A outra face de um ídolo – Parte 2

A OUTRA FACE DE UM ÍDOLO – PARTE 2

Margarete Hülsendeger

 

Se meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles.

Adlai Stevenson

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

“Homens adultos, brilhantes e poderosos traíram seus amigos, mentiram desavergonhadamente para seus inimigos, enunciaram críticas chauvinistas e odiosas, refutaram-se mutuamente”. Esse é o resumo da professora de matemática e historiadora, Lenore Feigenbaum, sobre o “desentendimento” que por anos existiu entre Newton e Leibniz. Um episódio que coloca por terra qualquer ilusão que possamos ainda alimentar sobre a perfeição de nossos ídolos ou heróis.

Newton é reconhecido como sendo o autor de algumas das mais importantes leis da Física, ensinadas até dos dias de hoje, em todas as escolas do mundo. No entanto, sabe-se que o seu conhecimento ia muito além do estudo dos fenômenos naturais. Ele foi um dos melhores (senão o melhor) matemático de sua época. Do mesmo modo, Leibniz. Ele é considerado um dos grandes filósofos da história, porém, Leibniz, assim como Newton, também se destacou em outras áreas do saber, como ciências, engenharia e, é claro, matemática. Portanto, estamos falando de duas mentes brilhantes, que influenciaram com suas ideias não só a sociedade de sua época, mas também a nossa.

A polêmica na qual foram os personagens principais começou a se desenhar no final do século XVII e só teve o seu desfecho no fim da primeira década do século XVIII. Naquela época, a velocidade com que as pessoas se comunicavam era bem diferente do que é hoje. A troca de cartas era a maneira mais comum de comunicação, independente das distâncias envolvidas. Logo, se, atualmente, uma mensagem pode ser enviada e recebida em poucos segundos, nesse período as cartas levavam dias e até meses para chegar (quando chegavam) aos seus destinos. E foram, justamente, duas cartas a causa do mal entendido entre Newton e Leibniz.

Por volta de 1676, Newton estava trabalhando em uma “nova matemática” com o objetivo de enunciar o que seria chamado mais tarde de Lei da Gravitação Universal. Ele denominou esse novo método de “fluxões”. Nesse mesmo ano, por meio de um amigo comum, Newton correspondeu-se com Leibniz e numa das cartas enunciou o teorema fundamental do futuro Cálculo Infinitesimal. Entretanto, aqui há dois detalhes importantes a considerar. Primeiro, essa mensagem estava criptografada (uma das várias esquisitices de Newton), o que impediria, conforme os defensores de Leibniz, a sua leitura e, consequente, interpretação. E, segundo, Leibniz na época já teria criado a sua própria versão para o Cálculo Diferencial e Integral.

Você, a essa altura, já deve estar se perguntando: “Então, onde está o problema?” A resposta é simples: nas diferentes personalidades desses dois homens.

Enquanto Leibniz acreditava que todo o conhecimento deveria ser compartilhado, Newton guardava a sete chaves tudo para si, evitando sempre que possível publicar ou expor suas ideias. Assim, em 1684, – oito anos depois da tal troca de cartas –, Leibniz publicou os princípios e aplicações do Cálculo Integral e Diferencial. Já as “fluxões” de Newton permaneceram ocultas, ou seja, nem uma única linha se tornou pública.

A “bomba”, no entanto, só estouraria 15 anos mais tarde, em 1699, quando um dos alunos de Newton, em vista do entusiasmo dos discípulos de Leibniz em divulgar as ideias do mestre, decidiu acusar o matemático alemão de plágio. Pouco depois outro admirador de Newton publicou, na revista oficial da Royal Society, que Leibniz havia retomado o cálculo newtoniano, limitando-se apenas em trocar os nomes. Com essas duas declarações foi impossível impedir que a “guerra” fosse declarada!

A partir daí os golpes baixos trocados entre os dois lados pareciam não ter fim: cartas anônimas, traduções do latim para o inglês seguindo uma ou outra orientação, desafios matemáticos, etc. Newton chegou ao ponto de organizar uma comissão “imparcial” na Royal Society com o objetivo de determinar quem teria sido o autor do novo método matemático. Outro detalhe interessante: o presidente dessa comissão era o próprio Newton. Adivinhem, portanto, quem foi aclamado o “pai do cálculo”?

De qualquer maneira, o fato é que nenhum dos dois lados soube se comportar de forma honrosa. Ao contrário. As brigas prolongaram-se muito depois da morte de seus protagonistas e foram uma mistura de insultos e equações.

James Gleick, autor de uma das várias biografias de Newton[1], afirma que a causa de toda essa confusão esteve centrada no sigilo, pois foi ele que gerou a competição e a inveja. Hoje, no entanto, não há dúvidas de que Newton e Leibniz criaram o cálculo de maneira independente, ou seja, os dois são considerados os pais dessa “criança”.

E a todas essas, como fica a minha admiração? Continuo considerando Newton um herói?

A resposta é um sincero e bem audível, SIM! Contudo, isso não quer dizer que eu ignore os seus defeitos. Newton era um obcecado, um homem difícil, capaz de agir, muitas vezes, de maneira pouco digna. Ao longo da vida conquistou, não só desafetos, mas também inimigos mortais. Esses são fatos com os quais não posso e nem quero discutir.

Logo, reconheço e aceito que meu ídolo não foi o mais perfeito dos homens. Na verdade, ele estava bem longe da perfeição. Porém, esse reconhecimento não diminui outro fato importante: sua genialidade alterou drasticamente a forma como o homem entendia o universo. E até mesmo aqueles que hoje veem falhas em seus sistemas e métodos reconhecem o quanto suas ideias ainda influenciam os cientistas e a sociedade moderna. É como diz Gleick no final da biografia: “Aquilo que Newton descobriu entrou na medula do que sabemos sem saber que sabemos”. E isso, com certeza, merece a minha total e irrestrita admiração.

[1] GLEICK, James. Isaac Newton: uma biografia. Tradução Alvaro Hattnher. Companhia das Letras, 2004.

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