, também filtrar e perceber a parcialidade de quem fornece a informação. Caso contrário, prevalece a aceitação passiva de espectador mencionada pelo escritor Lima Barreto: “O Brasil não tem povo, tem público.”

Será que a agitação da vida moderna acarreta também uma preguiça mental? Deseja-se apenas informações de rápida assimilação e isto facilita a aceitação das meias verdades ou a pós-verdade? Talvez, uma certa preguiça cognitiva propicia a proliferação de notícias falsas e ocasiona uma postura passiva em relação à verificação de sua autenticidade.

Dificilmente a pós-verdade deixará de permanecer em evidência durante este ano, mas que, pelo menos, a palavra selecionada para representar o ano não seja similar. Entre as que concorreram, a palavra “coulrofobia”, significa medo extremo de palhaços. Poderia ser a escolhida do ano passado pelo Dicionário Oxford, afinal a fobia pelos palhaços parece menos aterrorizante que a pós-verdade. Ademais, nenhuma surpresa. Apenas encontrou-se outra palavra para uma prática largamente conhecida.

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