Prazer e eficiência da leitura nas séries iniciais do ensino fundamental

Eliane Alves Freitas*

      

Eiane Alves Freitas

RESUMO: Este artigo tem como base fundamentos teóricos, com vistas a analisar a importância da leitura no processo de desenvolvimento da aprendizagem da criança no ensino fundamental – I, bem como o trabalho do educador e da família ao desenvolver o prazer e a eficiência da leitura com as crianças. E tem como objetivo compreender como as práticas pedagógicas garantem o desenvolvimento de habilidades de leitura, visto que são atividades fundamentais para o crescimento e a formação de todo indivíduo, dentro e fora da escola. 

Palavras-Chave: Aluno, Educador, Leitura, Práticas pedagógicas.

ABSTRACT: This article is based on theoretical foundations, aiming at analyzing the importance of reading in the process of developing children ‘s learning in elementary school – I, as well as the work of the educator and the family to develop the pleasure and efficiency of reading with the children. It aims to understand how pedagogical practices guarantee the development of reading skills, since they are fundamental activities for the growth and formation of every individual, both inside and outside of school.

Keywords: Student. Educator. Reading. Pedagogical practices.

INTRODUÇÃO

A leitura é o caminho para ampliação da percepção do mundo à nossa volta. Partindo desse pressuposto quanto mais um indivíduo lê mais integrado com o seu meio estará. A leitura é feita de diversas formas, uma das principais é a utilizada pela escrita, onde pode ser observável através de livros, revistas, jornais, entre tantos outros dos quais se utilizam símbolos reconhecíveis por uma determinada sociedade. E a aquisição desse hábito por parte dos indivíduos é uma necessidade cada vez maior no mundo globalizado, para que assim aprendam desde cedo a compreender amplamente o seu meio. Para tanto, é necessário que os mesmos desfrutem de mecanismos que possibilitem a realização dessa ação.

O professor, juntamente com os pais tem que ter consciência e estabelecer parcerias, para envolver os alunos e filhos no mundo da leitura e do conhecimento. Desse modo, este artigo tem como objetivo abordar sobre a necessidade de desde cedo os pais e a escola desenvolverem a capacidade de leitura das crianças, e que a escola tem que adotar ações de inserção da leitura desde as séries iniciais de forma que a torne prazerosa e eficiente. Todo esse trabalho deve ser respaldado com a ajuda da família, para que ambas as instituições possam se ajudar nesse processo ensino-aprendizagem para uma melhoria na formação do alunado rumo à aquisição do conhecimento de forma significativa.

A formação do leitor: leituras realizadas no âmbito familiar

A leitura não se dá apenas com os livros e sim com a observação e interação do indivíduo no meio social. Desse modo, Lajolo (1994), diz que “Ninguém nasce sabendo ler, aprende-se a ler à medida que se vive.” (LAJOLO, 1994, p. 7).

Haja vista que a leitura não é unicamente feita na escola, ela se dá através dos livros da qual se aprende em sala de aula, e mediante a prática do dia-a-dia.  Desde o nascimento, o indivíduo aprende a fazer leitura do meio em que está inserido, e com o passar do tempo essa prática de leitura deve se estender ao processo sistematizado de ensino, para assim ir se desenvolvendo como ser alfabetizado e letrado. Para isso é de fundamental importância que o mesmo tenha desde sua infância hábitos de leitura vivenciados além da escola, no âmbito familiar, pois, à medida que os pais leem para os bebês para dormirem ou para as crianças se descontraírem elas aprendem e se desenvolvem. Mas, para que aconteça essa prática de forma prazerosa no seio familiar e na escola é necessário um ambiente aconchegante e que traga prazer, haja vista, que a leitura é imbuída de encantamentos.

