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Depois de muitos anos de carreira eu cheguei a algumas
conclusões que me surpreenderam com relação à colegas de
trabalho. Não entendam meus colegas de trabalho e sim todos os
que trabalham em grupo em qualquer instituição, seja pública ou
privada. Trabalhei no setor privado, mas foi no setor público
que ratifiquei minhas conclusões.
A que mais me chamou a atenção e serve de alerta para os que
estão iniciando na senda do puxasaquismo, é que algum dia o
puxa-saco cairá e, quem irá derrubá-lo não será o chefe e sim os
melhores colegas de trabalho. Aqueles que não se cansam de
dizer, \estamos do seu lado para o que der e vier; você é bacana
e muito legal\.
Conhecido como bajulador, galanteador e sabe-tudo. O perfil
cultural é sofrível, para não dizer ridículo, tem muita
dificuldade para as tarefas que necessitam de habilidades
mínimas e básicas, mas apresenta-se a todos como PhD em todas as
áreas de conhecimento. É o próprio \cricri\, aquele que
atormenta o outro bichinho conhecido por \chato\. Tem perfil de
jornalista e trabalha na locução das \Rádios Pião\, aquelas
instaladas nos corredores, banheiros e durante as comemorações
dos funcionários. Está sempre de plantão no meio das fofocas,
não perde nenhuma notícia e nenhum detalhe. Participa sem ser
chamado de conversas sobre decisões, ouve escondido, como quem
não quer nada e imediatamente corre a procura da resposta em
primeira mão para o chefe. Jamais subestime ou menospreze a
capacidade de um puxa-saco infernizar a vida de um colega de
trabalho.
Entre o puxa-saco e os superiores, existe uma falsa relação de
amizade, aparentemente amigável, duradoura e chega até a causar
inveja nos seus colegas, que inocentemente confidenciam tudo a
ele com medo de perder essa tão importante amizade.
Depois de muitos anos descobri que o puxa-saco tem
características da serpente expulsa do paraíso nos tempos de
Adão e Eva, a considerar pela condenação de rastejar eternamente
aos pés do chefe e a procurar perscrutando a própria identidade
perdida.
O puxa-saco é como um tumor maligno, causa sofrimento e morte
prematura nas pessoas e é difícil de se exterminar. A cada dia
aparecem mais e mais, como uma praga maldita e pelo que tudo
indica e leva a crer, sobreviverá ao apocalipse e ao Almagedon.
Consegue-se acabar com colônias de ratos; cupins; baratas e
outras pragas nocivas à saúde, mas de nada adianta a
despuxasaconização, inútil tentar, eles sobrevivem a tudo. É
como ameba, não adianta polivalente. Acaba-se com um, tem dez
esperando para tomar o lugar do outro. No setor privado é
diferente, o puxa-saco tem vida curta, mesmo que seja filho do
patrão, porque ninguém tem rabo preso, agora no setor público
ele faz a festa. É conhecido também como \parasita infernalis\.
Engana-se ao pensar que o puxa-saco galgará posições de comando
ou chefia. A cabeça dele é muito pequena para responsabilidades
maiores, tomada em quase sua totalidade por tudo, menos pela
dedicação ao trabalho; ao aprendizado e ao aperfeiçoamento da
própria função, vive com dúvidas e disfarçadamente, às
escondidas, pergunta tudo depois assume a autoria e ainda fala
que não precisa de ninguém. Faz-nos crer que já nasceu sabendo.
E tem quem acredite. O puxa-saco só chegará a ser um chefe o dia
que a Instituição dele desaparecer e não tiver mais ninguém lá
dentro, ou todos enlouquecerem ao mesmo tempo, pelo inferno
causado por ele. O lema deles é: \Puxa-saco unido, jamais será
vencido\. Dizem que já sugeriram sindicalização.
Observadores do comportamento humano e relações no trabalho
descobriram nesses anos passados que o sofrimento causado pela
humilhação e injustiça cometido a funcionários e trabalhadores
honestos, competentes e inteligentes, tem como causa o conhecido
Assédio Moral. Meu primo, docente e interessado no tema, Dr.
