A Gramática das Culturas da Infância em Sarmento

A Gramática das Culturas da Infância em Sarmento

 

Krischna Silveira Duarte[i]

Resumo: A partir da perspectiva da Sociologia da Infância, este texto apresenta uma breve reflexão acerca do conceito de Gramáticas das Culturas da Infância (SARMENTO, 2004), abordando os quatro eixos que compõe a proposta de Sarmento acerca do modo da infância se relacionar com seus pares e com os adultos, intermediados pela cultura na qual estão inseridos.

Palavras-chave: Infância; Cultura; Sociologia da Infância; Gramáticas das Culturas das Infâncias;

Resumén: A partir de la perspectiva de la Sociología de la Infancia, este texto presenta una breve reflexión acerca del concepto de Gramáticas de las Culturas de la Infancia (SARMENTO, 2004), abordando los cuatro ejes que componen la propuesta de Sarmento acerca del modo de la infancia relacionarse con sus pares y con los adultos, intermediados por la cultura en la cual están insertados.

Palabras clave: Cultura; Sociología de la Infancia; Gramáticas de las Culturas de las Infancias;

A infância e suas gramáticas

Na perspectiva da Sociologia da Infância, este texto se propõe a realizar uma breve incursão pela noção de Gramáticas das Culturas Da Infância, proposta por Manuel Sarmento na obra As Culturas da Infância nas Encruzilhadas da Segunda Modernidade (2004). Sarmento fala sobre o papel das crianças como responsáveis pela disseminação e pela apropriação crítica da cultura pelas crianças.

As crianças, todas as crianças, transportam o peso da sociedade que os adultos lhes legam, mas fazem-no com a leveza da renovação e o sentido de que tudo é de novo possível. É por isso que o lugar da infância é um entre-lugar […] o espaço intersticial entre dois modos – o que é consagrado pelos adultos e o que é reinventado nos mundos de vida das crianças – e entre dois tempos – o passado e o futuro. É um lugar, um entre-lugar (Bhabha, 1998) socialmente construído, mas existencialmente renovado pela acção colectiva das crianças. Mas um lugar, um entre-lugar, pré-disposto nas suas possibilidades e constrangimentos pela História. É por isso um lugar na História (SARMENTO, 2004: 02-03).

As Culturas da infância (SARMENTO, 2004) oferecem subsídios para compreender de que forma estas culturas se constituem na interação entre os adultos e as crianças. De acordo com Sarmento as culturas da infância referem-se à capacidade da atuação das crianças como atores sociais críticos que desenvolvem modos de significação e ação próprios, que se distinguem dos modos de ação e significação dos adultos. A pluralização do conceito de culturas objetiva caracterizar uma interação social que tem como base a influência das relações societárias nas quais as crianças estão inseridas, considerando as dinâmicas e os tensionamentos que emergem das relações de classe social, gênero, etnia, religião, etc.

Para Sarmento (2004), compreender os traços das culturas da infância requer o conhecimento de uma gramática própria, que estabelece formas e conteúdos representacionais diversos, e se articula a partir dos quatro eixos a seguir:

Interatividade: a criança aprende a partir da relação com o Outro, na família, na escola e, principalmente, com seus pares. Suas relações são heterogêneas, nos diferentes mundos em que circula, vai amealhando conhecimentos que acabam por formar sua identidade pessoal e social. A cultura dos pares funciona a partir de um sistema geracional em que as crianças vão ensinando aos mais novos os modos de estar no mundo. Isso explica porque, por exemplo, as crianças ainda brincam de pião ou amarelinha em tempos de jogos eletrônicos.

Ludicidade: a brincadeira é elemento fundamental da aprendizagem e da sociabilidade. Brincar é condição para a recriação do mundo. Brincar é uma característica não só da criança, está presente também no adulto. A criança, contudo, brinca o tempo todo, sem distinção entre o momento lúdico e o momento do trabalho, como ocorre no mundo adulto. Talvez o que a criança faça de mais sério, seja justamente, brincar.

Fantasia do real: é a capacidade de recriar experiências a partir da não-literalidade com que se coloca no mundo e atribui significados para ele. Nas culturas da infância, realidade e fantasia coexistem. A fantasia do real é condição central da capacidade de resistência da criança face às situações que lhe são dolorosas.

Reiteração: complementa a não-literalidade com a característica não-linear do tempo. O tempo da criança é recursivo. Pode ser reinventado continuamente. A cada era uma vez, uma nova vez inaugura um recomeço, repleto de possibilidades. A interação se dá a partir de fluxos potencialmente infinitos de continuidade “e depois… e depois…” e de ruptura “não brinco mais contigo”. O tempo recursivo, aliado ao ensinamento geracional pelos pares, permite que toda a infância possa se reinventar e recriar, começando tudo de novo.

A reflexão sobre a dinâmica geracional desenvolvida na interação entre crianças e adultos e crianças e seus pares é fundamental para discutir os processos educativos centrados na criança e na primeira etapa do ensino básico de escolarização. Compreender as culturas da infância deve considerar que destas relações emergem processos de significação e ação que compõe nosso modelo de sociedade. Este texto objetivou, portanto, realizar uma breve incursão pelas categorias estabelecidas por Sarmento para discutir as gramáticas das culturas das infâncias, de forma a suscitar a reflexão a respeito da temática.

DUARTE, S. K. A Gramática das Culturas da Infância em Sarmento. Revista P@rtes, 2017.

 

Referência

SARMENTO, M. As Culturas da Infância nas Encruzilhadas da Segunda Modernidade. In: Sarmento, M. e Cerisara, A. Crianças e Miúdos: perspectivas sociopedagógicas da infância e educação. Porto: Edições ASA, 2004.

 

[i] Doutora em Educação. Mestre em Educação Ambiental. Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. E-mail: krischna.duarte@gmail.com

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