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Manuel Bandeira e seu acre sabor poético

Por Izaura da Silva Cabral[1]

Izaura da Silva Cabral é Graduada em Letras – UNISC, Mestre em Letras – Leitura e Cognição – UNISC, Doutoranda em Letras – Estudos de Literatura – UFRGS, Professora do PPG-FAFIPA/CENSUPEG, Professora de Literatura, Língua Portuguesa e Língua Espanhola do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves

Izaura da Silva Cabral é Graduada em Letras – UNISC, Mestre em Letras – Leitura e Cognição – UNISC, Doutoranda em Letras – Estudos de Literatura – UFRGS, Professora do PPG-FAFIPA/CENSUPEG, Professora de Literatura, Língua Portuguesa e Língua Espanhola do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves

Um dos aspectos que caracteriza a criação poética é a presença das figuras de linguagem no poema, que implicam importantes efeitos semânticos, sonoros e contribuem para a construção de sentido. Assim, as palavras dentro de um poema adquirem significados variados, pois já que elas são símbolos linguísticos, podem mudar, como nos diz Saussurre[2], “o signo linguístico é, pois uma entidade psíquica de duas faces”, representada pelo significado e pelo significante, e os laços que os unem é arbitrário. Segundo Paz, “a linguagem, tocada pela poesia, cessa imediatamente de ser linguagem. Ou seja: conjunto de signos móveis e significantes[3]”, assim palavras podem significar muito mais do que seu sentido ditado pelo dicionário, adquirem um sentido amplo e conotativo.

 

Levando em consideração os aspectos apresentados, quando notamos a presença do vocábulo “acre”, como figura sinestésica, em duas poesias de Manuel Bandeira, podemos dizer que para o poeta, somente este símbolo poderia representar seu sentimento que precisava transformar em palavras. O que ocorre é que como diz Paz, o poeta “não se serve das palavras. É seu servo[4]”. Ou seja, “a palavra do poeta se confunde com ele próprio. Ele é a sua palavra. No momento da criação, aflora à consciência a parte mais secreta de nós mesmos. A criação consiste em trazer à luz certas palavras inseparáveis de nosso ser[5]”. Então “acre” é o símbolo, que para o poeta adquire o significante necessário para representar o momento em vive. Esse momento é de consternação, quando o poeta através de todos os “sentidos humanos” consegue experimentar a vida e sentir o momento difícil.

 

Para Goldstein[6], “sinestesia é o recurso que sugere associação de diferentes impressões sensoriais, ou seja, sugestões ligadas aos cinco sentidos: visão, tato, audição, olfato, paladar”. Nós nos ocuparemos das questões que envolvem o elemento sinestésico “acre”, sendo assim, analisaremos a presença dele nas poesias “Desencanto” e “Plenitude” da obra A cinza das horas de Manuel Bandeira[7].

 

As duas poesias possuem um “acre” sabor[8], relacionado ao que é ácido, amargo, áspero, acerbo (azedo, duro, árduo), ríspido, violento, desabrido (insolente), que, sobretudo, pode ser encontrado na poesia “Desencanto”, além do verso que traz a expressão, o penúltimo “deixando um acre sabor na boca” que está ligado ao paladar, vários outros o comprovam: o quinto “meu verso é sangue” ligado à visão, seu verso como sangue representa a vida que ainda lhe corre nas veias, mas ao mesmo tempo demonstra um sabor amargo refletido pelo sétimo verso, “dói-me nas veias. Amargo e quente,” ligado ao paladar e ao tato; o nono “e nestes versos de angústia rouca”, ligado à audição, aqui a angústia do eu-lírico, é como se fosse revelada através de uma fala áspera e cavernosa, difícil de ser entendida por alguém, e o último “eu faço versos como quem morre”, encerra o acre sabor desta poesia, demonstrando o “amargo”, ou a amargura do poeta em saber que está morrendo.

 

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento… de desencanto…

Fecha o livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…

Tristeza esparsa… remorso vão…

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai gota a gota, do coração.

 

E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

 

-         Eu faço versos como quem morre.

                                  (Teresópolis, 1912:4)

 

 

Os versos de Manuel Bandeira, como diz Castello, são uma composição “impregnada da sentimentalidade romântica, exacerbada pelo próprio gosto da confissão da dor, da amargura, do desalento, de origem mórbida[9]”.  À Manuel Bandeira cabe a arte de dar um sabor, um cheiro, enfim sensações à sua poesia repleta de versos duros, que estabelecem um paralelo entre ele, o eu-lírico, a tuberculose e a espera da morte. Para Lêdo Ivo, na poética do autor “vida e arte poética se fundem e se transfundem, num enlace entranhado e duradouro[10]”.   A vida ainda pode trazer-lhe alguma esperança, um porvir diferente do que o destino lhe aponta.

