comportamentos

Em tempos de pós-verdade

Em tempos de pós-verdade Gilda E. Kluppel Eleita, ano passado, a “Palavra do Ano” pelo Dicionário Oxford, pós-verdade converte-se numa palavra síntese para expressar, segundo o dicionário inglês, que “apelos à emoção e à crença pessoal” possuem maior relevância para formar opiniões do que fatos objetivos. Esse termo ainda não consta em dicionários da língua portuguesa, contudo se torna frequente o uso em muitas publicações. Uma expressão que soa de modo menos rude para a velha e conhecida mentira, cantada por Erasmo Carlos. Muitos devem se lembrar da música “Pega na Mentira”, agora é a vez de “pegar na pós-verdade”. A verdade não tem mais significância? Em inúmeros casos parece que não. A verdade fragmentada e colocada de lado,...
Continue a Leitura »
Colunistas

Enquanto calam a inocência

Enquanto calam a inocência Gilda E. Kluppel Não que seja indiscreta, mas não pude deixar de ouvir, até porque a mulher falava em tom alto, tecendo elogios às duas crianças, que aguardavam a mãe do lado de fora do vestiário de uma loja. Ela dizia para as crianças o quanto eram parecidas com as fotos de seus netos, os quais não via há muito tempo por residirem em outro país. A mãe, que experimentava peças de roupas no vestiário, sai rapidamente com um olhar de censura àquela senhora. Em meio ao desespero, retira-se da loja deixando inúmeras peças de roupas no provador. Crianças não devem falar com estranhos. Entretanto, caso a mulher realmente sensibilizou-se com a semelhança entre as...
Continue a Leitura »
Cultura

Avenida Paulista

Avenida Paulista Gilda E. Kluppel Soberana reina no alto da cidade com entardecer inigualável composto de reflexos e cores de tom cinza azulado. Uma estação de brigadeiro vestida de verde aguarda os visitantes muitos trabalhadores apressados alguns robotizados e turistas deslumbrados. Poesia existe em seus contornos e entornos ou no espaço reservado a casa chamada das Rosas que insiste em se impor diante de edifícios espelhados cúpulas arredondadas e diferentes traçados. Em plataformas azuis pousam pássaros engravatados condutores de muitos destinos. Num grande vão livre obras de arte ornamentam seu caminho desapercebido por aqueles que caminham sem arte. Numa tímida entrada o jardim persiste entre jequitibás e sapucaias ainda cantam rolinhas e sabiás. Na nobre esquina circulam célebres e...
Continue a Leitura »
Crônicas

O colecionador de gafes

Gilda E. Kluppel Quem nunca cometeu um deslize ao fazer um comentário impertinente? Depois vêm o embaraço e aquela sensação de mal-estar. Estamos, também, sujeitos às gafes do corretor ortográfico do WattsApp, sempre apressado em antecipar as palavras, colocando termos com sentido completamente diferente do que desejamos. Contudo, existem pessoas com maior predisposição em cometê-las, talvez seja o caso dos mais afoitos ao falar, quando não observam atentamente o outro ou a situação. Pior ainda, sequer perceber a gafe praticada. E nisto ele era pródigo. Desde o tempo da escola, sempre agia de modo apressado, respondendo as questões das provas rapidamente, para se livrar do “incômodo”. Consequentemente apareciam algumas frases estranhas, tais como: “A Terra é um dos mundos...
Continue a Leitura »
Cultura

Ceia de Natal

Ceia de Natal Gilda E. Kluppel A mesa está posta toalha e guardanapos em tons vermelhos para saudar aquele… senhor das barbas brancas ao invés de reis magos somente os convidados. Para seguir outra estrela distante de Belém e que conduz aos excessos ao invés do perfume de mirra o cheiro da comida. Ele, de roupa pesada torturado pelo calor de dezembro largo cinturão preto afrouxado para a ceia os presentes no grande saco as tantas quinquilharias para alegrar uma noite e talvez mais algumas horas de fervoroso consumo ao invés de Feliz Natal agora se diz apenas Boas Festas. Maria e José do lado de fora espiam pela janela procurando por Jesus querem saber a cruz ainda pregada...
Continue a Leitura »
Colunistas

