Gilda E. Kluppel

Gatos Pardos

Gatos Pardos Gilda E. Kluppel Ao relento de um céu enluarado em altas horas da madrugada gatos pardos andam pelo telhado. No telhado ouço miados e múrmuros crias e penugens admiradoras da noite olhos astutos acostumados com o escuro. O escuro que atemoriza e assusta vago por muitos pensamentos numa noite comprida e injusta. Injusta por lembrança não vencida pelo tempo olhos ainda abertos denunciam preocupações com os próximos momentos. E neste momento os gatos continuam no telhado entre pulos graciosos e precisos em meus pensamentos permaneço acuado. Acuados e enfeitiçados felinamente pela lua apreciam a noite tal um afago não temem brincar pela rua. Pela rua anda sozinho esse misterioso e indecifrável gato segue por qualquer caminho. Em...
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Crônicas

Presente de Natal

Ela e a Nina se conheceram em um Natal, há oito anos, num daqueles casos de simpatia mútua. No início, ela chegou a estranhar os momentos de silêncio da amiga Nina, gostaria de alguém que falasse mais. Nina estava sempre sorrindo, um sorriso enigmático que ela, às vezes, pensava que a amiga não estava se importando com a sua conversa. Mas, logo se tornaram íntimas, sabiam o que uma queria da outra apenas pelo olhar. Não se desgrudavam, o pai dizia que elas eram como unha e carne....
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Crônicas

A rainha soberba

Quanto mais se nutre de confiança e arrogância, supõe não necessitar de novos conhecimentos, guia-se por seus dogmas e costuma repetir um receituário de soluções para a resolução de diversas situações. Aos olhos dos outros se torna ridícula, mas a rainha encontra-se tão envaidecida com a posição de centro do universo que não percebe a realidade. Enfim, essa rainha esgota a paciência de qualquer morta...
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Crônicas

Convivendo com o WhatsApp

Não se importava em adquirir um aparelho mais moderno, ao imaginar que essa tecnologia se torna importante apenas para os policiais, médicos e bombeiros. Entretanto, não esperava que brevemente ganharia de sua filha um smartphone novinho, de última geração, já que o seu celular, de tão velho, não funciona mais. A filha baixou o aplicativo e explicou o que era o tal de “zap aps” ou “aps zap” que ouvia constantemente. Agora, aprendeu que se fala WhatsApp. Começou a apreciar, leu até o manual de etiqueta para um comportamento adequado ao utilizar o aplicativo....
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Crônicas

Aquela velha opinião formada sobre tudo

A certeza parece nos conduzir por uma estrada longa e reta, basta renovar o seu estoque e encontramos confiança para trilhar, sem muitos percalços. No entanto, algumas leituras e interpretações do mundo, antes consideradas consistentes, por vezes bem engendradas que resultaram em convicções, agora não servem mais. O certo revela-se um mero equívoco e aquela velha opinião formada se torna deformada...
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Crônicas

Saudade, este substantivo feminino abstrato…

Na literatura, entre as inúmeras, algumas citações, Olavo Bilac: “Saudades: presença dos ausentes”; Clarice Lispector relacionou saudade com a fome: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença”; Carlos Drummond de Andrade: “Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela” e Rubem Alves: “A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar....
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Crônicas

Humanos, porém perfeitos

Pessoas transparentes lutam e trabalham para realizar seus ideais, ao invés da preocupação constante em causar boa impressão aos outros. Logo, sem tempo para a interpretação de papéis principescos. Necessitamos ouvir e sentir gente de verdade, que não se escondem atrás das máscaras sociais. Os insuportáveis sorrisos bem moldados, em faces previsíveis, tentando nos convencer da sua infalibilidade. Entretanto, esses seres sob o semblante da perfeição, nos quais inexiste nenhum tipo de mácula, estão condenados à imobilidade, permanecem homogêneos, perenes e imutáveis....
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Crônicas

