|
O
que é assédio moral?
Wilson Correia
Introdução
“Eu não tenho ódio; eu
tenho
é memória” (Pedro Nava).
O
tema deste artigo refere-se à conceituação de assédio moral. Objetiva
participar do debate e alargar o interesse sobre o tema, além de contribuir
para a construção da memória sobre o problema em questão. A metodologia é a
da pesquisa conceitual, que busca investigar sob a perspectiva
teórico-compreensiva os conceitos que consubstanciam as representações
relativas a esse tema.
O
fenômeno relativo à “servidão forçada”, com tudo o que ela acarreta de
prejuízos ao trabalhador, não é algo novo. Contudo, em nossos dias, dada a
facilidade de difundir informações, conhecimentos e saberes, esse assunto
ganha maior divulgação, ainda que as pessoas necessitem de aprofundar no
entendimento acerca do que ele realmente significa.
Esse foi o caso de uma estudante universitária que, em meio a um debate
sobre ética, perguntou-me sobre o que seja assédio moral. O debate foi
ampliado e uma turma inteira se interessou pelo assunto, que é
multidisciplinar, interessa às diversas áreas de conhecimento e pede o
engajamento de todos em seu combate e prevenção.
É
pensando nisso que escrevo esse artigo, visando a participar da discussão
sobre o que seja o assédio moral.
Trabalho: isso, aquilo e nada disso
A
cultura ocidental apresenta três fontes principais: o judaísmo, a filosofia
grega e o cristianismo. Como o trabalho é concebido em cada uma delas?
No
âmbito do judaísmo temos o livro do gênesis, mais propriamente o capítulo 3,
em seu versículo 19, que apresenta o trabalho como castigo, pois, após a
desobediência originária, o gênero humano haveria de comer o pão conquistado
com o suor do próprio rosto (GÊNESIS, 3: 19).
A
filosofia grega manteve o quanto pôde uma visão negativa sobre o trabalho.
Em Platão, as pessoas são de três tipos, conforme tenham alma de ouro, de
prata ou de bronze, sendo essas terceiras as que deveriam se dedicar aos
trabalhos forçados para produzir a subsistência da cidade. Os de alma de
prata fariam a segurança da comunidade e os de alma de ouro seriam os
predestinados à conquista da sabedoria, reservada a quem desfruta o
privilégio do ócio e não têm de se preocupar com o negócio (PLATÃO, 1987).
Já Aristóteles entende que o trabalho, preponderantemente reservado ao
escravo, tem na escravidão a sua força principal, uma vez que o escravo é
subordinado à ordem dos instrumentos da ação, inserido no ordenamento
natural das coisas (ARISTÓTELES, 2002). Por esses motivos, Platão valoriza a
alma, em prejuízo de tudo o que o corpo é e pode produzir e Aristóteles
circunscreve a escravidão no âmbito das leis naturais.
Por
fim, o cristianismo católico, à medida que prega o desprendimento deste
mundo terreno em vista de uma vida bem-aventurada no céu, termina por
colocar em desvantagem as ações produtivas, desvalorizando o trabalho. Nessa
perspectiva, “Não há evidências, nesse período, de que existisse exaltação
do trabalho. Não merecendo uma preocupação especial na estrutura social e
econômica daquela época, ele absorvia apenas uma pequena parcela da atenção
da classe dominante” (CARMO, 1992, p. 22). Temos assim, até o final da Idade
Média, uma visão predominantemente desfavorável ao ato de trabalhar,
identificado com sofrimento, com as visões filosóficas ou religiosas dando
sustentação a essa concepção.
No
início da Idade Moderna essa visão sobre o trabalho como sinônimo de
sofrimento vai se alterando, predominantemente após a Revolução Religiosa
alemã, já em sintonia com a classe burguesa, a qual fará, ainda, a Revolução
Econômica (Revolução Industrial na Inglaterra), a Revolução Política
(Revolução Francesa) e a Revolução Epistemológica (Revolução Copernicana
consagrada durante o Iluminismo, na Alemanha).
A
Revolução Religiosa foi empreendida por Martinho Lutero, no século XVI, o
qual difundiu a idéia de que o trabalho e a produção material concorrem para
o merecimento das bênçãos e graças divinas, razão pela qual imprime um
sentido positivo ao trabalho. Segundo Lutero, o trabalho reforça a fé.
Essa perspectiva foi estudada por Max Weber em seu livro A ética
protestante e o espírito do capitalismo (WEBER, 2003). Segundo esse novo
norteamento, a riqueza produzida pelo trabalho não é condenada por Deus,
mas, ao contrário, evidencia a existência dos eleitos (daí o termo elite) ou
predestinados ao êxito material como os merecedores das graças e da salvação
dadas por Deus. Nesse contexto, o ócio é condenado, juntamente com as
tentações da carne e o desperdício de tempo.
Com
o capitalismo consolidado, trabalhar, mas, sobretudo, valer-se da riqueza
produzida por meio do trabalho executado por outrem, passa a ser uma
verdadeira obsessão. Aí, o trabalho é seguidamente identificado com a idéia
de progresso, o qual, empreendido pelos seres humanos racionais, autônomos e
emancipados, haveria de conduzir a humanidade à paz perpétua e à felicidade
universal. Na linha desse pensamento, afirma o Prêmio Nobel de Economia de
1973, Leontief:
“Antes de sua expulsão
do Paraíso, Adão e Eva desfrutavam, sem trabalhar, um nível de vida elevado.
Depois de sua expulsão, tiveram de viver miseravelmente, trabalhando de
manhã até a noite. A história do progresso técnico dos dois últimos séculos
[XVIII-XIX, XIX-XX] é a de um esforço tenaz para voltar a encontrar o
caminho do Paraíso” (LEONTIEF apud CARMO, 1992, p. 36).