O Doutor Mágico

O Doutor Mágico Gilda E. Kluppel Ele não se conforma ao ver brinquedos descartados, por causa de um defeito ou até por saírem da moda. E tudo começou quando observou um vizinho despejando no lixo uma série de brinquedos, que estavam estorvando a casa. Penalizado com a situação, pediu para ficar com todos. Assim, junta e conserta os brinquedos que as crianças não desejam mais. Alguns consideram um passatempo inusitado, em que, muitas vezes, a paciência é colocada à prova. Não é tarefa fácil, recuperar brinquedos com defeitos ou faltando peças. Desenvolveu habilidade para restaurar objetos, usa a criatividade, com pedaços de garrafas de plástico consegue formatar as peças que faltam, entre outras técnicas que desenvolveu. Logo, adquiriu das...
Continue a Leitura »
Crônicas

O chato de galocha

O chato de galocha Gilda E. Kluppel A voz estridente, em tom alto, anuncia: chegou o chato. Sempre invadindo os ouvidos alheios com palavras que ninguém deseja escutar. Quem não conheceu algumas dezenas de chatos e um, em especial, que de tão chato recebeu o reforço de chato de galocha? Apesar da galocha não ser mais usada, esses calçados de borracha, colocados por cima dos sapatos, para caminhar na chuva, os chatos permanecem e se multiplicam. A expressão francesa chatô du galoche, popularizou-se, afinal, alguém que entra na casa do outro, sem tirar a galocha, molhando o piso todo, merece uma complementação ao termo chato. Entretanto, como se define uma pessoa chata? O Tratado Geral dos Chatos, de Guilherme...
Continue a Leitura »
Crônicas

Em tempos de incertezas…

Em tempos de incertezas… Gilda E. Kluppel Toda a vez que ela passa, por aquela esquina, lá está o homem. Ele chega a cumprimentá-la, desejando um bom-dia, mas os comentários não deixam dúvidas de suas ações. O homem é um ladrão. Os novos tempos estão tão estranhos que as pessoas acostumaram a conviver com algo que, há pouco tempo, poderia ser considerado uma atitude impensável: cumprimentar um ladrão. Além de precisar cumprimentar o ladrão, perguntava-se: “o que está acontecendo”? Ela não conseguia mais, como fazia naturalmente, conversar sobre política na universidade, não existe o diálogo entre pensamentos divergentes. Apenas o ódio. O ódio não abre brechas, bloqueia e julga o outro pela força do sentimento. Logo, troca ideias apenas...
Continue a Leitura »
Crônicas

Empoderamento, a palavra da hora

Empoderamento, a palavra da hora Gilda E. Kluppel Existem palavras que vêm à tona, seja por um motivo ou outro. Ultimamente ouvimos, com muita insistência, a palavra empoderamento. É uma apropriação do termo inglês emporwement, já consta em alguns dicionários em português, como o Dicionário Priberam, com a definição: “Ato ou efeito de dar ou adquirir poder ou mais poder”. Empoderamento é o ato de “empoderar”, realmente um verbo estranho para conjugar. Quando uma palavra é mencionada, demasiadas vezes, gera uma desconfiança pela expressão. Escutamos empoderamento da internet, empoderamento dos cabelos, empoderamento através da moda e tantos mais. Empregada em várias áreas e em qualquer ocasião, sempre aceitando novas possibilidades. Algumas palavras parecem que perdem a força, com o...
Continue a Leitura »
Crônicas

