O Natal da rua vizinha

O Natal da rua vizinha

Gilda E. Kluppel

 

Todos os natais eram assim, as casas da rua vizinha decoradas para recebê-lo e o convidado sempre vinha. Nunca falhava. Entretanto, para ele, um menino de oito anos, o velhinho não aparecia. Em seu mundo, que ainda possuía espaço para fantasia, imagina que o Papai Noel é capaz de se multiplicar, para comparecer em variados lugares, tal como as imagens da televisão. E escondido de todos retira incontáveis brinquedos de um saco mágico. O excesso de presentes demonstra que o velhinho passa por aquela rua. Leva a crer que a rua, em que mora, não mereça a visita do velhinho. Quem sabe, crianças malcriadas aprontaram muito durante o ano, por isso não ganham os presentes desejados, apenas lembrancinhas.

Ele suspeita que o Papai Noel não quer entrar em uma casa humilde, sem adornos natalinos. Continuamente ouve as pessoas desejarem, umas às outras, um feliz Natal, mas parece que o Natal é realmente feliz quando se encontra o presente cobiçado, embaixo de um pinheirinho. Aquele que pouco recebe não participa da celebração. Ansiava pela visita do Papai Noel para, no dia seguinte ao Natal, divertir-se com brinquedos novos e reluzentes, tal qual as crianças da rua vizinha.

Não tardou para surgirem as desconfianças em relação às intenções do velhinho. Talvez, uma pessoa interesseira que agrada apenas as crianças moradoras das casas bonitas da rua vizinha. Alguém que se veste para o frio, todo coberto, em dias de calor intenso. Ainda, com aquele trenó puxado por bichos estranhos, os quais nenhuma criança sequer tenha avistado em um zoológico.

Por conta disso, começou a “virar a cara” solenemente para a figura que se posta em frente às lojas. Em certa ocasião, recusou até as balas oferecidas pelo velhinho. A rejeição aumentou ao presenciar um sujeito gargalhando num bar, vestido de Papai Noel, com a barba colocada em cima da mesa entre garrafas de cervejas. O primo mais velho confirmou a farsa. Então compreende o motivo pelo qual nunca chegavam os presentes pedidos. Respira aliviado por não ser um menino mau, julgado e condenado por aquele homem que gosta de sentar em uma poltrona vermelha.

A figura sinistra, que o atormentou durante a infância, com o passar do tempo, ainda instiga. Sobretudo, ao se mostrar de vários modos e com inúmeras finalidades, convertido em um ávido comerciante. Logo vem o Natal! E a sua angústia renasce a cada final de ano. Em outubro começam a surgir os símbolos da época, panetones que abarrotam os supermercados, anunciando a chegada do senhor das barbas brancas, para abrir o período de compras em busca do décimo terceiro salário. Após a data natalina, a temporada de trocas prorroga-se até janeiro, quando ocorrem os saldões de Natal. Afinal, o “bom velhinho”, para o bem dos guardiões da gastança, conseguiu dilatar o mês de dezembro.

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

Todos os finais de ano, irremediavelmente, ocorre o vigoroso movimento de pessoas saindo de lojas e supermercados com muitas compras, de comidas, bebidas e presentes. Nessa perspectiva, ele tem a sensação de pertencer ao rol dos consumidores ineficientes, ao não cumprir as metas que regem o período natalino. É necessário uma festa comercial completa para acender a centelha natalina? Nem mesmo a rudeza da vida impediu a crença em algo melhor. Os natais podem ser diferentes, caso os olhos das crianças não sejam constantemente direcionados para as imagens dos brinquedos da moda.

Enfim, perdoou o Papai Noel, os filhos o libertaram da “maldição” do velhinho. Agora se veste de Papai Noel, para despertar a magia que acalenta as crianças. Entretanto, seu personagem é o da brincadeira, do riso e da descontração, não desperta a ansiedade pelo recebimento daquele gigantesco saco de presentes, para que, depois, a expectativa se converta em lágrimas.

A comemoração da rua vizinha, considerado o verdadeiro Natal, definitivamente perdeu o sentido, o velhinho dos muitos presentes não interfere mais em seu Natal particular. No acolhimento da família, basta o cheirinho do frango recheado assando no forno e algumas quinquilharias. Diante da alegria singela, que pairou durante toda a noite, fez as pazes com a data natalina.

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