No
entanto, em lugar do Paraíso, o que também os séculos XVIII, XIX e XX, tanto
quanto os dias atuais, mostram é o homem e a mulher exercendo a exploração e
a espoliação sobre outro homem e outra mulher (MARX & ENGELS, 1988).
Assim, o trabalho não é só negatividade, nem tão-só um bem, mas tanto pode
humanizar como humilhar. É nesse contexto de expropriação do trabalho
alheio, de pobreza e miséria para multidões e de riqueza para as elites, que
se situa o problema do assédio moral.
Trabalho no capitalismo: o competitivismo predatório e assédio moral
Sabemos que os valores basilares do capitalismo compreendem o lucro, a
acumulação, o consumismo e a competitividade acirrada em todas as esferas da
vida pessoal, profissional e social. Guiados por esses valores, os
proprietários dos meios de produção almejam sempre mais a obtenção de
lucros, pois ele é a alma da acumulação. Os proprietários da força
produtiva, os trabalhadores, lutam cada vez mais por melhores salários, que
são a condição de possibilidade de inserção no mundo do consumo (CANIATO,
2000).
Em
uma palavra, o espírito de competitivismo predatório toma conta de todos.
Ninguém escapa dessa verdadeira luta de todos contra todos, possibilitando,
entre outras coisas, a existência do assédio moral. Mas, o que é assédio
moral?
Segundo o Sítio Assédio Moral no Trabalho,
“... exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e
constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e
no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas
autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações
desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou
mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vitima com o ambiente de
trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego.”
Nesse contexto, as condições de trabalho vão sendo degradadas e o
trabalhador percebe-se deslocado, alquebrado, desmotivado, inútil e isolado
com relação ao grupo de que faz parte no ambiente profissional. Tudo isso
gera no trabalhador o sentimento de estar passando por humilhação e o
entendimento de estar sendo
“... ofendido/a,
menosprezado/a, rebaixado/a, inferiorizado/a, submetido/a, vexado/a,
constrangido/a e ultrajado/a pelo outro/a. É sentir-se um ninguém, sem
valor, inútil. Magoado/a, revoltado/a, perturbado/a, mortificado/a,
traído/a, envergonhado/a, indignado/a e com raiva. A humilhação causa dor,
tristeza e sofrimento” (SÍTIO ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO, 2006. s./p.).
Nessas condições, não há integridade física, mental, social e espiritual que
resista às mazelas que uma tal experiência acarreta para quem se vê na
condição de vítima do assédio moral.
Conclusão
Se
não vivêssemos sob o sistema capitalista selvagem, que a tudo explora para
transformar todas as coisas em mercadorias, as quais, vendidas, possibilitam
o lucro e a acumulação, e se esse sistema não fosse alimentado pelo
consumismo e pela competitividade predatória, talvez tivéssemos melhores
condições de trabalho. Em melhores condições de trabalho, talvez pudéssemos
prevenir com mais eficácia as ocorrências de assédio moral.
Isso, contudo, é apenas a expressão de um desejo. Sabemos que um modo de
produção material da vida que prime pelo respeito à dignidade humana haveria
de lastrear-se na cooperação, na solidariedade, na partilha e na satisfação
de necessidades humanas reais. Esses valores não se realizariam sem uma
noção mais realista de nossas diferenças e igualdades, ritmos e capacidades,
habilidades e aptidões. Daí o fato de um modelo de produção material da vida
assim entendido constituir-se em um verdadeiro desafio para todos nós.
Enquanto o enfrentamento desse desafio não é empreendido no sentido da
superação das atuais condições de trabalho, a função de todos quantos
deparam com as ocorrências de assédio moral, até por uma questão de ética
profissional, é fazer o possível para minorar e banir seus prejuízos.
Calar-se, em casos dessa natureza, redunda em omissão. Omitir-se pode ser
uma forma de ficar indiferente a esse fenômeno. Indiferença, quer queiramos,
ou não, é a forma mais insensível de se estar morto de pé, sem a intensidade
da vida, o nosso legítimo patrimônio.
Referências
bibliográficas
ARISTÓTELES. A
Política. Trad. T. Guimarães. São Paulo: Martin Claret, 2002.
GÊNESIS. In:
BÍBLIA.
Português. A bíblia sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida.
Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.
MARX, K. & ENGELS, F.
Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 1988.
CANIATO, A. M. P.
Da violência no ethos cultural autoritário da contemporaneidade e do
sofrimento psicossocial. Psi Revista de Psicologia Social e
Institucional. Londrina. N. 2, v. 2, dez. 2000, p. 197-215.
CARMO, P. S. do. A
ideologia do trabalho. São Paulo: Moderna, 1992.
PLATÃO. A República.
Lisboa: FCG, 1987.
SÍTIO ASSÉDIO MORAL NO
TRABALHO.
http://www.assediomoral.org/site/assedi o/AMconceito.php. Acesso em:
10.05.2006.
WEBER, M.
A ética protestante e o espírito do
capitalismo. São Paulo: Livraria Pioneira Editora. 2003.
Wilson Correia é doutorando em Educação no PPGE/FAE/UNICAMP e
membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Filosofia da Educação
PAIDÉIA, na área de História, Filosofia e Educação. Linha de
Pesquisa em Ética, Política e Educação, onde desenvolve o projeto de
pesquisa Ensino de filosofia: o problema do endereçamento
curricular de ética nos PCN. É autor, dentre outros, do livro
Saber Ensinar. São Paulo: EPU, 2006.
|