Wadirretro Kahfagest foi a fundo e descobriu que em cada dez
casos de Assédio Moral, tem trinta puxa-sacos envolvidos como
causadores do constrangimento. São verdadeiras bactérias
patogênicas, víboras; serpentes peçonhentas, leucócitos em
ferimento doloroso em processo de infecção.
Teóricos e estudiosos do tema nos alertam para que sejamos
prudentes com esse tipo asqueroso que vive arquitetando
armadilhas para pegar ingênuos colegas no trabalho. O puxa-saco
não tem caráter; vive de sala em sala; se mete em tudo; sempre
perdido na selva do trabalho, capaz de descontrolar a própria
bússola; não vive a vida dele, gerencia a dos outros e quando se
dedica a algum projeto, com certeza, será para aprimorar os
métodos de bajulação.
Uma dica importante para descobrir o foco da infecção e se
providenciar a assepsia. Não é fácil se livrar deles, mas vale a
pena tentar. Também não é difícil identificar um puxa-saco no
ambiente de trabalho, mas como sempre surge do nada mais um e as
primeiras vítimas em potencial são os novatos na instituição, um
alerta. Detalhes que seguramente devem ser considerados. Procure
saber antes a localização do ninho das najas. Quando chegar ao
seu trabalho e alguém que você não conhece lhe cumprimentar com
gentilezas; beijinhos; elogiar sua roupa, de repente pedir
desculpas por te-lo confundido com alguém e lhe deixar falando
sozinho, é esse o perigoso, o puxa-saco feliz, está sempre de
plantão. Procure saber os apelidos dos colegas, aquele, que
jovem ou não, for identificado como \Raposa Velha\, caia fora.
Para identificar com certeza o foco das parasitas infernalis,
solte um boato que foi convidado a ser chefe ou vai jantar na
casa de qualquer superior imediato. Aquele que levar um
cafezinho para você e perguntar se quer com açúcar ou adoçante e
depois mexer com a colherinha, é esse o canalha.
Outra dica, você que é jovem então alguém no primeiro dia de
trabalho lhe pergunta, - quanto tempo falta para a sua
aposentadoria; tem casa própria ou paga aluguel? – Tem carro?
Qual é a marca; é casado? Se ele perguntar quanto você ganha, aí
então não tem antivírus que resista. Você está diante de um
puxa-saco em potencial, o invejoso, esse tipo é de arrasar. Faça
uma novena ou procure um exorcista, porque ele vai colar.
Também não é preciso sair desconfiando de todos e descarregar a
mágoa no cunhado, é tolice, aquele coitado que chega à sua casa
com a família nas horas de almoço; de dormir; na hora de sair
para um passeio ou no momento daquele esperado filme; no sábado
no exato momento que o entregador de pizza buzina; na hora de
tirar do forno os biscoitos contados da vovó. Ele é adulador por
natureza, ainda mais quando o cartão de crédito estourou e o
especial já foi para o espaço. Realmente ele mantém uma boa
relação de amizade e parentesco, ame seu cunhado. Não
descarregue nele as mágoas causadas pelo rotaviruspuxa-sacus de
seu trabalho.
Você que é um puxa-saco assumido, não se desespere, a vida é
boa; tudo pode mudar e voltar a ser aquele \colegão\, quem sabe
até um grande amigo. Deixe de ser pegajoso; não ponha o \bico\
onde não é chamado; não roube autoria de ninguém, tenha suas
próprias idéias e agradeça quando lhe passam informações no
trabalho. Cuidado com panelas, principalmente as de pressão,
longe delas; pelego só é útil em cavalo ou em burro; não
acredite em pistolões; elogie a beleza de sua mulher; sua
família que agüenta seu papo todos os dias; vale até mentir para
a sogra ao dizer que ela é maravilhosa, ela acredita, creia; mas
não transfira esse elogio para o seu chefe; tenha opinião
própria, mande embora o Grande Puxa-Saco que existe em você e
verá que tudo vai mudar na sua vida. A felicidade existe, não
estrague a dos outros.
