Escrever sobre
esse assunto (fruto de quatro anos de estudo) é ao mesmo tempo
nostálgico e doloroso, pois se relaciona com as raízes de todos
os males, o próprio ser Humano.
O romantismo,
que tem sua origem no século XVIII, surgiu sob o domínio muito
forte do Estado e da religião na vida do indivíduo, infelizmente
nossa existência e infortúnios seriam pautados não mais pelo
amor e sim pela confusão entre dor, amor e separação.
O ser humano,
atualmente, se tornou um ser ambíguo e lacônico, onde a idéia de
dor e o sofrimento (que são estados mentais) se misturam aos
ideais de liberdade e felicidade coletivos, ou seja, embora
amor, liberdade, sejam termos individuais, vem ganhando força um
inconsciente coletivo de amor e liberdade próprios da Idade
Média.
Tal pensamento
tem influenciado cada vez mais o comportamento humano, somos
medievais no trato com o relacionamento não sabemos trabalhar as
emoções, nos tornamos o ser que mais odiamos, pois não queremos
dividir a dor queremos escondê-la e sem perceber acabamos por
reproduzir nos outros as agressões sofridas.
O final do
Séc. XX e início do Século XXI podem ser caracterizados pelo
aumento de separações, o aumento da violência física e mental,
bem como a descaracterização da individualidade humana.
Os problemas
cotidianos, as mudanças constantes de paradigma, a agitação da
vida e as complexas relações de prazer, oriundas da evolução
tecnológica forçaram o ser humano a ser eminentemente
pragmático, onde a dor de toda e qualquer emoção deveria se
enterrada no mar profundo do nosso inconsciente.
O fato de
anestesiar a dor de uma má escolha feita sobre uma agressão
(seja física ou verbal), não implica em esquecimento do
sofrimento, o agredido jamais esquece a agressão sofrida.
Não é
romântico forçar a outra pessoa fazer escolhas sobre ameaças,
não é ser romântico falar em temas tristes e que envolvem dor,
não é ser romântico abusar de crianças, não é ser romântico
fazer sexo antes de se saber o que é sexo e suas conseqüências,
não é romântico tocar as partes íntimas de uma criança de treze
anos (mesmo superficialmente) no sentido de ter prazer com a
manipulação, não é romântico passar a noite bebendo para ter
coragem de fazer coisas que não conseguiria se fosse sóbrio, não
é romântico ser eminentemente pragmático e sem paciência, pois
quando cultivamos estes hábitos queremos em verdade esconder as
nossas frustrações. Enfim, o que conseguimos é reproduzir
(inconscientemente) no dia-dia, não o amor e sim as agressões
sofridas (sejam agressões passadas e presentes).
Infelizmente
nós não temos tudo que amamos e não amamos tudo que temos, pois
como vítimas de uma agressão só escutamos o ódio de sermos
manipulados e o fato de invejar o outro, em outros termos, a
relação de uma pessoa assediada moralmente é com a violência.
Tal pessoa é incapaz de dialogar, pois não possui uma “real”
auto-estima e sim uma auto-estima “deturpada” pela agressão
sofrida.
O Séc. XX e
início do Séc. XXI têm como ícone o aumento da separação, seja a
celebrada em templos, seja a feita informalmente. Fazendo uma
análise mais aprofundada sobre como ocorreram essas uniões e
porque elas se dissolveram, fica comprovado um quadro aterrador,
o assédio moral que a mulher sofre em seu cotidiano é muito
maior.
O assédio
moral dentro dos relacionamentos é algo que causa sérios
transtornos à personalidade e a mente do agredido.
Atualmente
assédio moral ganha ares de inconsciente coletivo, nos tornamos
irmãos da mesma doença, não questionamos mais, não conversamos
sobre o que realmente interessa, as sessões no psicólogo não
diferenciam das conversas no boteco, buscamos o prazer pelo
prazer, buscamos amor na insegurança, a chantagem emocional se
tornou lugar comum, a segurança financeira se transformou num
fim e sinônimo de amor, confundimos idade com sabedoria, somos a
imagem de agressões cotidianas, a individualidade está
relacionada ao sucesso profissional e aos símbolos que
ostentamos (carros do ano, casas na praia, beleza modelada pelo
cirurgião plástico e academias) nada mais .
A vida não é
trabalho, festas ou reuniões familiares, tais momentos são
pequenos fragmentos de uma realidade que reflete mais a nossa
ansiedade por felicidade.
Buscamos no
ficar, no momento, um átimo de alegria para anestesiar a dor de
ser uma pessoa agredida, não importa a pessoa que está a minha
frente, não há interesse se a relação vai ser durável, temos
justificativas para tudo, do momento da união até o momento da
separação.
Relacionamento
não é uma equação matemática, é fruto de muito dialogo (mesmo
que seja por telefone), ninguém deve agredir a outra pessoa
verbalmente, nenhuma pessoa deve cobrar da outra um
relacionamento de “TV”.
Não existe um
relacionamento baseado em ameaças verbais ou físicas, em
desinteresse, em no “ficar na sua”, em concessões em demasia,
toda e qualquer justificativa é em verdade um momento para se
fugir de um relacionamento, falta de amor não existe, o que há
de fato uma ausência de boa vontade.
Tem-se boa
vontade com um estranho ou com alguém desconhecido mas próximo
porque, nossa relação não é com o esforço e sim com o objetivo,
somos vencidos pela circunstância do momento, mesmo sabendo que
a realidade é totalmente diferente.
A relação
entre homem e mulher não é baseado no amor e sim na perda, não é
a distância que diminui um sentimento de uma pessoa pela outra e
sim o assédio moral coletivo de que todos devem ser como gado
ou que a dor da solidão, ante a felicidade alheia é ilusão.
Para melhor ilustrar o que é um
relacionamento pense em uma corrida de cem metros onde os
participantes são o atleta do século, rei Pelé, O recordista
dos cem metros rasos mundial em 2005,
Asafa Powell, o piloto campeão da fórmula 1,
Michael
Schumacher,
e uma simples criança, sendo que o vencedor terá o direito a
lutar com boxeador, Popó e depois se passar pega o Mike Tyson.
Nessa imaginária corrida ante as dificuldades, como todos são
bem experimentados e vividos todos vão correr e vão deixar o
mais ingênuo vencer a corrida, os espectadores assistem tudo com
o maior espanto e admiração, a vitória da criança era esperada e
sua derrota ante os pugilistas uma coisa certa, mas para a
surpresa de muitos a criança vence os dois boxeadores e fica com
um prêmio muito maior, o que causa uma certa frustração aos
participantes e inspira alguns espectadores a fazer a mesma
coisa.
Assim é um relacionamento, assim é amar, como uma criança, não
devemos temer, pois o amor verdadeiro a tudo supera, inclusive a
distância e o assédio moral coletivo que vem assombrando os
relacionamentos.
Termino este artigo transcrevendo um poema de dois poetas e
cantores brasileiros, Flávio Venturini e Renato Russo, “Mais uma
Vez”.
“Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem
Tem gente que está
do mesmo lado que você
mas deveria estar do
lado de lá
Tem gente que machuca
os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a
gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a
gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança
Nunca deixe que lhe digam
que não vale a pena
acreditar num sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém”
Que a letra dessa música inspire as pessoas a lutarem contra a
enorme vontade de ser igual aos outros, saiba que você é único e
também a pessoa mais importante.