Falta de oportunidade

Neiva Pavesi

“…estou começando a suspeitar que o problema não está no político ladrão, corrupto, farsante. O problema está em nós. Nós, como povo. Nós como matéria prima de um país.”
João Ubaldo Ribeiro

Neiva Pavesi é educadora, promotora de leitura, escritora, coordenadora do Grupo Cantigas Praianas. npavesi@uol.com.br

O texto de João Ubaldo Ribeiro é contundente e tem o efeito de um soco no estômago. E me faz mergulhar fundo no que somos como seres humanos, como cidadãos, como nação. As conclusões não são nada agradáveis: não somos quem pensamos ser ou quem parecemos ser. De tanto falarmos que somos um povo maravilhoso, vitimado por um bando de corruptos, acreditamos piamente na primeira premissa e sentimo-nos injustiçados pela segunda. Só que esse bando não está lá por obra do divino, nem deu golpe de estado. Está lá porque lá o pusemos; porque desde 1.500 priorizamos a mediocridade e pagamos para ver no que vai dar. Essa falta de consciência tem um preço muito, muito alto. Como João Ubaldo Ribeiro, penso que “não somos a matéria prima que o Brasil precisa”. A nossa brasilidade autóctone, tão encantadora, pode ser cruel e impedir nossas possibilidades de desenvolvimento como nação.

Do que nos vangloriamos? De nossa honestidade, de nosso caráter. Somos realmente honrados, dignos, decentes, ou somos tudo isso apenas por falta de oportunidade? Essa resposta cada um de nós só encontrará quando tiver a coragem de olhar- se nos próprios olhos. Frente a frente comigo mesma pergunto-me: “então, cidadã, o que você tem feito por sua comunidade, por seu país, além de reclamar da podridão da politicagem, além de se fazer de vítima botando toda a culpa de sua inércia, de sua acomodação, na crise? Que crise é essa, cidadã, que nas datas comerciais, quando somente o supérfluo é oferecido, lota lojas, shoppings e hipermercados? Responda sinceramente: caso lhe apareça a oportunidade de subornar alguém, você o fará? E se lhe oferecerem propina, por menor (ou maior) que seja, você terá a honradez de dizer NÃO?”

A esperteza brasileira, congênita, cultural, é perversa à medida que nivela o povo por baixo, colocando todos no mesmo balaio. Todos, menos nós, claro, porque corruptos, desonestos, ladrões, são os outros: os políticos, alguns conhecidos nossos e as pessoas com as quais não temos a menor simpatia. Nós? NÃO! Mesmo que fraudemos o imposto de renda, compremos nossa carteira de motorista, nosso atestado médico para justificação ou abono de falta, e barganhemos nosso voto em troca de salário sem trabalho, em qualquer cabide de empregos por aí. Somos veniais e sabemos disso. Cometemos nossos pecadilhos e nos justificamos:”ninguém saberá”. Só que esses pecados leves, esses pequenos atos falhos, fermentados pela impunidade, avolumam-se, crescem, e dão no que dão.De veniais para venais é apenas um passo a mais ou uma letra a menos.
Para uma nação ser forte é preciso um povo forte, capaz de gritar um poderoso NÃO a qualquer investida desonesta, antiética.

Temos muita coisa boa e não estou falando apenas de futebol e de samba. O que precisamos é mudar junto com a vida; é desconstruir a imagem anacrônica que fizemos de nós, e a reconstruirmos com estruturas sadias, sólidas, resgatando os valores necessários à vida em sociedade. Precisamos reorganizar a nossa vida com base na ética e provar a nós mesmos que cidadania é algo concreto; que ser honesto, ético, é muito bom, não importa o que os outros digam ou façam; que somos capazes de fazer de nós a matéria prima que o Brasil precisa.

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