Circuito Batatinha anima foliões Valter Pontes/Arquivo Agência Brasil

Circuito Batatinha anima foliões Valter Pontes/Arquivo Agência Brasil

ACABOU O CARNAVAL

 

Antônio Luiz M. Andrade. É arquiteto, poeta e artista plástico baiano, de Salvador. Como artista plástico já participou de quatro bienais internacionais em São Paulo, além de várias outras exposições no país e no exterior. Editou em 74 a revista “Semiótica”.  Seus poemas procuram dar às palavras intensidade plástica, forma. Publicou os livros “O Sacrifício dos Sentidos”, “Obscuridade do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno” e no prelo, “Arquitetura de Algodão”.

Antônio Luiz M. Andrade. É arquiteto, poeta e artista plástico baiano, de Salvador. Como artista plástico já participou de quatro bienais internacionais em São Paulo, além de várias outras exposições no país e no exterior. Editou em 74 a revista “Semiótica”. Seus poemas procuram dar às palavras intensidade plástica, forma. Publicou os livros “O Sacrifício dos Sentidos”, “Obscuridade do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno” e no prelo, “Arquitetura de Algodão”.

Até que enfim é possível sair de casa, a cada ano acrescenta-se mais um dia de carnavalização e mais tumulto para quem reside nas imediações do circuito do carnaval, principalmente Barra / Ondina. Aliás, a esperada quarta feira de cinzas não é ainda o fim do transtorno, mas é uma sensação de liberdade depois de uma semana engaiolado, sem direito a uma noite de sono, escutar música, nem atender telefone. Os incômodos que anteciparam o evento continuam, cerca de um mês antes e um mês depois da festa são os preparativos: montagens e desmontagens de camarotes, depósitos de bebidas, postos de atendimentos etc.

 

Um País depois de tantas denúncias, com a economia atolada, as instituições desacreditadas, a carnavalização talvez ajude a esquecer com a ilusão de felicidade. A festa é sempre alternativa, principalmente quando o mau humor contaminou a população mergulhada em todo tipo de fanatismo. Impossível de qualquer diálogo. Em décadas passadas era a “ditadura” a culpada, agora não sabemos de quem é a culpa. Até reivindicar o direito de circular na cidade e contestar a qualidade da festa, não sei se é possível.
A cidade da festa é do turista e não do morador que paga tributos. A cidade, desprovida do sentido de comunidade, é o palco onde tudo se troca, tudo tem um valor de mercado, do entretenimento ao corpo. A festa já não é mais diversão, mas uma indústria de um espetáculo que invade a cidade. E para quem vive no circuito da folia, sem tranquilidade, exilado em seu próprio espaço residencial, invadido pelo barulho da rua e o odor desagradável de urina e cerveja, não há alternativa.
O carnaval acabou se transformando numa festa autoritária para quem não tem o direito de optar por outro divertimento, por outro tipo de música. Cresceu demais, ficou maior que a cidade, que mal o suporta. Ainda não se fez uma avaliação do impacto dos trios elétricos na estrutura dos prédios, monumentos históricos no entorno dos circuitos. Chegou o momento de se pensar numa cidade do carnaval para o desfile dos trios elétricos e a infraestrutura necessária que a festa exige como o sambódromo, no Rio de Janeiro. A festa gera consumos exagerados de água, eletricidade, combustível, produz uma quantidade de lixo e custos de coleta.

 

O carnaval Barra / Ondina não cabe mais no bairro, poderia ser transferido para o Centro Administrativo, pelos menos para o desfile dos grandes trios, lá os impactos seriam mínimos. Ou outra solução mais arrojada, seria na área do aeroclube se criar a passarela dos trios, onde seria implanta uma estrutura fixa compatível com a festa e para outros eventos. Mesclar essa estrutura com um parque, atividades educativas e lazer, para ser aproveitada durante o ano, oferecendo serviços a cidade e principalmente a comunidade do local. Aproveitando ainda sua localização à beira mar, que poderia oferecer mais um acesso, interligando com a Marina na Baia de Todos os Santos.

 

O Aeroclube seria então o local para o carnaval das estrelas e dos luxuosos camarotes. Barra / Ondina para o carnaval dos pequenos blocos, dos habitantes anônimos, ou não, a festa dos encontros de outros tempos.

Meio ambiente, cidadania e ética devem atravessar a cidade da festa. A função que o homem exerce na ocupação e significação do espaço, na relação com o outro e a natureza, diz respeito a valores que determinam a vida em sociedade. As necessidades devem ser satisfeitas levando em conta a necessidade do outro e das futuras gerações. Vamos recuperar nosso senso de responsabilidade.

 

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

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