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Considerações iniciais
Em perspectiva das novas interações entre cultura e economia
neste início de século, esse trabalho tem como objetivo discutir a Economia
Criativa com enfoque nos produtores de artesanato e no turismo cultural.
O
estudo parte do pressuposto de que ações voltadas para a elaboração de
políticas públicas e iniciativas em marketing cultural podem
colaborar para a melhoria dos padrões de qualidade da produção artesanal e
das condições de vida do artesão, incluindo a capacidade de organização e
coesão social dessa comunidade no referido território.
O trabalho se justifica por sua atuação junto ao processo de
valorização da cultura local visando a sinalizar alternativas para o
desenvolvimento através de um turismo cultural sustentável em que a
comunidade, fazendo valer as suas expressões culturais, participe e seja
beneficiada econômica e politicamente.
De acordo com Yúdice (2004), a redução dos investimentos no
setor social por parte dos governos dos países desenvolvidos, principalmente
a Inglaterra, está cada vez mais impulsionando o setor das artes a gerenciar
o social. A partir desse fenômeno, surgem novos tipos de relação entre os
capitais social, cultural e econômico, fundamentados no interesse suscitado
pela retomada de saberes e práticas tradicionais.
Cada vez mais envolvido com os grupos
sociais, o setor das artes aponta soluções para melhorar os indicadores da
educação, impulsionar a percepção e proteção do patrimônio através do
turismo cultural, além de criar empregos e gerar renda.
Contudo, o autor ressalta que o
desenvolvimento cultural depende da capacidade de atrair investimentos e
fomentar parcerias público-privadas, apresentando aos investidores um
retorno que, geralmente não pode ser calculado em cifras e sim em cidadania,
pacificação e participação mais ativa da comunidade na esfera política,
alavancando a democracia.
Cultura e Economia Criativa
Nas últimas décadas, o processo de “culturalização” da Economia
vem ganhando contribuições teóricas no cenário mundial. Considera-se a
cultura como “campo interconectado, reconfigurado por novas identificações
globais e locais, em que se negociam as bases para uma interculturalidade de
inclusão em forma de rede” (CANCLINI, 2005, p. 21). Toma-se como norteador
desse estudo o uso da cultura como recurso (YÚDICE, 2004), podendo funcionar
enquanto agente para a melhoria das condições sociais, estimuladora do
crescimento econômico, urbano e turístico.
O surgimento das Indústrias
Criativas deu-se a partir de 1997, através da iniciativa do primeiro
ministro do Reino Unido em criar a “Creative Britain”, visando a impulsionar
a geração de riqueza com a criatividade.
Paralelo a essa investida, aconteceu
uma redução de investimentos no setor social que levou, entre outras
conseqüências, à expansão da cultura para as esferas econômica e política.
Assim, o setor cultural tornou-se um aglutinador de ações para o
desenvolvimento socioeconômico.
A Economia Criativa possui, em
primeiro lugar, a premissa da transversalidade (DEHEIZELIN, 2006, p. 4), uma
vez que está atravessada por interesses econômicos, sociais, simbólicos e de
proteção à propriedade intelectual.
Outra premissa da Economia Criativa
é a internacionalidade. A proposta de funcionar como nódulo articulador de
fomento e fluxos de bens simbólicos entre diferentes locais expõe a
necessidade de pensar “glocal” dessa tendência.
A inclusão multidimensional compõe a
terceira premissa. A capacidade de gerar empregos e renda, de alterar os
modos de trabalhar são alguns dos exemplos de impactos nos mais variados
setores. O turismo figura como um dos principais setores em que se pode
observar transformações, afinal, não pode haver visitação sem
desenvolvimento da noção de preservação, cuidados com a paisagem, com as
comunidades locais, com o patrimônio.
Por fim, a inovação encerra o quadro
de premissas, com novas formas de financiamento, de formulação de políticas
e interação com esferas para além do econômico.
Com esse objetivo, o Ministério da
Cultura do Brasil, em parceria com a Conferência das Nações Unidas sobre o
Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estão
implantando em Salvador o Centro Internacional Transdiciplinar de Economia
Criativa, com inauguração prevista para 2007.
O CITEC funcionará como mediador do
financiamento à cultura, diálogo interinstitucional entre poder público,
privado e terceiro setor, coadjuvante na elaboração de políticas e
estratégias para a diferenciação, frente ao mercado globalizado, dos bens
simbólicos que exercem uma retomada de traços criativos e identitários de
cada local.