 

Assim, o poema Desencanto pode representar a fuga do sofrimento, o fazer poético é uma forma de se distanciar daquele momento sombrio. No entanto o “acre” é um dos vocábulos para demonstrar tamanho sofrimento. Sofrimento de quem anseia pela vida, porém vê que ela foge dele, até mesmo quando sente na boca aquele acre sabor, quando, como diz o poeta: “Assim dos lábios a vida corre”.

 

Ainda podemos destacar que, quanto à forma, o poema mostra regularidades e simetrias em sua construção e organização desde o plano da expressão, até o plano fonético, rítmico e gramatical. Talvez, pelo menos a forma de sua poesia possa ser regular, organizada, já que tudo mais em sua vida se perde, ele fecha o poema revelando o porquê dessa regularidade “Eu faço versos como quem morre.”, como quem não espera nenhuma novidade, tudo se torna sempre igual e terá o mesmo fim, não havendo espaço para inovações. Podemos perceber, então, o poeta, sua vida e produção poética estão intimamente ligados.

 

Para Castello[11], o grande apelo do poeta, na sua mágoa e solidão, desamparo, buscando na paisagem o reflexo de sua tristeza mais íntima, é o reverso dessa mesma atitude quando quer da natureza o exemplo de seu vigor, de sua grande vitalidade, como em “Plenitude”.

                                          

Plenitude

 

Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.

O ar é como de forja. A força nova e pura

Da vida embriaga e exalta. E eu sinto, fibra a fibra,

Avassalar-me o ser a vontade da cura.

 

A energia vital que no ventre profundo

Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,

Sobe no caule, faz todo galho fecundo

E estala na amplidão das ramadas felizes,

 

Entra-me como um vinho acre pelas narinas…

Arde-me na garganta…  E nas artérias sinto

O bálsamo aromado e quente das resinas

Que vem da exalação de cada terebinto.

 

O furor de criação dionisíaco estua

No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,

E eu observo-o nos sons, na glória da luz crua

E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas.

 

Tenho êxtases de santo… Ânsias para a virtude…

Canta em minh`alma absorta um mundo de harmonias.

Vêm-me audácias de herói… Sonho o que jamais pude

-         Belo como Davi, forte como Golias…

 

              E neste curto instante em que todo me exalto

              De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo,

              E nunca o sonho humano assim subiu tão alto

              Nem flamejou mais bela a chama do desejo.

 

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza!

Vós que cicatrizais minha velha ferida…

Vós que me dais o grande exemplo de beleza

E me dais o divino apetite da vida!           

                                                                (p. 26-27)

 

Aqui, nesta poesia, o “acre sabor”, se transforma em “aroma”. Para Staiger[12], “aromas são mais que impressões ópticas pertencem à recordação. Pode ser que não conservemos um aroma na memória, mas sem dúvida o conservamos na recordação”. Pois ainda como nos diz o teórico, “quando ele se espalha de novo, um acontecimento passado de há muito se torna subitamente perceptível; o coração bate e finalmente a recordação instiga a memória; podemos dizer em que circunstâncias este aroma inebriou os sentidos”. Também nos diz, “que os aromas pertençam tão inteiramente à recordação e tão pouco à memória está sem dúvida ligado ao fato de que nós não lhes podemos dar formas, frequentemente mal lhe podemos dar nomes, não se tornam objetos”. E só nos libertamos daquilo que conseguimos tornar objeto pela contemplação ou pelo conceito. Só frente a isso teremos “tomado uma posição”.

 

Para o autor[13], a memória está mais ligada ao escritor de um texto narrativo, já que este escreve no pretérito, fala de um passado que já deixou para trás, mas a recordação tem como tema o passado do eu-lírico, é uma recordação que traz para o presente um passado que não está longe nem terminou, pois não foi delineado nitidamente e nem compreendido em sua totalidade, já que ele movimenta-se ainda e comove o poeta e a nós mesmos. Eis o porquê dos aromas serem tão latentes na recordação do poeta.

 

Na segunda poesia, toda a vitalidade da natureza por vezes, lhe parece muito rude, áspera, a partir da terceira estrofe em seu primeiro verso: “Entra-me como um vinho acre pelas narinas…” ligado ao olfato, é como se por suas narinas penetrassem o aroma de um vinho azedo. O segundo verso desta estrofe reforça o que já dissemos: “arde-me na garganta”, ligado ao paladar, esta vitalidade é ácida, azeda e faz com que sua garganta arda. Depois, “e nas artérias sinto/ o bálsamo aromado e quente das resinas/ que vem da exalação de cada terebinto”, ligado ao olfato, é como se o eu-lírico sentisse o cheiro de um líquido aromático e espesso, fluido do terebinto, planta da qual podem ser extraídas as resinas, assim o cheiro desse bálsamo pode ser entendido como “conforto”, “consolo” encontrados pelo eu-lírico na Natureza.