A casa de madeira

No jardim, roseiras bem tratadas e flores que não se veem mais. Plantadas pelas mãos do dono, parecem que, cultivadas uma de cada vez, após muitos anos de convivência se harmonizaram. De aparência distinta daquelas pertencentes a um serviço pago de jardinagem, capazes de reproduzir jardins rapidamente, ao levar todas as folhagens e flores em uma única vez para compor o espaço, sempre com o aspecto do verde da moda....
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Crônicas

Papai Pernilongo

Reafirmou os seus antigos valores, de que a vida apenas adquire sentido pela solidariedade. A esperança que brota diante de uma sociedade marcada pela indiferença. Pensou em ligar e reclamar, sentira um grande orgulho e somente a tela da televisão pode informá-lo, mas lembrou com satisfação que era o Papai Pernilongo...
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Crônicas

Ele e o supermercado

Gilda E. Kluppel Frequenta constantemente o supermercado, não apenas pelas compras, mas para ver os lançamentos de produtos, petiscar as amostras grátis e observar a movimentação de pessoas. Habituou-se em implicar com as crianças que brincam, como se estivessem em um parque de diversões, desejando produtos em que na embalagem está a representação de personagens preferidos. Entretanto, talvez, para ele, fosse a mesma sensação. Quanto maior o supermercado, maior a diversão, mais coisas para serem vistas e cobiçadas. Muitas vezes pretendia comprar meia dúzia de pães e saía com a cestinha cheia. Examina os rótulos com o interesse de um minucioso pesquisador, compara alimentos, admira-se com os produtos que viajam quilômetros de distância e atravessam o oceano para chegar...
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Crônicas

Belas palavras

Gostava de falar palavras bonitas, aquelas com uma boa sonoridade. Quando ouvia alguma palavra diferente, considerada agradável, anotava num bloquinho de papel, que carregava sempre junto ao bolso da camisa. O sentido da palavra não era relevante, apenas a beleza do som que elas produziam. Pretendia causar impacto. Sentia-se valorizado quando as pessoas não compreendiam o significado das expressões que usava. Para ele, o importante são as muitas voltas e firulas para se expressar....
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Crônicas

Natal

Gilda E. Kluppel Resolveu inovar neste Natal, em cada final de ano, ele e a esposa procuravam agradar a todos, acreditando que quanto maior o gasto, maior a fraternidade. Destinavam uma grande quantia de dinheiro para que nada faltasse à mesa e também para a decoração da casa. Mas, as lembranças dos Natais passados traziam um gosto amargo. Ele sempre considerou importante reunir a numerosa família. Porém, os convidados, em sua maioria, eram compostos por pessoas que pouco se viam. Entre eles existiam algumas desavenças e muita distância. Todos os anos contavam com a presença do “espírito natalino” para que fosse possível se aturarem mutuamente. Entretanto, no final da festa, de modo costumeiro, acontecia um desentendimento ou um mal-estar...
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Crônicas

A carteira ou a vida

Gilda E. Kluppel Foi um dia daqueles. Tudo parecia conspirar contra ela. Partiu logo cedo, para o trabalho, aborrecida ao ver a situação do marido, desempregado e deprimido com a rotina diária de buscar trabalho e não encontrar a resposta desejada. Agora, sem a ajuda do companheiro, restaram mais contas para pagar ao arcar sozinha com as despesas da casa e dos três filhos. Quando chega ao escritório encontra o chefe de mau humor, que a deixa desconfortável. O individualismo prevalece, os colegas agem segundo o conceito de “cada um por si”. Um ambiente repleto de disputa e competição, em que os dias passam sempre de modo lento. Na hora da saída, ao ajeitar os cabelos diante do espelho,...
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Crônicas