Desse modo, as Indústrias Criativas
ultrapassam a dimensão cultural e inserem a identidade num sistema
internacional de comércio. Essas reconfigurações no âmbito da cultura
ressaltam a necessidade dos artesãos em, sobretudo, interagir com seu
arcabouço cultural.
Situação do artesão no Brasil
Nesta etapa, o estudo busca delinear um panorama da profissão de
artesão no Brasil, relacionando a atual discussão sobre a produção artesanal
e o turismo cultural.
Compreende-se por artesão tradicional o agente que conhece o meio onde se
situa, domina técnicas para construir trabalhos manualmente e possui
sensibilidade para criação (VIVES, 1983). Contudo, essa concepção torna-se
insuficiente para delinear o perfil do artesão no contexto da Economia
Criativa.
Para relacionar as atribuições e características
desse sujeito seria necessário concebe-lo à luz da lógica “glocal” de
mercado de bens simbólicos, em que se faz necessário perfil empreendedor
para agir em conjunto com grupos de cooperação e parcerias público-privadas,
ter conhecimentos específicos para captar e gerenciar recursos, além de
atualizar as tradições locais e ser testemunho de sua época, tornando
visíveis os traços do cotidiano que referenciam as múltiplas identidades
culturais.
No Brasil, o artesanato movimenta cerca de 28
bilhões de reais por ano e envolve 8,5 milhões de pessoas (SIMONNETI p. 28).
Apesar de promissor, o setor ainda carece de investimentos e políticas
culturais específicas para combater o maior obstáculo ao desenvolvimento do
artesão: a informalidade.
O aumento da informalidade e do desemprego no
início do século XXI foi impulsionado pelo avanço da automação de atividades
ligadas ao setor de serviços. Ao mesmo tempo, extinguiu empregos e fez
surgir novas profissões, com exigências especializadas. Para o aumento desse
fenômeno também contribui a má distribuição da renda e do PIB nacional.
Segundo Barroso Neto (1999), o artesanato
constitui um aumento de oportunidades de ocupação de mão-dobra e geração de
renda, combatendo o desemprego. O Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE)
divulgou que, em
2005, a
taxa de desocupação foi igual 10,2% da população acima de 10 anos de idade.
Considerado como tradição, elemento folclórico ou artefato tangibilizador da
memória de comunidades, o artesanato compõe ainda uma alternativa de renda.
Contudo, sua inclusão no ramo de atividades econômicas levou a um processo
de industrialização do produto artesanal, voltado para consumo turístico
também de massa. Esse fenômeno originou o termo industrianato (PINHO,
2002, p. 170), em que o artesanato é feito em larga escala e distribuído
para além do território de origem, desvinculando-se de uma localidade,
tradição ou comunidade específica, entre outras características.
Ocorre
que, em relação ao turismo, a diferença constitui-se em núcleo do produto (WAINBERG,
2003) e coloca em lugar privilegiado o artesanato que pode funcionar
enquanto ferramenta facilitadora da compreensão do destino, atuar junto à
memória e na melhoria de problemas sociais, econômicos e políticos (PINHO,
2002; YÚDICE, 2004), como alternativa sustentável de desenvolvimento.
Ainda que os números apontem para o crescimento
da economia e do comércio de artesanato brasileiros, estes não representam
necessariamente a redução da pobreza. Na inexistência de políticas para a
melhoria das condições de vida dessa comunidade, os recursos tendem a ser
canalizados para outras ações. Não encontrando auxílio ou fomento junto a
organismos públicos, a situação de grande parte desses artesãos é de
subsistência, a partir de iniciativas individuais.
Políticas públicas para o desenvolvimento:
o olhar
da Economia Criativa
Nesta etapa, o estudo visa a
relacionar as características das políticas culturais para o desenvolvimento
socioeconômico no viés da Economia Criativa. Em atenção às premissas
relacionadas na primeira parte desse estudo, coloca-se enquanto ato primeiro
para alcançar a adequação das políticas públicas ao território em questão a
realização de estudos e pesquisas para formar uma base de dados consistente
sobre as especificidades de cada cultura em nível local.
Uma etapa de pesquisa que possa
reunir aspectos do imaginário das diversas regiões, sejam estes ligados à
questão étnica, folclórica ou às marcas da cultura econômica de cada
localidade etc. Enfim, traços que possam ressaltar a auto-identificação
social e cultural do grupo.
Ainda nessa fase, faz-se importante
identificar os artesãos existentes no local, suas produções independentes
e/ou associadas e ainda os materiais típicos de cada região que possam ser
utilizados como matéria-prima.