De acordo com a linguista brasileira, Irandé Antunes (2003):

A leitura possibilita a experiência gratuita do prazer estético, do ler pelo simples gosto de ler. Para admirar. Para deleitar-se com as ideias, com as imagens criadas, com o jeito bonito de dizer literariamente as coisas. Sem cobrança, sem a preocupação de qualquer prestação de contas posterior. Apenas sentindo e, muitas vezes, dizendo: “Que coisa bonita!”. (ANTUNES, 2003, p.71)

Desse modo, quando é despertado nos alunos o gosto pela leitura, os mesmos a realizam como uma atividade comum do seu cotidiano, e o melhor, de forma prazerosa, motivados e sem reclamações. Pois, à medida que o professor trabalha com a leitura em sala de aula, desenvolve ou até mesmo leva o seu alunado a desenvolver diferentes capacidades, habilidades e conhecimentos.

Já no seio familiar quando as crianças ouvem as histórias vão internalizando o prazer pela leitura mesmo que de forma inconsciente, sem contar também que, ao ler os pais começam a perceber a leitura como um ato que vai além da simples definição da palavra propriamente dita, e sim entendimento, interpretação, debate, exige comparações entre outras leituras, é influenciar e ser influenciado.

A Leitura se constitui como uma fonte inesgotável de conhecimento. Sua importância é de extrema relevância no mundo escolar e informal, por proporcionar vários benefícios a todos que se dedicam a esta prática ativa. A capacidade de ler é de importância tão singular na vida de alguém, que sua experiência na aprendizagem da leitura sela seu destino em relação à vida escolar.

 

O Papel da escola, a formação do leitor do Ensino Fundamental – I e as mazelas ocorridas na formação desse pequeno leitor.

A escola é o ambiente no qual a leitura pode e deve ser exercitada e organizada. Enquanto uma instituição formal deve proporcionar práticas ligadas à ampliação do universo cultural do aluno desde as séries iniciais, bem como às aprendizagens de diferentes campos do saber. Nesse sentido, todos os textos que circulam na sociedade necessitam fazer parte do contexto escolar. Haja vista que, a instituição escolar é um ambiente no qual as práticas de leituras estão mais propícias a se desenvolverem. (ROCCO, 1994).

Klebis (2008, p.37) afirma também que:

A importância da instituição escolar no processo de formação de leitores e na constituição de práticas de letramento mais significativas no interior das escolas, apesar de ser largamente discutida, além disso, permanece distante de encontrar seu verdadeiro lugar e, ainda que a escola não seja a única instância responsável pela dinamização das relações entre os sujeitos e os objetos culturais, seu papel na construção dessas relações é primordial, de modo que não podemos pensar a leitura sem considerar o papel da escola.

Por mais que a prática de leitura ainda aconteça de forma lenta dentro do contexto escolar de algumas escolas brasileiras, é nesse ambiente que ela ganha força e significado na vida do acadêmico, pois, o papel da escola é a construção do conhecimento em todas os anos/séries ou níveis de ensino.

Diante desse papel que é uma missão não muito fácil, a escola deve estar atenta para não mascarar suas ações, pois Silva, (1988) nos alerta que: “uma análise crítica vem sendo necessária com relação a esse cenário, indicando que muitas das práticas de leitura que ocorrem na escola, atendem a objetivos contrários à formação do leitor”. (SILVA, 1988, p 2).

Desse modo, nota-se que cabe ao educador decidir, por meio do planejamento de suas práticas, que tipo de leitores pretende-se formar. Klebis (2008) afirma que “(…) certas práticas escolares de leitura mais afastam do que aproximam os leitores dos livros, e que outras são capazes de proporcionar experiências de aproximação tão fortes que nos surpreendem […]”. (KLEBIS, 2008, p.34).

Diante dessa realidade, tem sido constatado que, muitas vezes, por tanto querer adotar o livro como uma fonte principal dos ensinamentos, a leitura é vista como uma obrigação no cotidiano escolar. E que a leitura é produzida na escola para a escola, com o objetivo de atender à necessidade que a instituição tem de realizar trabalhos com leituras. Com isso, propõe leituras de livros e textos e sempre cobra dos alunos, exigindo uma atividade ou avaliação sobre aquela leitura. Parece existir certa desconfiança por parte da escola. “(…) a leitura é empreendida para avaliar o desempenho dos alunos, ou simplesmente para verificar se a leitura de fato ocorreu […]” (KLEBIS, 2008, p. 38). E, assim, as escolas acreditam que estão formando leitores. Formação essa bem mascarada.

