Da Pictografia Ao Hipertexto: Formas De Escrita E Leitura Do Mundo

 

Da Pictografia Ao Hipertexto: Formas De Escrita E Leitura Do Mundo

Vitória Duarte Wingert[1]

Jander Fernandes Martins[2]

Resumo:

Vitoria Duarte Wingert Historiadora formada pela Universidade Feevale. Especializanda em Mídias na Educação (IFSUL) e em Ensino de Filosofia para Ensino Médio (UFSM). Atualmente é professora no município de Campo Bom/RS. E-mail: vitoriawingert@hotmail.com

O presente artigo busca compreender como a humanidade modificou e modifica suas formas de leitura e escrita do mundo, incluindo novos signos e diferentes formas de se expressar, de acordo com o período histórico em que está inserido, com a finalidade de conseguir se manifestar culturalmente. Ressaltamos ainda a importância de o professor conhecer e dominar estas formas de expressão, principalmente os hipertextos tão presentes na contemporaneidade e no cotidiano dos estudantes, buscando assim uma aprendizagem significativa e abrangente.

Palavras chave: Ensino, Leitura e escrita, Hipertexto, Mídias na Educação.

Abstract:

This article seeks to understand how humankind has modified and modified its ways of reading and writing the world, including new signs and different ways of expressing itself, according to the historical period in which it is inserted, in order to be able to manifest itself culturally. We also emphasize the importance of the teacher to know and master these forms of expression, especially the hypertexts so present in the contemporaneousness and daily life of the students, thus seeking a meaningful and comprehensive learning.

Keywords: Teaching; Reading and writing; Hypertext; Media in Education.

A necessidade de deixar registradas suas informação e tradições, fez com que os primeiros homens desenvolvessem suas primeiras formas de registros, desenvolvendo o tipo de escrita que chamamos de pictográfica, que nada mais era que os desenhos encontrados em cavernas (arte rupestre). Com o passar do tempo, a forma de escrita vai evoluindo, passando da escrita cuneiforme para a escrita ideográfica e posteriormente a escrita alfabética que conhecemos, que se utiliza-se de silabários para a formação e compreensão de palavras.

Jander Fernandes Martins -Pedagogo formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Especialista em TIC (FURG). Mestrando do PPG Processos e Manifestações Culturais. atualmente é professor no município de Campo Bom/ RS. E-mail: martinsjander@yahoo.com.br;

Este domínio da leitura e da escrita bem como do conhecimento erudito, por muitos anos esteve apenas em detenção de um grupo seleto e masculino, que aprendiam os conhecimentos através do clero, que tiveram papel de divulgar as informações a partir da exemplificação de ALVES (2005, p. 11, grifos meus) tem-se que, se “na Antiguidade e na Idade Média o educador era o preceptor; na Idade Moderna surgiu o professor, dominante até nossos dias […] nas duas épocas referidas, os estudantes assumiram formas, respectivamente, de discípulos e de alunos organizados em classe”. Logo, nestas duas formas históricas distintas de trabalho didático, o instrumental mediador concretamente fora produzido de acordo com o grau tecnológico das sociedades em seu tempo, o mesmo ocorrerá com as épocas históricas anteriores.

Já a democratização da leitura vem tempos depois até mesmo da invenção da imprensa por Gutenberg, através da ascensão da burguesia no século XXIII.

Os homens do século XVII viam a circulação do escrito como a própria condição do Progresso das Luzes. Graças a ela todos estão em igualdade para julgar instituições e opiniões e submeter à discussão comum suas próprias ideias. Um novo espaço crítico e político nasce deste exercício público da razão pelas pessoas privadas. (CHARTIER, 1999, p.133)

 Atualmente com o advento das tecnologias o conceito de leitura ampliou-se estendendo-se a outros suportes mais atraentes, tanto das edições impressas quando para os chamados e-books, para grande parte dos jovens na escola e fora dela. As tecnologias de informação vêm criando novos gêneros de textos e hipertextos, que podem auxiliar o professor no seu trabalho pedagógico de formação de leitores, que muitas vezes é desafiador, devido a “falta de interesse”, dos mais jovens pela leitura, como várias vezes alegam alguns professores. Segundo Chartier (1999), os novos meios de comunicação fortalecem a cultura textual. Nas novas telas (a dos computadores) há muitos textos, e existe a possibilidade de uma nova forma de comunicação que se articula, agrega e vincula textos, imagens e sons. Ele ainda alerta, que apesar de considerar as meios eletrônicos como “um espaço de intercambio crítico de práticas e opiniões” (1999, p.134), devemos estar atento para que estes conhecimentos e informações possam ser compartilhados, pois do contrário se perde o significado e limita comunidades e indivíduos a um só tipo de experiência.