 

 Diante da natureza, o poeta vislumbra a possibilidade da cura, a natureza fornece-lhe inspiração para que a sua vida se torne mais amena: “a força nova e pura / da vida embriaga e exalta. Eu sinto fibra a fibra, / avassalar-me a vontade da cura”. Ele, então na quarta estrofe, sente o furor de criação dionisíaco arder em suas entranhas: “o furor de criação dionisíaco estua / no fundo das rechãs, no flanco das montanhas, / e eu observo-o nos sons, na glória da luz crua / e ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas”. Nos versos, podemos observar a presença da audição, da visão, então o poeta se permite sonhar em ser tudo o que não foi em razão de ter sua saúde debilitada desde muito jovem: “sonho o que jamais pude – / Belo como Davi, forte como Golias…”.

 

Tendo em vista os aspectos observados somos levados a crer que, “Desencanto” e “Plenitude”, revelam um acre sabor na poética de Manuel Bandeira, descrevem sua agonia em versos que são seu sangue, com a constante presença da morte. Isto tudo, através de duas relações do poeta com a palavra acre, na primeira ele sente na boca o acre sabor, na segunda ele sente o aroma de vinho acre, sempre ligada aos sentidos que representam nada mais que a presença da vida que ainda insiste em residir em um corpo debilitado pela doença. Ainda, podemos também dizer que as duas poesias estão relacionadas ao seu estado de saúde precário, porém em “Plenitude” revela-se mais esperançoso, trazendo a Mãe natureza, como divino apetite da cura.

                       

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BANDEIRA, Manuel. 1980. Estrela da vida inteira: poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio.

 

CASTELLO, José Aderaldo. 1989. Aspectos da poesia de Manuel Bandeira. IN: SILVA. Maximiliano de Carvalho E. Homenagem a Manuel Bandeira. UFF: Rio de Janeiro.

 

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. 1986. Novo Dicionário da língua portuguesa. Nova Fronteira: Rio de Janeiro.

 

GOLDSTEIN, Norma. 2002. Versos, sons, ritmos. Ática: São Paulo.

 

IVO, Ledo. 1989. Estrela da vida inteira. In: SILVA. Maximiliano de Carvalho E. Homenagem a Manuel Bandeira. UFF: Rio de Janeiro.

 

PAZ, Octavio. 1982.  O arco e a lira. Nova Fronteira: Rio de Janeiro.

 

SAUSSURRE, Ferdinand. 1975. Curso de lingüística geral. Organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye, com a colaboração de Albert Riendlinger. Cultrix: São Paulo.

 

STAIGER, Emil. 1993. Conceitos fundamentais da poética. Tradução Celeste Aída Galeão. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.  


 


[1] Graduada em Letras – UNISC, Mestre em Letras – Leitura e Cognição – UNISC, Doutoranda em Letras – Estudos de Literatura – UFRGS, Professora do PPG-FAFIPA/CENSUPEG, Professora de Literatura, Língua Portuguesa e Língua Espanhola do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves. e-mail: iza-cabral@hotmail.com  
[2] SAUSSURRE, Ferdinand. 1975. Curso de lingüística geral. Organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye, com a colaboração de Albert Riendlinger. Cultrix: São Paulo, p. 81-82.
[3] PAZ, Octavio. 1982. O arco e a lira. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, p. 135.
[4] PAZ, Octavio. 1982:58.
[5] PAZ, Octavio. 1982:55.
[6] GOLDSTEIN, Norma. 2002. Versos, sons, ritmos. Ática: São Paulo, p. 65
[7] BANDEIRA, Manuel. 1980. Estrela da vida inteira: poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, p.4, 26-27.
[8] Acre [do latim acre.] Adj. 2g. 1. De sabor ácido ou amargo; áspero, acerbo: fruta acre, vinho acre. 2. De aroma forte, ativo, áspero, seco: perfumes acres. 3. Agudo penetrante: O som acre dos metais incomodava-lhes os ouvidos. 4. Diz-se de cheiro acre (2): o aroma acre dos pinheiros. 5. (fig.): áspero, ríspido, acrimonioso. 6. (fig.) áspero, violento, desabrido. 7. Cheiro ou sabor acre. IN: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda.1986. Novo Dicionário da língua portuguesa. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, p. 38.
[9] CASTELLO, José Aderaldo. 1989. Aspectos da poesia de Manuel Bandeira. IN: SILVA. Maximiliano de Carvalho E. Homenagem a Manuel Bandeira. UFF: Rio de Janeiro, p. 332.
[10] IVO, Ledo. 1989.  Estrela da vida inteira. IN: SILVA. Maximiliano de Carvalho E. Homenagem a Manuel Bandeira. UFF: Rio de Janeiro, p. 395.
[11] CASTELLO, José Aderaldo, 1989:334.
[12] STAIGER, Emil. 1993. Conceitos fundamentais da poética. Tradução Celeste Aída Galeão. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, p. 55-56.

[13] STAIGER, Emil. 1993:54-55.

PS: Artigo publicado originalmente em <http://www.partes.com.br/cultura/acresabor.asp> publicado em 05/07/2011

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