O autor afirma ainda, que esse tipo de leitura é constante nas escolas nas quais os alunos não demonstram uma crítica, um questionamento sobre a sua leitura, apenas a encaram a como uma obrigação. Isso ocorre porque as escolas, em sua maioria, não consideram as produções de leitura de seus alunos, como o acesso aos textos que os interessem, exposição de opiniões, interpretações individuais, discussão das ideias, tempo para ler, entre outras.

Muitas escolas ainda nos tempos atuais querem produzir tudo muito rápido e então propõe aos alunos uma grande quantidade de textos e livros para serem lidos num determinado tempo, restringindo o ato pedagógico somente à leitura e perdendo assim o verdadeiro significado do texto. Não significa que as escolas tenham que deixar de usar o livro como ato pedagógico, mas precisam ter conhecimento de que esse ato necessita ser envolvente, atrativo, prazeroso e construtivo, já que a escola tem um papel importante na criação do gosto pela leitura, na construção de ideias e na produção de conhecimento.

Nessa perspectiva, é evidente que o professor sendo o principal mediador no âmbito escolar pelo processo de formação do aluno como leitor deve oferecer condições mínimas para que se aproximem do livro em um convívio envolvente, não por mera obrigação e nem por tão pouca espontaneidade. Além disso, é necessário ter em vista que não é possível formar alunos-leitores se não existirem a princípio professores também leitores.

O professor, que trabalha com crianças em fase de alfabetização, ou das séries iniciais de modo geral, é um grande formador de opinião, e devido essa aptidão e incumbência ele pode e deve trabalhar a leitura diariamente em suas ações educativas com os alunos e até mesmo, implantar conceitos de leitura e prática diária em sala de aula. É nesses espaços que configura um bom lugar para construir uma consciência acerca da importância de ler e dar continuidade no trabalho desenvolvido por algumas famílias com suas crianças antes mesmo de adentrarem na escola quanto ao processo de leitura.

Cabe ao educador proporcionar momentos de prazer com atividades criativas que despertem o interesse e o envolvimento dos alunos pela leitura. Os educadores têm em suas mãos uma preciosa ferramenta que pode possibilitar o desenvolvimento intelectual e pessoal de seus alunos, pois os alunos nessa fase em estudo amam imaginar, criar e até mesmo viajar no mundo da leitura, quando explorada de forma que venha de encontro com seus anseios. Mas é preciso dar condições para que esse aluno desenvolva hábitos de leitura espontânea, pelo simples prazer da leitura.

De acordo com Paulo Freire, (1989, p. 28 – 29), o professor ao trabalhar com crianças, assume uma responsabilidade muito grande:

(…) o processo da alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa dever à ajuda do educador, anular sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem.

Sendo assim, o professor pode atuar desenvolvendo no decorrer de suas aulas, leituras compartilhadas e leituras livres. Leituras essas, que levam as crianças a se desenvolverem cada dia mais rumo ao letramento.

De acordo com Soares (2003), é preciso compreender que alfabetização e letramento são práticas distintas, porém, indissociáveis, interdependentes e simultâneas. E por serem dois processos indissociáveis, ao qual o primeiro diz respeito à aprendizagem do sistema de escrita, e o outro conceito, refere-se à leitura de mundo e das práticas sociais do contexto em que esse ser está inserido, ainda, muitas crianças chegam à etapa final do processo de alfabetização só alfabetizadas e não letradas, pois não conseguem atribuir sentido ao que leem e fazer uso da escrita em contextos e práticas sociais.

Assim, o termo letramento surgiu a partir do reconhecimento da necessidade de se nomear práticas sociais de leitura e de escrita mais complexas que as práticas do ler e escrever resultantes da codificação e decodificação da escrita. (SOARES, 2007. p. 78)

 

Para tanto, quando se trabalha com crianças em fase de alfabetização as propostas de atividades não devem estar pautadas apenas na perspectiva da alfabetização, pois, as atividades direcionadas aos alunos não podem conter um fim em si mesma, ou seja, um fim específico de apropriação do sistema de escrita alfabética.