Puxar o saco de patrão deve ser uma doença perfeitamente
tratável e com recuperação imediata. Siga alguns conselhos: -
Comece estimulando seu hemisfério esquerdo do cérebro. Esqueça
um pouco a calculadora e faça cálculos de cabeça; deixe os
colegas das outras seções em paz, dedique-se em arrumar suas
gavetas que devem estar uma verdadeira zona; não tenha mais
dúvidas em informática, dedique-se em aprender alguma linguagem
nova ou faça um curso de Word e Excel, que tenho certeza, você
não sabe nada. Quer aparecer para seu chefe? – Pare de falar
palavras soltas em Inglês querendo demonstrar que sabe e faça um
curso de conversação. Experimente trabalhar com as mãos, você
vai relaxar e esquecer que tem que rir daquelas piadas ridículas
do seu superior. Se tiver coragem, atualize seu extrato
bancário. Se depois de tudo sentir alguma recaída, e perceber
que não tem jeito mesmo, não se descontrole, leve uma caixinha
de bombons para seu chefe, mas indague antes se ele não é
diabético.
Para que você se sinta realmente bem e definitivamente deixe o
puxasaquismo do lado, exercite também seu hemisfério direito do
cérebro. Reserve um lugar tranqüilo, esforce-se para esquecer as
últimas fofocas, pratique meditação e yoga. Se tiver tendências
artísticas, pratique dança; faça ballet; pinte um quadro ou faça
até um cursinho de matelacê, macramé, mas faça mesmo. Uma boa
dica, pintura em tecido. Ouça uma boa música melodiosa; planeje
um programa cultural diferente; volte a ser criança e exercite o
bom humor; seja espontâneo e brincalhão, mas sem exageros do
contrário vem a recaída, que é pior. Se o chefe espirrar, não
diga \saúde\, se for tentado a se manifestar, então recomende um
antialérgico ou um médico, ou fique quieto, será melhor.
Nem tudo está perdido, não se desanime em algum lugar você
também tem um verdadeiro amigo, todos temos. De acordo com
Plutarco, moralista Grego, viveu entre os anos 50 a 120, na
cidade de Queronéia na Beócia, devemos considerar algumas
afirmações. O verdadeiro amigo usa de parresia, merece crédito
ao criticar e sem medo de punição. É aquele que nos fala a
verdade mesmo que nos incomode; critica nossas ações, faz-nos
reconhecer os erros e aponta nossos defeitos com naturalidade.
Há quem questione a parresia considerando que alguns indivíduos
sem poder, usam-na para alcançar o cume, na relação de baixo
para cima. De qualquer forma o verdadeiro amigo é um Parrésico e
pronto. Atente como é verdadeiro, só um amigo sincero tem a
capacidade de nos livrar de falsas ilusões e nos mostra o
reflexo de nós mesmos no espelho de nossa alma. Nos momentos
cruciais de sua vida será ele, com toda a certeza que ficará a
seu lado. No trabalho é a mesma coisa, nunca culpe ou acuse
precipitadamente o seu chefe sem antes conhecer os canalhas
puxadores de tapetes no qual você faz parte e quer sair. Não é
mesmo?
Se tiver mesmo que puxar o saco, esqueça o chefe, que seja de
seus colegas de trabalho, eles são os que aturam a sua chatice
no cotidiano, convive com você como se fosse sua segunda
família. É no trabalho que você passa a maior parte do tempo,
seu domicílio. Seja pelo menos um puxa-saco agradecido e feliz.
Agora meu infeliz amigo puxa-saco, se depois de tudo isso ainda
sentir vontade de puxar um tapete, então eu recomendo que entre
para alguma Igreja e comece a rezar, porque seus dias no
trabalho estão contados.
JLNotariano
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