Cresça e apareça

 Gilda E. Kluppel Quando criança, ao se exibir, na tentativa de demonstrar que éramos especiais e consequentemente passávamos do limite, alguém interrompia para dizer: “cresça e apareça”. Expressava a falta de mais idade e de amadurecimento, para que, a partir da realização de algo concreto e bem feito, fosse realmente possível aparecer. Inverter a expressão para “apareça e cresça” torna-se apropriado ao ramo do comércio e dos negócios em geral, ambos dependem de visibilidade. Quanto maior o número de pessoas que conhece o empreendimento, naturalmente aumenta a probabilidade de que o mesmo seja bem-sucedido. “Aparecer e crescer” talvez sintonize bem para o mundo dos negócios, mas quando se aplica às pessoas essa opção desafina. A busca incontrolável pela aparência...
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Crônicas

Conselho de revista

Gilda E. Kluppel Encontrou uma pilha de revistas femininas antigas, entre elas a sua preferida quando jovem. Logo, separa a coleção que estava no sótão da casa, empoeirada e cheirando a mofo, ainda precisa colocar ao sol para conseguir manusear. Depois de livrar-se do cheiro da velharia, curiosa, foi rever as páginas que gostava de ler cinquenta anos atrás. Surpreendeu-se com o que encontrou. Nas revistas, o universo feminino era restrito. Pareciam manuais para que as mulheres concorressem ao título de “rainha do lar” e, assim, pudessem manter um casamento feliz. Encontrou inúmeros conselhos e dicas “valiosas” às esposas sobre o cumprimento de suas tarefas. Não aceitava tantas orientações de como se comportar em determinadas situações. Estarrecida exclamou: “Meu...
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Crônicas

Asfalto molhado

Gilda E. Kluppel Chuva torrencial ao final da tarde, semáforo verde para os pedestres. Na esquina, uma senhora de cabelos brancos, calça comprida e longo casacão, começa a travessia da rua na faixa de segurança. De repente, escorrega e cai, sombrinha numa das mãos, a outra mão, estendida, procura um gesto que a acolha. Neste momento lembra-se do pai, ele sempre destacava a importância de pequenas atitudes, das quais não notamos, mas proporcionam a diferença necessária. Entretanto, os transeuntes caminham rapidamente, existe o controle rígido do tempo, fragmentado pelos muitos afazeres para cumprir. Ninguém possui alguns minutos suficientes para tentar reerguer a senhora. Alguns míseros minutos capazes de atrasar um pouco a hora de chegar ao trabalho, a hora...
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Crônicas

O reencontro

Gilda E. Kluppel  Ele estava ansioso, após trinta e cinco anos, chegou o dia do reencontro da turma de formatura. Morando em outra cidade, não se uniu ao grupo durante as comemorações anteriores. Mas, desta vez, resolveu participar. Folheava um álbum antigo, em que as fotos ficavam presas por cantoneiras douradas. Tentava lembrar melhor dos rostos e nomes dos colegas. Encontrou a sua imagem, desbotada pelo tempo, com a vasta cabeleira e a barba sempre por fazer. Enquanto terminava de trajar um elegante terno azul-marinho e ajeitar a gravata, recordava o passado de militância política, que fora completamente esquecido durante o decorrer da vida. Ao olhar para o espelho imaginou a reação dos colegas que notariam os seus poucos...
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Crônicas

A roda gigante

Gilda E. Kluppel Quando criança, meu pai sempre me levava, sem nunca deixá-lo esquecer, ao parque de diversões. Ao olhar o tamanho da fila da roda gigante, imaginava a alegria daquelas crianças que estavam prontas para sentar no banco mágico da roda. E, ansiosa, falava: “quero ir lá na frente”. Meu pai, com paciência, dizia que era necessário aguardar e logo chegaria a minha vez. Prestes a entrar na roda, observava a imensa fila atrás de mim, orgulhosa por ter a possibilidade de embarcar nesta viagem. As voltas na roda, o balanço do banco e as paradas que, muitas vezes, nos deixavam no topo, causavam uma sensação fantástica. E bastavam algumas voltas para encontrar a felicidade. Quando saía da...
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