A segunda fase desse processo ocorre
em atenção à apropriação desses traços culturais como temática, considerando
a necessidade de exercícios de capacitação. Tal etapa requer uma liderança
local, um artesão mestre da comunidade, o qual, em parceria com equipes
técnicas em design e planejamento, transmita aos demais membros
técnicas e saberes, enfatizando o planejamento do produto e o aprimoramento
de padrões de qualidade, estimulando o convívio social e a troca de
experiências entre as gerações.
Em seguida,dá-se início à fase de
incentivo à produção. Nesse aspecto, devem ser consideradas políticas de
crédito e investimentos; parcerias público-privadas; qualificação de agentes
criativos para solicitar e gerenciar recursos resultantes de tais
articulações (CANCLINI, 2003; REIS, 2003; DEHEIZELIN, 2005).
Por fim, é importante compor uma rede de
distribuição dos produtos, inclusive para o exterior, viabilizando o aumento
das exportações. Também deve ser incentivada a venda direta do produto ao
consumidor, em especial o público visitante.
Nesse sentido, muitas são as
tentativas de implementação do turismo cultural em cidades do interior de
Brasil. Entretanto, muitos são os exemplos em que a cultura encontra-se
subordinada a um turismo massificador, em que ocorre a distorção do foco de
abordagem dos potenciais simbólicos regionais, visando principalmente a
impactos econômicos de curto prazo (BARROCO, 2000). Tal postura ameaça a
apreciação, o usufruto e a conservação do patrimônio cultural,
comprometendo, por conseqüência, a sua sustentabilidade.
O patrimônio cultural, quando
reconhecido por um determinado grupo, tem seus significados recriados pelas
gerações, podendo motivar o desejo pela conservação e/ou ressignificação de
bens simbólicos. Tal postura, todavia, depende das condições de interação,
participação nas decisões para a conservação e possibilidade de
desenvolvimento socioeconômico a partir dos usos do patrimônio no atual
contexto histórico (ARIZPE; NALDA, 2003).
Não
basta configurar um bem como patrimônio apenas registrando-o em inventários
ou abordando-o enquanto input para o turismo cultural, de modo a
submeter a cultura a interesses puramente econômicos. Pelo contrário, é
necessário estabelecer estratégias para a sustentabilidade do turismo
cultural, ou seja, “reunir condições de ser o elo na cadeia de transmissão
sobre as qualidades da sociedade/lugar visitado; que interpreta e respeita a
cultura local” (SIMÕES, 2001, s/p), visando o bom uso dos recursos
ambientais.
Considerações finais
Diante do exposto, considera-se que a
elaboração de políticas socioculturais para a promoção do desenvolvimento e
a democracia das expressões culturais, priorizando o trabalho artesanal e o
turismo como integrar comunidades locais e setores público e privado, deve,
no viés da Economia Criativa, estar fundamentada na crença de que o talento,
a identidade cultural e a criatividade podem gerar produtos com valor
agregado, passíveis de proteção pelo direito de propriedade intelectual.
Embora já esteja na lista de
produtos exportados, a diversidade da produção artesanal da brasileira ainda
é pouco explorada. Como bem coloca Deheizelin,
estamos fazendo canja com
galinha de ovos de ouro cada vez que deixamos ao abandono o capital cultural
de nosso país e trabalhamos com bases em ações (que não merecem o nome de
políticas culturais, por que não o são) (2005, s/p.).
Faltam políticas de incentivo que
possam ir além de simples espaços para exposição, ações que favoreçam o
desenvolvimento turístico, projetos de marketing cultural e
visibilidade no âmbito da Economia Criativa (REIS, 2002).
Fica ressaltada a importância do
diálogo entre setor público, privado, terceiro setor e Instituições de
ensino superior para melhorar a qualidade, diversificar a produção e tornar
um destino atrativo ao turismo cultural.
Desse
modo, as identidades culturais se reconfiguram em função do novo momento
histórico no qual as comunidades populares tentam retomar sua cultura
enquanto "recurso para a melhoria sociopolítica e econômica" (YÚDICE, 2004,
p. 25), para a sustentabilidade em tempos de globalização.
Ocorre
nesse trabalho o entrelaçamento de aspectos ligados à diferença, acentuada
pelo olhar estético e pela interação de culturas num ambiente híbrido, em
que coexistem elementos tradicionais, populares, conhecimentos específicos
que vão resultar em curiosidade pela cultura local, despertando o olhar e o
interesse turístico pelas culturas locais brasileiras.
Referências
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quando? In: Gazeta mercantil. Abr/2000.
BARROSO NETO, Eduardo.
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em
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Marie-Anne Henriette Jeanne Kremer. Belo Horizonte:
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