spacer

ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 09 de outubro de 2008 23:25:20                                               

 
  Principal
 Cultura
 Crônicas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
 
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 Institucional
 
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 
   Blogs
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Econotas
 Humor
 Memória Sindical
 Mirim
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Esportes
 Agenda
Leia na Revista Partes
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SÓCIO AMBIENTAL
Auto-engano
 Danilo Pretti Di Giorgi   
publicado em 06/10/2008
Os estudiosos da mente humana já nos alertaram muitas vezes para a perigosa armadilha do auto-engano, que ocorre em maior ou menor grau com todos nós. Da profunda sabedoria dos ditos populares temos "o pior cego é o que não quer ver". Nas poesias de Renato Russo é possível garimpar que "mentir para si mesmo é sempre a pior mentira".
 
Em alguns casos, as raízes do auto-engano estão tão ardilmente escondidas dentro dos nossos infinitos labirintos interiores que se tornam quase imperceptíveis e muito difíceis de serem trazidas à luz. Em outros o problema é escancarado, ao menos para quem vê de fora. O exemplo mais clássico é o do cônjuge traído que é o "único que não sabe" (finge não saber) da infidelidade de que é vítima, apesar das evidências.
 
Com a questão ambiental, a sociedade como um todo parece estar sendo vítima de um surto generalizado de auto-engano. Um bom exemplo é o conteúdo do caderno 'Mais!', editado pela Folha de São Paulo e publicado no dia 21 de setembro. A primeira página, bonita como de costume, traz, em letras grandes: "O Mundo em 2050". O jornal convidou sete especialistas para "projetar o cenário geopolítico do planeta" no futuro, sob o ponto de vista econômico. Os textos, assinados por acadêmicos das maiores universidades brasileiras, fazem previsões de como estará o mundo daqui a 42 anos e foram divididos em sessões com informações paralelas referentes aos principais grupos geopolíticos.
 
Comecei a ler o suplemento esperando encontrar ali muitas referências à questão das mudanças climáticas, talvez até mesmo páginas inteiras dedicadas ao assunto. Esperava ainda que o tema fosse tratado com profundidade, dominando mesmo o foco dos artigos, uma vez que me parece ser impossível separar a questão ecológica da questão econômica. O futuro da economia dos países é absolutamente dependente da forma como vamos lidar com as limitações impostas pela questão climática.
 
Terminei a leitura surpreso com o fato de não ter encontrado virtualmente nada ligado à questão do aquecimento global. Referências rasas ao tema em apenas um artigo, e ainda assim de passagem, limitadas aos efeitos da redução do acesso à água na África. Nada sobre seus efeitos no resto do mundo.
 
Como explicar tal fato a não ser pela teoria do auto-engano? Que leitura pode ser feita a não ser a de que estamos evitando encarar o problema, apesar de que, para onde quer que olhemos, vemos sua cara feia? Não esperava necessariamente ler nos textos do suplemento previsões catastróficas, mas é inaceitável que a questão climática não tenha sido sequer citada com a seriedade que merece, dada sua magnitude e sua potencial influência no futuro das economias. Qualquer estudo sério nesse sentido precisa considerar as possibilidades de alterações na agricultura, aprofundamento do drama da fome, crescimento nas migrações, guerras e catástrofes naturais que o aquecimento global pode causar.
 
Afinal de contas, 2050 é exatamente a data definida em reunião recente do G8 para reduzir as emissões de CO2 em 50% (sabemos o quanto este tipo de declaração conjunta dos países mais poderosos tem de retórica vazia, mas, enfim, nem mesmo eles foram tão longe a ponto de ignorar a questão). A data simbólica também apareceu muitas vezes nos ultimamente tão esquecidos textos do IPCC (o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU), que, no ano passado, geraram muita polêmica com suas previsões catastróficas para o futuro em caso de manutenção dos níveis atuais de emissão de poluentes.
 
Seria aceitável que os textos contestassem os estudos que indicam a necessidade de mudança radical nos rumos da economia. Entenderíamos que os acadêmicos afirmassem acreditar no surgimento, nas próximas décadas, de tecnologias hoje inimagináveis para eliminar o gás carbônico da atmosfera, que questionassem os cientistas e seus números, reduzindo assim o peso da questão climática para o futuro da economia. Que fossem até mesmo excessivamente pessimistas, aceitando que os países não farão muita coisa. Tudo isso seria mais fácil de entender. Mas o maior jornal do país, ao se propor a realizar um exercício de futurologia para o estado das sociedades em 2050, simplesmente ignorar a questão das mudanças climáticas é um triste indicativo da nossa dificuldade em aceitar a realidade que está aí para quem quiser ver: já passou da hora de partirmos com firmeza em busca de caminhos alternativos e deixarmos de concentrar esforços em atividades comprovadamente nocivas ao futuro da humanidade, como extração de petróleo em alto-mar e construção de usinas hidrelétricas que vão afetar o curso dos últimos grandes rios brasileiros ainda intactos.
 

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
 

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.

E-mail: digiorgi@gmail.com

 

 

 
  

spacer
::sobre o autor::

 Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

 
::uma foto::


 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outras artigos:

A floresta em Brasília
Por
Danilo Pretti Di Giorgi
publicado em 28/08/2007

Os limites do crescimento econômico
Danilo Pretti Di Giorgi

publicado em 27/05/2005

Menos reclamações e mais soluções
Por Danilo Pretti Di Giorgi

publicado em 06/07/2006

Meio ambiente e marketing empresarial
Por Danilo Pretti Di Giorgi
publicado em 02/12/2006}

Meio ambiente e marketing empresarial
Por Danilo Pretti Di Giorgi
publicado em 02/12/2006}

O caminho é outro
publicado em 30/05/2007

Mundo de Valentina
publicado em 21/07/2007

Trincheiras
publicado em 06/08/2007

 

 

 

 

 

 

Normas para publicar artigosRevista Virtual Partes

::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2008
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer