Enciclopédia, a internet do passado

Enciclopédia, a internet do passado

Gilda E. Kluppel

 

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

Considerado o melhor presente, que os pais poderiam oferecer aos filhos, as enciclopédias, outrora símbolo de investimento em educação, hoje estão encostadas em um canto qualquer da estante, apenas acumulando poeira. Será que os mais jovens lembram-se da existência das enciclopédias? Alguns ainda folheiam as suas páginas para realizar trabalhos escolares ou, junto com o papel almaço, foram deixadas de lado, superadas pelos sites da Wikipédia e pelo doutor “sabe tudo”, o Google. E aquela expressão, ouvida em tempos mais longínquos, “o indivíduo é uma enciclopédia ambulante”, descontextualizada e fora de época, parece não fazer mais sentido. Nas últimas décadas os pais começaram a investir em computadores para os filhos, ao invés da compra das tradicionais enciclopédias.

Frequentemente vendedores de enciclopédias batiam de porta em porta e ofereciam doses de cultura em metro. A aquisição deste conhecimento dependia do poder aquisitivo, possuir as enciclopédias exigia um gasto significativo, logo a saída encontrada era o parcelamento do pagamento em mensalidades, para dispor dos livros na estante. Muitos devem recordar que, devido à grande quantidade de vendedores de enciclopédias, eles adquiriram a fama de inconvenientes e o termo tornou-se sinônimo de pessoa chata.

Costumava consultar a Enciclopédia Mirador, os livros com inúmeros verbetes e ilustrações, grandes e pesados, ocupavam um considerável espaço físico. O Atlas Geográfico necessitava de uma mesa de bom tamanho para manuseá-lo. Entretanto, as enciclopédias atendiam a necessidade para as pesquisas, além de causar a impressão de que dispúnhamos de todo o conhecimento humano armazenado na estante. Referência para diversos assuntos, em caso de qualquer dúvida ou curiosidade, a resposta estava bem perto, em aproximadamente onze mil páginas, apesar do grande número de páginas, não se tornava tarefa difícil encontrar o tema desejado.

O conhecimento sistematizado possuía começo, meio e fim, ao contrário da internet, em que o conhecimento parece inesgotável. Essa amplidão de possibilidades, fornecida pela internet, ao invés de facilitar, muitas vezes acarreta a dispersão. Entretanto, as enciclopédias também permitiam viagens em outros assuntos, aleatoriamente ao folhearmos uma enciclopédia encontrávamos temas, até aqueles que aparentemente não mereciam tanta importância, mas em determinados momentos tornavam-se cativantes.

Atualmente a ênfase para as pesquisas está na internet, na qual as informações se atualizam rapidamente, em contraste com as enciclopédias tradicionais. Ainda assim, para os apreciadores, a leitura em páginas de papel permanece insuperável. Apesar da agilidade para a consulta, a internet indica milhares de informações sobre determinado assunto, porém não existe ainda um filtro capaz de oferecer um melhor direcionamento da pesquisa. As informações fornecidas pelo Google são brutas, exigem um maior esforço para selecioná-las.

Os jovens têm maior proximidade com tablets e smatfhones para realizarem as pesquisas escolares, além da ilimitada possibilidade de perder o foco do assunto, surge a facilidade de copiar e colar sem ao menos efetivar a leitura do texto. Eles podem cogitar como algo estranho ou até uma insensatez, pesquisar por informações em pesados volumes de uma enciclopédia, um alvo propício para a criação de traças, diante do armazenamento de livros digitais em seus sofisticados aparelhos eletrônicos. Contudo, os dispositivos da modernidade não são suficientes para adquirir novos conhecimentos sem a existência daquele antigo, mas nunca ultrapassado, conceito de motivação, para manter o interesse pelo estudo.

Confesso que fiquei propensa em doar os livros, ao receber o conselho de uma amiga: “livre-se deste trambolho, ninguém usa mais isto!”, mas vou mantê-los na estante, afinal são inúmeras as belas imagens de pinturas de quadros famosos e fotos de diversos países, dos quais nunca chegarei a conhecer pessoalmente. E sobretudo pelas boas lembranças e pelo modo próprio de pesquisa que pertence a nossa história. Quem sabe no caso de se esgotarem outras fontes, devido à ocorrência de um apagão ou algo parecido na internet, pelo menos essa fonte de pesquisa estará preservada.

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