A comunicação a distância, livre e imediata, propiciada pelas redes eletrônicas, dá um novo alento a este sonho, em que toda a humanidade participaria do intercâmbio dos julgamentos. Mas este futuro possível não está inelutavelmente inscrito nas mutações da técnica. Estas podem delinear um futuro bem diferente, no qual comunidades separadas, ou indivíduos isolados, não mais compartilharão qualquer referência comum […] Portanto refletir sobre as revoluções do livro e, mais amplamente, sobre os usos da escrita, é examinar a tensão fundamental que atravessa o mundo contemporâneo, dilacerado entre a afirmação das particularidades e o desejo universal. (CHARTIER, 1999, p.133)

Atualmente os educadores necessitam estar cada vez mais conectados na utilização de suportes que possam atrair a atenção dos alunos de forma dinâmica e, ao mesmo tempo, realizar a inserção de ferramentas na prática pedagógica que façam parte do cotidiano dos discentes, Jordão (2009, p.10) ressalta sobre a presença das tecnologias no cotidiano, até mesmo de crianças da Primeira Infância, sendo que estas, apesar de não serem formalmente alfabetizadas, já compreendem os códigos e a linguagem da informática:

O número de crianças que tem acesso ao computador e à internet vem crescendo, e a faixa etária também vem se ampliando. Antes, mais acessada pelos jovens, a internet, hoje, vem sendo utilizada de forma crescente por crianças de 6 a 11 anos. Estas crianças já nasceram ligadas às tecnologias digitais: com menos de 2 anos já têm acesso a fotos tiradas em câmeras digitais ou o celular dos pais; aos 4 anos, já manipulam o mouse, olhando diretamente para a tela do computador; gostam de jogos, de movimentos e cores; depois desta idade, já identificam os ícones e sabem o que clicar na tela, antes mesmo de aprender a ler e escrever.  (Grifos meus).

Entre as possibilidades que estimulem a leitura e a escrita, que não somente a utilização do livro impresso ou didático, seriam os blogs ou web blogs, um recurso gratuito e bastante eficaz para a exploração e para o desenvolvimento linguístico do sujeito que o manuseia, uma vez que através deste recurso é possível desenvolver as habilidades de leitura, escrita, interpretação e construção de formulações cognitivas.

Marcuschi (2004, p.29) define blog como “[…] diários pessoais na rede; uma escrita autobiográfica com observações diárias ou não, agendas, anotações, em geral muito praticados pelos adolescentes na forma de diários participativos.” Di Lucio e Nicolaci-da-Costa (2010, p.136) citam outras possibilidades do blog: “o registro por escrito, os posts, os links, que conduzem o leitor em uma teia não linear, e a caixa de comentários”. Partindo dessas definições podemos perceber que o blog é conceituado como um espaço virtual, cujo objetivo é expor o ponto de vista dos blogueiros e também chamados digital influencers, que no momento são muito populares entre um público mais jovem, e escrevem em suas páginas web sobre determinado assunto, seja ele de cunho, pedagógico, social, pessoal, entre outros. Por estar inserido numa esfera virtual, há uma mudança considerável nas formas de comunicação. A produção dos textos torna-se hipertextualizada com a inserção dos hiperlinks e a leitura tende a ser fragmentada, com o leitor atuando como sujeito ativo: o próprio leitor conduz e constrói o seu percurso de leitura. Roseli Fischmann, também destaca a importância do uso das hipermídias em sala de aula por parte do professor:

É importante destacar que o uso de trabalhos como Hipermídia, na formação de professores, traz vantagens de várias ordens. Primeiramente, como experiência de compreensão, incorporando o cognitivo e o sensitivo, oportunidades de ampliação de horizontes. Talvez alguém indagasse – como é frequente – de que serviria esse tipo de vivência, se for posteriormente “condenado” a trabalhar em escolas que não dispõem de facilidades da informática. Trata-se, contudo, de um modo de abordar o conhecimento, de lidar com a riqueza das produções culturais humanas, não se aprisionando nos limites do impresso em tinta e papel. Uma vez vivenciada essa formação, o professor terá condições de buscar e oferecer recursos variados a seus alunos.

