por Fátima Souza

“Se você tivesse um espaço para viver onde a água fosse captada da chuva, a energia viesse do sol e dos ventos e o alimento pudesse ser produzido dentro da própria casa, o que você faria com seu tempo?”, ​Michael Reynolds, arquiteto.

De tudo o que já ouvi Mike Reynolds dizer, talvez, a frase acima, seja a que produz um impacto mais profundo na minha maneira de pensar arquitetura e no modo como vivemos dentro do sistema capitalista. Acredito que nessa simples pergunta ele abordou tantas coisas que nos prendem e até nos escravizam, sem ao menos nos darmos conta. Dos boletos que se avolumam em nossa caixa de Correios, à obrigatoriedade do trabalho, do ganho de capital e a redução a quase zero, em muitos casos, do nosso tempo livre para, enfim, vivermos.

​Pensar numa arquitetura que além de sustentável, não gera lixo nem poluentes, não precisa de refrigeração, nem calefação e ainda recicla o lixo que a sociedade produz, até aqui faz do trabalho de Mike Reynolds um exemplo quase completo de arquitetura. Se conseguirmos entender que  no mundo todo a arquitetura produzida apresenta o avesso dessas características. A indústria da construção civil no Brasil é, talvez, uma das produtoras da maior quantidade de lixo e descarte entre todas as outras. Além disso, depois de construído, um edifício convencional, por mais impactante que seja em sua concepção, proporcionará uma despesa financeira constante e um encargo ambiental simplesmente irresponsável, se pensarmos em como o planeta está destruído até aqui. Uma residência unifamiliar exige, numa cidade como Ribeirão Preto (SP), famosa pelas altas temperaturas, um consumo insensato de energia para manter 21ºC interno em dias de verão extremo. Na maioria das vezes, a prioridade de quem projeta e de quem contrata um arquiteto é a satisfação das questões estéticas. Uma das máximas da arquitetura moderna é que a ‘forma deve seguir a função’, sendo assim, a produção até aqui, em última análise, tem sido apenas para nos abrigar da chuva e do sol extremo com criatividade, gerando entulho com um custo de manutenção alto.

​Tenho comparado o resultado da nossa arquitetura à geração de um filho irresponsável. As cidades estão repletas destes exemplos. Casas e edifícios comerciais, institucionais e industriais que uma vez são entregues ao cliente farão parte dos seus pesadelos para o resto da vida. Mike Reynolds ao escolher para sua arquitetura o nome de ‘Earthship Biotecture’, mais uma vez acertou, pois ele trata o edifício como uma ‘Earthship’ ou como ‘Nave Mãe’ atribuindo ao espaço construído a função de nos abrigar e de nos manter vivos para estarmos ‘fora’ da realidade caótica do planeta. Por isso, mesmo o resultado dessa arquitetura pode ser chamado de Biotectura, pois a vida que ela gera nos faz pensar em como somos escravizados e como podemos fazer uma mudança no destino da nossa existência.

Fátima Souza – é graduada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP). Diretora do escritório Arquitetura FRS e já desenvolveu mais de 300 projetos de arquitetura e design de interiores, entre residências, pontos comerciais e institucionais nos estados de São Paulo, Paraíba, Bahia e Tocantins, além de participar da construção da primeira escola sustentável da América Latina, no Uruguai.

Fátima Souza – é graduada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP). Diretora do escritório Arquitetura FRS e já desenvolveu mais de 300 projetos de arquitetura e design de interiores, entre residências, pontos comerciais e institucionais nos estados de São Paulo, Paraíba, Bahia e Tocantins, além de participar da construção da primeira escola sustentável da América Latina, no Uruguai.

A vinda de Mike Reynolds a Ribeirão Preto é uma grande honra que o destino nos oferece, uma oportunidade para reflexão. Pensarmos em não deixar para as futuras gerações edifícios que ao fim serão apenas uma homenagem à nossa própria incompetência de agirmos pela vida e pela sobrevivência do planeta. Longe de nós assumirmos apenas o papel de médicos que vendem remédios e não curam seus doentes, definindo materiais e produtos de última geração para uma arquitetura que gera morte e não vida. A visita dele também abre portas para o projeto da Primeira Vila Sustentável do Brasil. Onde os moradores serão 54 pessoas em situação de vulnerabilidade e que foram resgatadas pelo Movimento da Luta Antimanicomial. O Movimento nasceu da discussão a respeito do tratamento no aspecto psiquiátrico fora dos manicômios. São grupos que sofrem exclusão e precisam de moradia no Brasil. Pessoas que muitas vezes são internadas em hospitais psiquiátricos  por não terem um local para morar. São jovens, adultos e idosos que necessitam de um “cantinho” próprio.

​A Arquitetura FRS é hoje a responsável pela vinda do Reynolds ao Brasil e além da Vila Sustentável está avaliando outros projetos sustentáveis como de escolas em várias partes do Brasil, semelhantes ao espaço projetado por Reynolds em Jaureguiberry, no Uruguai. Existe um sentimento de urgência quando se fala em sustentabilidade para quem já entendeu o momento que o planeta vive e sabe que o trabalho de profissionais como Mike Reynolds pode ajudar muito o país a aproveitar seus recursos naturais e assim oferecer a população mais humilde uma alternativa que a arquitetura tradicional não proporciona.

Fátima Souza – é graduada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP). Diretora do escritório Arquitetura FRS e já desenvolveu mais de 300 projetos de arquitetura e design de interiores, entre residências, pontos comerciais e institucionais nos estados de São Paulo, Paraíba, Bahia e Tocantins, além de participar da construção da primeira escola sustentável da América Latina, no Uruguai.

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