A banca de jornal

Gilda E. Kluppel Ele, dono de uma banca de jornal, no centro da cidade, costuma analisar as pessoas pelos jornais e revistas que compram. Sempre gostou de leitura, herdou do pai a banca de jornal, instalada em um ponto estratégico da cidade. Precisou diversificar as vendas, conforme a necessidade do mercado, ampliou a variedade de produtos, de refrigerantes até guarda-chuvas, transformando a banca em uma loja de conveniência. Culpa a internet pela diminuição da venda de jornais e revistas, agora os leitores apressados necessitam apenas de informações atualizadas e sintéticas. Mantêm expostas, num quadro de vidro, as capas de revistas antigas “O Cruzeiro”, “Manchete” e “Grande Hotel”. Aprendeu a se interessar por leitura ao frequentar, quando criança, a banca...
Continue a Leitura »
Crônicas

Na hora do cafezinho

Gilda E. Kluppel Ela considerava normal uma piadinha aqui ou uma brincadeira ali, até então percebidas como inofensivas, sobre as mulheres. Que mal poderia existir em algo dito com o objetivo de provocar risos? No ambiente de trabalho, durante as confraternizações e principalmente na hora do cafezinho, evidenciava-se esse comportamento. Não apenas por parte de alguns homens, mulheres também reproduziam os comentários, que maculam a dignidade feminina, sem sequer notarem. Muitas vezes, críticas maldosas a respeito de outras colegas de trabalho, não tão próximas do grupo. Existia um mal-estar, afinal, caso não estivesse presente, ela poderia ser o alvo seguinte. Em certas ocasiões, constrangia-se com as piadas mais apimentadas sobre as mulheres, ria mesmo assim, um sorriso amarelo, para...
Continue a Leitura »
Cultura

Clarice e os seus mistérios

Gilda E. Kluppel                                                                                                                Seus mistérios… Contidos em personagens O sublime eu de Clarice Este eu que se tornou universal Quando penetrou nas entranhas da alma. Complexa e instigante Do ovo e a galinha Espantosa lucidez De saber que não poderia alterar a realidade Apenas conversar consigo mesma Lembrando que mais nos conhecemos Quando não tememos a solidão. A resposta do mistério entregou aos outros E o outro dos outros era o eu de Clarice Na busca da revelação desse mistério Aceitamos mais facilmente nossa condição de falíveis Sem acatar fórmulas ditas como certas de vida. Soube se libertar e viajar para as profundezas do íntimo, Onde poucos ousaram ir E de lá nos trazer alívio para nossas doses...
Continue a Leitura »
Gilda E. Kluppel

Desejo de Tolo

Desejo de Tolo Gilda E. Kluppel Tolos ambicionam o poder, e aos inocentes restam as lágrimas, nem em seus piores pesadelos podem imaginar, as competições repugnantes em palavras imundas. Clausuram sentimentos encerram as amizades, iniciam as parcerias, unem-se aos assemelhados, ocupam os espaços, demarcam territórios e consolidam acordos para abrigar os indesejáveis. Enfileiram as pessoas, como cartas de um baralho sobre a mesa, para tecer julgamentos espúrios, descartam os inconvenientes que podem ser recolhidos numa próxima rodada. Caem as máscaras, na face a madeira bruta, sem verniz para disfarçar. Espectros se levantam, sombras predominam, desonram os honestos e a virtude é humilhada. Sepultam ideais, revestem-se de autoridade e mudam atitudes. Invertem a moral, espalham sofrimentos e se regozijam na...
Continue a Leitura »
Colunistas

Conectados

Conectados Gilda E. Kluppel   Talvez esteja muito distante do mundo conectado, mas salta aos olhos a ligação, até mesmo afetiva, dos jovens com seus smartphones. Quem perguntar quantas mensagens de texto eles são capazes de enviar, em um dia, pode também se surpreender: mais de cem! Isto acontece durante o período diurno, noturno e até de madrugada. A troca de mensagens, que não escolhe hora e ocasião, penetra inapropriadamente na escola, durante as aulas. Alguns alunos não resistem à tentação de conferir as novidades recebidas. Os aparelhos são fáceis de camuflar e o alerta vibratório passa desapercebido. A digitação do texto acontece embaixo das carteiras, junto com canetas em penais, em bolsos de casacos, atrás de um livro,...
Continue a Leitura »
Crônicas