Quanto ao hipertexto Xavier (2005) conceitua-o como sendo um conjunto dinâmico e flexível e combinado de diferentes tipos de textos (ou elementos sígnicos) que começam a acondicionar as formas de textualidade hoje vigentes. Lévy (1993, p.33) afirma que o hipertexto melhor se define como:

Um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou parte de gráficos, sequências sonoras, documentos complexos que podem ser eles mesmos hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria deles, estende suas conexões em estrela, de modo reticular.

Xavier (2005), afirma ainda que o hipertexto é uma importante ferramenta de inclusão do indivíduo nos temas que circulam pelo mundo, por sua facilidade de acesso e amplitude de informações. Trata-se, portanto de uma importante aliada à compreensão do mundo em que está inserida a palavra, o que poderia ser um grande facilitador dos professores, principalmente do que diz respeito a alfabetização e letramento, pois esta forma de leitura não linear e mais interativa além de ser mais atrativa desenvolveria vários aspectos cognitivos do aluno, além da leitura, também o raciocínio lógico, podendo se tornar interdisciplinar.

Sobre a falta de linearidade dos hipertextos, Xavier (2005) afirma que, se por um lado, o hipertexto amplia as escolhas de caminhos no que diz respeito ao entendimento pelo leitor (das quais a escolha do caminho correto e atribuída a inteligência, segundo Xavier), por outro lado o excesso de fragmentação textual pode deixar o leitor disperso e confuso. A pluritextualidade encontrada nos hipertextos se traduz pela dinamicidade de elementos sígnicos (texto, imagens, sons), que uma vez bem organizados, podem beneficiar enormemente o leitor, ativando a leitura multisensorial e motivando o envolvimento deste para com o texto.

Quanto à multiplicidade de escolhas no texto a ser lido, esta enriquece o texto, aumentando as chances de compreensão do mesmo. O leitor do hipertexto é emancipado, pois sua compreensão final pode ir além daquela oferecida pelos textos tradicionais, independente da intenção do autor. A questão da autoria também é mencionada, já que o autor perde a centralidade, graças às facilidades de publicação que são oferecidos pela internet. Xavier adenda, que o entendimento desses tipos de textos é cada vez mais necessário na nossa sociedade, pois eles acondicionaram os nossos hábitos de leitura de agora em diante. Além disso, ele propõe uma maturidade do leitor em relação ao texto já que este pode a qualquer hora comentar acerca do que foi lido, interagindo diretamente com o autor do texto em questão.

 

REFERÊNCIAS

ALVES, G. L. O Trabalho Didático na Escola Moderna: formas históricas. Campinas: Autores Associados. 2005.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Conversações com Jean Lebrun. Tradução: Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes. São Paulo: Imprensa Oficial/Ed.UNESP, 1999.

DI LUCIO, F; NICOLACI-DA-COSTA, A. M. Blogs: de diários pessoais a comunidades virtuais de escrileitores/leitores. Psicologia, Ciência e Profissão, v.30, n.1, Brasília, mar. 2010.

FISCHMANN, Roseli. Da linguagem oral à linguagem da hipermídia: reflexões sobre cultura e formação do educador.

JORDÃO, T. C. Formação de educadores: A formação do professor para a educação em um mundo digital. Salto para o Futuro: Tecnologias Digitais na Educação. Brasília, Ano XIX, boletim 19, p.9-17, nov/dez. 2009. Disponível em: < http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/materiais/0000012178.pdf>

Acesso em: 27 de maio de 2017.

LÉVY, P. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: 34, 1993.

XAVIER, Carlos Antônio. Leitura, texto e hipertexto. In: Hipertexto e gêneros digitais: Novas formas de construção de sentido.Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. p. 170-181

 

[1] Historiadora formada pela Universidade Feevale. Especializanda em Mídias na Educação (IFSUL) e em Ensino de Filosofia para Ensino Médio (UFSM). Atualmente é professora no município de Campo Bom/RS. E-mail: vitoriawingert@hotmail.com

 

[2] Pedagogo formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Especialista em TIC (FURG). Mestrando do PPG Processos e Manifestações Culturais. atualmente é professor no município de Campo Bom/ RS. E-mail: martinsjander@yahoo.com.br;

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