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Vida de
Jornalista
"Reaja ou se demita" (*)
Moisés Rabinovici
(*) "Reaja ou se demita" foi o
conselho de uma psicóloga a quem recorri mais como paciente do que como repórter.
Reagi escrevendo. A IstoÉ quis para capa. Saiu a capa, mas não o texto. Só
soube que o texto não sairia no feriado de sexta-feira, à tarde. Podiam
ter me avisado antes. Reagi mais uma vez. Mandei o texto para o Clóvis
Rossi. Ele o passou adiante dentro da Folha. Ia sair no domingão. Mas a
Folha me pediu para adiá-lo para a próxima quinta-feira. E fazer uns
cortes. E espersonalizar a abertura, que não está personalizada. Os
pedidos não foram uma condição. Mas não topei. Com a IstoÉ na banca,
que sentido teria um texto despersonalizado, cinco dias depois?
Ei-lo:
Quando nos conhecemos, num jantar em Nova York, meu novo chefe foi dizendo:
"Você é o nosso melhor correspondente." Mas logo ele iniciou um
perverso processo para me tirar dos Estados Unidos. Quando nos reencontramos
em 1998 num novo emprego, ele em São Paulo e eu em Paris, trocamos dois
e-mails:
"Nosso homem em Paris", ele titulou o primeiro. E ao se tornar de
novo meu chefe, mandou o segundo: "Conto contigo." Mas logo começou
a me boicotar, excluir e humilhar, perseguindo a minha demissão.
Qualquer chefe tem o poder de demitir quem não queira. Mas torturar, não.
A dose dupla de tortura de que fui vítima me levou à pesquisa de um fenômeno
no mundo do trabalho batizado de bullying (tiranizar), na Inglaterra;mobbing
(molestar), nos Estados Unidos; harcèlement moral (assédio moral), na França;
e murahachibu (ostracismo social), no Japão.
Algumas vítimas se matam. Outras são tratadas com antidepressivos ou tranqüilizantes.
Muitas pedem demissão e renunciam a direitos de
indenização, dando a vitória ao bully, o tirano. E há as que resistem. A
primeira pessoa a denunciar a tirania nas relações de trabalho foi uma
jornalista inglesa, Andrea Adams. Ela escreveu dois documentários para a
BBC Rádio 4, de Londres, que provocaram uma enxurrada de cartas de
ouvintes. A inesperada repercussão a levou a publicar um livro, Bullying At
Work, em 1992. Até alguns dias antes de morrer, com câncer, em 1995, ela
fez campanha para tornar o psicoterrorismo no trabalho um delito como o assédio
sexual.
"Ir ao trabalho é como entrar na jaula de um animal imprevisível para
enfrentar outra semana de crucificação profissional", disse Adams em
seu último discurso, num sindicato, em maio de 1994. Um drama clandestino
sofrido por um mínimo de 12 milhões de europeus, segundo uma pesquisa
pioneira da Organização Internacional do Trabalho, em 1996, e pela média
de 2 milhões de americanos por ano, incluindo assaltos contra taxistas, na
estatística de 1998 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. No Japão,
uma experiência telefônica, a "bullying hot-line", atendeu a
1.700 consultas num só mês. Como o poder de um tirano se mantém pelo medo
que cala suas vítimas, impossível medir o fenômeno em escala mundial.
Há inúmeras formas de tiranizar um empregado. Adams as resumiu em alguns
exemplos: marcar tarefas com prazos impossíveis; passar alguém de uma área
de responsabilidade para funções triviais; tomar crédito por idéias de
outros; ignorar ou excluir um funcionário só se dirigindo a ele através
de terceiros; segurar informações; espalhar rumores maliciosos; criticar
com persistência; e subestimar esforços. O processo é lento. As agressões,
sutis. As reclamações serão interpretadas como choque de egos, atribuídas
a uma nova forma de administração, à reorganização, reengenharia, ou
rejeitadas. Não há lei que não a do mais forte. Uma psiquiatra francesa,
Marie-France Hirigoyen, escreveu o livro Le harcèlement moral: La violence
perverse au quotidien (O assédio moral: A violência perversa no
cotidiano).
Os cinco mil exemplares da primeira edição esgotaram-se rapidamente.
Outros 60 mil, em janeiro. O livro vai aparecer em português, editado pela
Bertrand Brasil, depois de traduzido para doze idiomas. A revista Le Nouvel
Observateur consagrou-lhe uma capa: "Esses colegas e patrões que o
deixam louco". Os colegas entram no título como cúmplices: temem pelo
emprego. Quem for solidário com uma vítima poderá se tornar a próxima.
Hirigoyen traça o perfil do tirano. É um "narcisista perverso",
que acha o próprio equilíbrio descarregando em outro a dor que não
consegue sentir e as contradições internas que se recusa a perceber. Um
sanguessuga: procura fora de si a substância para sua vida. Tem um senso
grandioso da própria importância. Vive absorvido em fantasias de sucesso
ilimitado e de poder.
Pensa ser especial e único. Precisa muito de admiração. Acha que tudo lhe
é devido. Inveja os outros. Comporta-se com arrogância. Explora todos nas
relações interpessoais. E posa de referência, de padrão do bem, do mal e
da verdade.
- As vítimas são impotentes? Nada podem fazer?? perguntei a Hirigoyen.
- Elas têm que aprender a se proteger, a dizer não? respondeu.
- Mas, como? Com o desemprego em alta??
- Há um momento em que a opção é a saúde mental ou o emprego. Tenho uma
paciente que se demitiu para preservar sua personalidade.
- A vítima fica só, sem a solidariedade dos colegas...
- Solidariedade não existe, é cada um por si.
Golpes mesquinhos
"Aqueles que podem, podem. Os que não podem, tiranizam", proclama
na Internet o Bully OnLine (www.successunlimited.co.uk
<http://www.successunlimited.co.uk>),
criado por Tim Field, autor de Bully in Sight (Tirano na Mira), guia que
ensina a prevenir, resistir e combater o assédio moral no trabalho. Ele
acrescenta atributos ao mais comum dos tiranos, os que praticam serial
bullying, a destruição em série de empregados. É vingativo, quando só,
mas inocente, diante de testemunhas.
Médico e monstro, como Jekyll & Hyde. Mente compulsiva. Torna-se
agressivo, se chamado à responsabilidade.
Só existe legislação para proteger as vítimas de assédio moral na Suécia,
na Alemanha, na Itália, na Austrália e nos Estados Unidos. A Organização
das Nações Unidas (ONU) anexou à Declaração dos Princípios
Fundamentais de Justiça uma nova e abrangente definição de vítima.
"Vítimas são as pessoas que, individual ou coletivamente, sofreram um
dano à sua integridade física ou mental, um sofrimento moral, uma perda
material, ou uma ofensa grave a seus direitos fundamentais, como conseqüência
de atos ou de omissões que
ainda não constituem violação da legislação penal nacional, mas que
representam violações de normas dos direitos do homem reconhecidas
internacionalmente".
As vítimas brasileiras da guerra de nervos no trabalho estão perdidas. Um
chefe pode abusar do poder impunemente. Ou o empregado se submete à lenta
destruição por golpes mesquinhos e covardes, que acabam acertando toda a
sua família, ou vai embora. "O silêncio e o vazio cercam aos poucos a
pessoa visada", diz Hirigoyen. "Às vezes, a solidão é tal que
vira rápido um drama". Mas ela pergunta à "sociedade cega diante
desta forma indireta de violência": - Não nos tornaremos cúmplices,
por indiferença?
Conhecimento de causa
Primeiro da turma de 1975 de Ciência da Computação na Universidade
Staffordshire, na Inglaterra, Tim Field especializou-se em assédio moral no
trabalho, na prática, ao ser forçado a sair de um emprego, em 1994. Hoje,
ele mantém um serviço de aconselhamento por telefone e na Internet,
escreve livros e dá consultas a empresas e sindicatos. Entre seus clientes
ingleses estão vários departamentos de Polícia, o Correio, o Ministério
da Defesa e algumas universidades.
Depois de responder a 3 mil telefonemas e receber 26 mil visitas no seu site
da Internet, Tim Field chegou aos conselhos básicos para quem quiser reagir
a um chefe tirano. Aqui, um resumo dos que se aplicariam às vítimas
brasileiras:
- Lembre-se de que um chefe tirano projeta em suas vítimas as próprias
fraquezas profissionais e morais Assim, não as introjete;
- Sentir vergonha, dificuldade, culpa e medo é uma reação normal, mas
imprópria se render ao tirano o controle e o silêncio de sua vítima;
- Não se pode enfrentar sozinho um chefe tirano. Procure ajuda. Consulte
o departamento médico de sua empresa;
- Aprenda o máximo que puder sobre assédio moral no trabalho;
- Supere toda a falsa percepção sobre assédio moral, como a de que se
trata apenas de uma forma dura de chefiar, ou de reorganização
empresarial;
- Anote tudo. Não é um único incidente que conta, mas a regularidade com
que acontece, o seu padrão e o conjunto;
- Guarde cópia de cartas, memorandos e e-mails;
- Faça um diário com as reclamações e críticas do chefe tirano. Se
puder obtê-las por escrito, tanto melhor. Se as tiver pedido, e não for
atendido, registre. A repetida recusa de justificar ou substanciar faltas
cobradas pode ser usada como prova de assédio;
- A tiranização no trabalho estressa. Se o médico a diagnosticar, que
inclua a causa às condições no local de trabalho;
- Reclame do assédio moral ao escalão superior. Mas, cuidado: em geral, o
tirano é que receberá o apoio de cima;
- Não se deixe levar pela armadilha da saúde mental: os sintomas e efeitos
do assédio moral são uma lesão psiquiátrica, não doença mental;
- Uma licença-médica deve ser registrada como acidente de trabalho, e a
sua causa, a opressão do chefe tirano, denunciada ao empregador;
- Se o chefe tirano fizer suas críticas em público, procure um advogado
para adverti-lo, por carta, de que ele é passível de processo por difamação
e calúnia;
- Considere demitir-se como uma decisão positiva, uma opção entre saúde
e emprego;
- Se forçado à demissão, denuncie a causa ao empregador, por escrito, e
oriente-se com um advogado antes de assinar qualquer documento;
- Considere tornar público o seu caso.
Guia de navegação
Os autores do livro Work Abuse: How to Recognize and Survive it (Abuso no
trabalho: Como reconhecer e sobreviver), Judith Wyatt e Chauncey Hare são
conhecidos em www2.netcom.com/~workfam1 <http://www2.netcom.com/~workfam1>
"A campanha contra o assédio no emprego", uma organização sem
fins
lucrativos nos Estados Unidos, fundada pelos autores do livro BullyProof
Yourself At Work (Proteja-se do Assédio no Emprego), tem um completo site
na Internet: www.bullybusters.org
<http://www.bullybusters.org>
Uma associação finlandesa antiassédio a crianças na escola passou a dar
conselhos também a adultos: www.kiusattujentuki.fi
<http://www.kiusattujentuki.fi>
Na Austrália temos o www.uow.edu.au/arts/sts/bmartin/dissent/
<http://www.uow.edu.au/arts/sts/bmartin/dissent/>
e na África do Sul: www.voiceclinic.co.za
<http://www.voiceclinic.co.za>.
(**) Moisés Rabinovici é jornalista |
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Veja também: O livros: Assédio
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