Turismo e Desenvolvimento Sustentável na Rota dos Escravos

Turismo e Desenvolvimento Sustentável na Rota dos Escravos

 

Silvana Saraiva*

Um dos capítulos mais cruéis da história da humanidade foi o escravagismo entre 1450 e 1900 na costa transatlântica africana. O tráfico negreiro impulsionou a economia de Portugal e de toda Europa durante séculos. A geografia do comércio transatlântico partiu do Golfo da Guiné, hoje a Enseada do Benin e alastrou-se pelo rio Niger. Alcançou toda a Costa Oeste, até o oriente africano banhado pelo Oceano Indico. Estima-se em mais de 11.300.000 africanos traficados para as colônias europeias nas Américas.

 

A “Rota do Escravo, Resistência, Liberdade e Herança” foi lançado em 1994 em Ouidah, no Benin, após resolução da Unesco durante a 27ª Conferência Geral. O projeto ganha implementação em vários países e tem contribuído para identificação, reconhecimento e promoção do patrimônio imaterial ligado ao tráfico negreiro e à escravatura.

 

A Rota dos Escravos tornou-se grande atrativo para desenvolvimento turístico. Nos últimos anos, os países têm recuperado patrimônios, erguido monumentos e museus com objetivo de atrair visitantes do mundo inteiro. No Benin, recentemente, o presidente em exercício Patrice Talon lançou seu programa de governo. O turismo, que compõe 0,7% do PIB, é um dos pilares estratégicos para o desenvolvimento do país.

 

Conhecido como Costa dos Escravos, o litoral do Benin foi palco de comércio ativo de escravos pelos portugueses a partir de 1472. Entre 1754 e 1849, o tráfico foi controlado pelo lendário Francisco Félix de Souza, mulato brasileiro nascido na Bahia.

 

Em 1995, a Unesco inaugurou o ‘Portal do Não Retorno’, memorial em lembrança à deportação de milhões de cativos para as colônias do Atlântico. Local da última parada, a última visão da África. O monumento gigantesco fica na praia de Ouidah, rica em oportunidades de investimento em hotelaria, pousadas, bares, restaurantes e lojas de artesanato local. Percorrer o roteiro e conhecer todas os pontos históricos leva três dias.

 

O embarque no porto de Dakar, em direção à Ilha de Goreé, conhecida como Ilha dos Escravos, provoca emoção intensa. Passa a impressão de entrarmos numa pintura a óleo com céu imensamente azul, águas claras e, ao longe, as casas brancas de telhados vermelhos. Com tanta beleza, fica difícil imaginar a tristeza que a ilha abrigou por séculos, por conta do tráfico negreiro. As gameleiras rosadas que adornam as fachadas das construções e vielas, a exposição dos artistas pelas ladeiras e a visão do Oceano Atlântico tornam a ilha grande atrativo turístico do Senegal.

 

O passeio pode ser feito em um dia. A ilha tem grande estrutura de atendimento ao turista, com seus restaurantes, bares, choupanas, ateliês de arte e pousadas. O turismo é intenso em qualquer dia da semana. Dakar oferece ótima estrutura hoteleira, mas há campo para investimento, pois além de Goreé, a cidade litorânea possui outras atratividades.

 

Tanzânia é a 5 estrelas do oriente africano. Zanzibar, ilha paradisíaca na Costa da Tanzânia, banhada pelo Oceano Indico, hoje é rota do turismo de luxo, com seus resorts magníficos. Porém, durante sete séculos, foi importante entreposto de escravos controlados pelos muçulmanos, que desde o século XII dominavam a Ilha.

 

O Memorial da Escravidão, construído em 1998, constitui fosso com cinco esculturas de escravos em seu interior. Eles estão acorrentados uns aos outros pelo pescoço, com as correntes originais usadas no século XIX. No antigo mercado de escravos foi erguida a Catedral Anglicana, que mantém no subsolo 15 celas onde ficavam amontoados de 50 a 75 escravos aguardando embarque. Duas das celas são acessíveis aos turistas.

 

Angola foi o país onde o tráfico de escravos tomou maior dimensão. Há mais de 23 monumentos espalhados em nove províncias e é roteiro turístico de memória do país. Em alguns locais ainda falta estrutura hoteleira e de serviços, além da formação de guias turísticos.

 

Para o historiador angolano, Camilo Afonso, “reconhecer o valor histórico do tráfico negreiro e da escravatura é contribuir para a preservação da memória dos povos que foram atingidos”. Ele entende que esse reconhecimento levará o país a arrecadar meios financeiros para garantir o desenvolvimento do turismo e cultura com sustentabilidade.

 

*Silvana Saraiva é Presidente Mundial do Instituto Feafro e expert nas relações bilaterais Brasil-África. www.feafro.com.br e www.facebook.com.br/feafro. 55 11 – 3222.9146 / 55 11 – 94035.6785 (WhatsApp).

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