Em sala de aula, o professore deve usar os mais variados tipos de livros, ou textos, o que não pode acontecer é a limitação de oferecer leituras às crianças somente do livro didático. Para dar mais vida às leituras podem-se dramatizar trechos dialogados de uma história, por exemplo. A leitura espontânea, pessoal e selecionada pela criança é de fundamental importância para a formação do hábito.

O processo da leitura é muito enriquecedor para a prática, devido não se limitar apenas à decodificação de símbolos, mas envolver uma série de táticas que permitem o sujeito a compreender o que lê.  Nesse segmento, os PCN’s (2001, p.54.) relatam:

Um leitor competente é alguém que, por iniciativa própria, é capaz de selecionar, dentre os trechos que circulam socialmente, aqueles que podem atender a uma necessidade sua. Que consegue utilizar estratégias de leitura adequada para abordá-los de forma a atender a essa necessidade.

Portanto, observa-se que a capacidade para aprender também está ligada ao contexto pessoal do sujeito. Desta maneira, Lajolo (2002) afirma que cada leitor, por exemplo, entrelaça o significado pessoal de suas leituras de mundo, com os vários significados que ele encontrou ao longo da história de um livro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em meio às leituras realizadas, compreende-se que a aquisição do hábito de leitura é uma ação que deve acontecer na vida do ser humano desde muito cedo, mesmo antes de dominar o código da escrita propriamente dito, haja vista, que essa ação deve ser exercida no seio familiar pelos pais com suas crianças entes mesmo de adentrarem na escola para receberem o ensino sistematizado. Ao momento que as crianças entram na escola, a leitura não deve ser algo novo para elas, pois a aprendizagem da leitura não se limita ao exercício de grafias, mas com codificação, decodificação e problematização do código da escrita e se perpetua como caminho para novas reflexões sobre a própria linguagem e por práticas sociais de leitura.

Vale ressaltar ainda, que é na escola que precisa acontecer à sistematização dos saberes que os alunos trazem adquiridos no seio familiar como ferramenta pedagógica do professor, no sentido de selecionar a informação do aluno e construir sentido para o conhecimento no que diz respeito às habilidades da leitura.

O ato da leitura é muito importante e requer uma base sólida, construída quando o educando ainda está no início de sua escolarização e formação. É neste momento que ele realmente precisa de um bom acompanhamento familiar e do docente. Precisa no espaço educativo do conhecimento sistematizado, de professores qualificados e comprometidos em proporcioná-los uma prática rica em aprendizagem. Pois, a concepção dos alunos sobre a leitura e a frequência com que a realiza influencia também no aprendizado das demais disciplinas. Por isso, os planejamentos e as ações pedagógicas dos docentes devem ser significativos ao seu alunado, para que assim se tornem leitores críticos e assíduos.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, I. Aula de Português: Encontro e Interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. 139 p.

BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa. 3. ed. Brasília: A secretaria, 2001.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23ª. ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.

KLEBIS, Carlos Eduardo de Oliveira. Leitura na escola: problemas e tentativas de solução. IN: SILVA, Ezequiel Theodoro da. (org). Leitura na escola. São Paulo: Global, 2008.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura. In: Do mundo da leitura para leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 1994, p. 11-65.

________. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 2002.

ROCCO, Maria Thereza Fraga. A importância da Leitura na Sociedade Contemporânea e o Papel da Escola Nesse Contexto. Série Ideias nº 13. São Paulo: FDE, 1994.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura e Realidade Brasileira. 4 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.

SOARES, M. Alfabetização e letramento. 5. Ed. São Paulo: Contexto, 2007.

______. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Trabalho apresentado na 26° Reunião Anual da ANPED, Minas Gerais, 2003.

SOUZA, Renata Junqueira de. Narrativas Infantis: a literatura e a televisão de que as crianças gostam. Bauru: USC, 1992.

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*Professora na rede Estadual de Ensino desde 2010, Pedagoga, especialista em Gestão, Supervisão e Orientação Escolar e em Docência e Gestão do Ensino Superior. elliannefreitas@hotmail.com.

 

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