Crônicas

Chegadas e partidas

Gilka Coimbra   Preciso ir, mas não sei bem se quero. Culpo a inércia que me invade e assume minhas decisões, orquestrando a vida minha como se fosse alheia. A minha. Tem tanto poder esse estado de apatia, que assume ser a protagonista maior, nunca a consequência, acessório simples de um momento. Racionalizo para me salvar e me perco. Simples assim. Culpa, há nisso? Medo. Uma ansiedade torturante me invade e recuo covardemente. Observo-o de longe sem que me veja. Do outro lado do vidro, a vida inteira à disposição de um só futuro. O meu, o nosso. Arrisco, e num gesto abrupto levo a mão à maçaneta e rompo o imobilismo que me assola. Pelo vão da porta...
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Crônicas

A menina que espiava

  “O importante não é onde moramos, mas onde a casa mora.” Mia Couto Abriu a porta e o escuro que habitava a peça àquela hora do dia, recebeu um dedo de luz. Na procura do interruptor a aspereza da parede deslizava pela mão espalmada. Na outra, segurava o livro.  Encontrou-o no escritório, trancado em uma gaveta embaixo de uns papéis velhos. Viu quando e onde havia sido guardado. Costumava espiar pelo lado de fora da casa, através do vão da cortina que cobria a janela do escritório de advocacia do pai. Ele estava sempre envolvido com inúmeros casos mais sérios, não havia tempo nem interesse em descobrir a menina que vigiava a casa, os irmãos mais velhos, a...
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