O sofá rasgado

Gilda E. Kluppel Eles não gostam mais de receber visitas. O sofá da sala está rasgado e não querem que os outros percebam. A filha mais nova causou o rasgo, havia deitado no móvel com uma sandália de fivela. A situação acarreta uma grande angústia, costumam fazer inúmeras críticas, quando visitam à casa de amigos, sempre rigorosos em avaliar a residência dos outros. Portanto, julgam que também serão alvo de comentários desfavoráveis. Devido às contas atrasadas, o sofá não pode passar por uma reforma. Contudo, quando se torna inevitável a presença de alguém, uma almofada, colocada estrategicamente, esconde o rasgo. Entretanto, eles sentem-se constrangidos, basta qualquer movimento brusco para escancarar a suposta vergonha. Assim aconteceu quando a menina, feliz...
Continue a Leitura »
Crônicas

Panelinha vazia

Gilda E. Kluppel As panelinhas, na linguagem popular, representam grupos informais fechados, aqueles que se isolam dos demais. Não deixam um mínimo espaço para quem não pertence à turma, permitindo somente a entrada de pessoas escolhidas, segundo julgamentos pessoais e duvidosos. Faz parte da natureza humana reunir-se em grupos, desde o nosso tempo de escola buscamos por pessoas com mais afinidades. Entretanto, essa postura, no ambiente de trabalho, envereda para um caminho tortuoso, caso as pessoas insistam em trocar ideias e informações apenas com os integrantes de suas panelinhas. Cercadas de segredos e estratégias, prevalecem os olhares suspeitos e o silêncio quando alguém “estranho” se aproxima do território dominado, acarretando mal-estar. Atitude habitual entre os adolescentes, que precisam de...
Continue a Leitura »
Cultura

As Marias

As Marias Gilda E. Kluppel   Ela, uma Maria chamada de dom e de magia do qual todas as mulheres têm algo talvez, ligação com poesia. Resistentes são as flores de nome Maria das “três-marias” que se multiplicam vigorosamente em galhos de arbustos simples e belas também em florzinha chamada de “maria-sem-vergonha” uma maria vulgar nasce em qualquer lugar. Até os homens lhe emprestam o nome Antônio Maria, João Maria ou José Maria quem sabe mais força teriam ao usar o nome de Maria. Simplesmente Maria apenas nome e sobrenome Maria Nascimento quanta redundância. Nome composto por Maria Maria Glória ou Glória Maria Maria com ou sem glória são sempre inesquecíveis Marias. Indeterminadas em “Maria vai com as outras”...
Continue a Leitura »
Crônicas

Quinze minutos de fama

Ao notar que o culto à celebridade é grande, nutre a certeza de que basta apenas a aparência, dispensa desenvolver um talento ou uma habilidade. Logo, poderia surgir uma nova oportunidade a qualquer momento. Para tanto, monta estratégias, forjando imagens e situações, tais como namorar um jogador de futebol ou um ator famoso, discutir com alguém que possua alguma notoriedade também pode acarretar uma nota, em uma revista ou um blog de fofocas....
Continue a Leitura »
Gilda E. Kluppel

Gatos Pardos

Gatos Pardos Gilda E. Kluppel Ao relento de um céu enluarado em altas horas da madrugada gatos pardos andam pelo telhado. No telhado ouço miados e múrmuros crias e penugens admiradoras da noite olhos astutos acostumados com o escuro. O escuro que atemoriza e assusta vago por muitos pensamentos numa noite comprida e injusta. Injusta por lembrança não vencida pelo tempo olhos ainda abertos denunciam preocupações com os próximos momentos. E neste momento os gatos continuam no telhado entre pulos graciosos e precisos em meus pensamentos permaneço acuado. Acuados e enfeitiçados felinamente pela lua apreciam a noite tal um afago não temem brincar pela rua. Pela rua anda sozinho esse misterioso e indecifrável gato segue por qualquer caminho. Em...
Continue a Leitura »