Crônicas

Uma vida injustificada

Uma vida injustificada Mara Rovida*   Ana Maria era média, mediana, talvez medíocre, não no sentido pejorativo. Mas era certamente dessas pessoas que não têm grandes destaques para se gabar. Da estatura ao desempenho nas atividades escolares, sempre esteve nem muito lá, nem muito cá. Sabia o suficiente para passar na média ou pouco acima. Não estava entre as beldades do bairro, mas, quando bem arrumadinha, conseguia chamar a atenção do pretendente. De meio assim em meio assim, foi crescendo e se descobrindo parte de outra média ainda maior. Ser mulher é, na média, uma sucessão de justificativas. Foi assim que a moça nem magra nem gorda, nem alta nem baixa foi se percebendo logo que saiu do colégio....
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Crônicas

Desalmados mestres

Havia se preparado para o desafio. Se esmerou para conhecer mais amiúde cada possibilidade daqueles fazeres e se tornar apta para passar adiante um saber. Mas nada daquilo fazia peso, agora a práxis demanda lidar com questões outras e discorrer sobre o que não ouviu, sobre o que não viu, sobre o que não sabe....
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Crônicas

Ao lado da recuperação

Mara Rovida*   Demora-se para apreender a ideia em sua plenitude. Na aparência, não passa de uma dessas frases de efeito usadas em dinâmicas de grupo recheadas de pieguices. Mas quando finalmente digerida sua essência, percebe-se a realidade escorregadia e traiçoeira. “Quando tudo está mal, desconfie. Quando tudo está muito bem, desconfie.” A ideia não requer grandes esforços para ser compreendida. Os que contam os passos vivem envoltos em distorções, pequenos truques e realidades artificialmente coloridas. Quem vai ao lado, contabilizando as tentativas e acertos, tentativas e recaídas, fica tarimbado na arte da desconfiança. Nada é o que parece. Tudo pode ser diferente do que foi dito e provavelmente a experiência é bem diversa daquela desenhada pela expectativa. Mas...
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Crônicas

Do lado de fora da recuperação

No dia de encurtar a distância e acalmar o peito sem fôlego pela ausência prolongada, a última barreira se disfarça de portão e burocracia. Superado o obstáculo, finalmente alcança-se o abraço que tenta esmagar a saudade. Olhos inundados por uma onda salgada, corações acelerados e sorrisos que disputam espaço nos rostos amanhecidos pela ansiedade típica da véspera dos reencontros...
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Crônicas

Perdi uma crônica

  Mara Rovida*     Taurinos são seres ruminantes. Mastigam seus sentimentos, engolem, regurgitam, fazem malabarismos bucais para enfim processá-los. Com lentidão e força, muitas vezes explosiva, sentimentos ou pensamentos são subitamente expressos. Surgem assim insights maravilhosos de um tipo bem particular de mastigação, a bovina. Sem glamour, sem magia, é assim que a particularidade desses seres ruminantes torna tangíveis inventos, mesmo os intelectuais ou líricos. Foi num processo desses que a crônica cheia de impressões e boas perspectivas sobre a arte da docência foi elaborada. Um texto simples e poético. Uma visão singela, mas cheia de entusiasmo pela carreira retomada depois de anos de pausa para a dedicação do item segundo, aquele depois do hífen – já desaconselhado...
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Crônicas

Quanto dura uma memória?

Mara Rovida*   Decidimos fazer diferente esse ano. Optamos por não falar, não contar o tempo, não fazer das datas do calendário um peso, uma agenda para lembrar. Ninguém disse palavra alguma. Tudo ficou no ar, numa espécie de atmosfera densa pesando sobre as cabeças, comprimindo o peito e fazendo os nervos saltitarem embaixo das várias camadas epidérmicas. **** Um segundo, um instante fugidio e o silêncio.  **** Daquele ligeiro momento entre rodovias até agora já se foram semanas, meses, anos, uma década. Contaria 10 ausências no seu próprio aniversário; 10 festas de Natal sem entregar ou receber presentes; 10 férias perdidas; alguns nascimentos perdidos; alguns casamentos não acompanhados. O tempo insiste em alargar as distâncias, em esvanecer as...
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Crônicas

Uma palheta, no fundo da gaveta

Mara Rovida*   Nervosamente, afastava as roupas penduradas nos cabides para olhar o que havia no fundo do armário. Uma gaveta ou duas reviradas em busca de algum documento. Não me lembro mais o que era. A urgência desapareceu no exato momento em que vi aquele pequenino pedaço de plástico colorido. Uma fatia de lembrança, uma vida distanciada pelos anos se materializava num objeto barato e cheirando a mofo. A velha palheta azul trazida do fundo da revoltosa gaveta provocou sons audíveis e tangíveis. Um violão encheu o ambiente com notas acordadas, antes adormecidas e semi-encerradas pelo quase-esquecimento. Vinha de todos os lados como as folhas levantadas pelos ventos-arautos da tempestade. Com ela em mãos, vislumbrei mais uma vez...
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comportamento

Livres? Só quando puderem decidir

  Mara Rovida* A fogueira de sutiãs precisa ser mantida acessa. O fogo crepitante ecoa em cada esquina da urbes repleta de histórias, insultos, cantadas deslocadas e mulheres medidas de cima a baixo porque vestiram uma roupa mais justa, mais curta, um decote mais acentuado. O peito arfante é meu, mas é o outro que decide se ele pode ou não aparecer? Marcha das vadias, ser vadia, sair pelada no carnaval, vestir ou despir quando quiser. Mantras entoados por todo canto, mas que ainda encontram barreiras e limitações empoeiradas dos muitos não pode. Assim a chama das liberdades femininas vem se mantendo.   Em contrapartida ou não contramão, surgiu nessa caminhada uma série de tem de. Para ser mulher...
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Copa 2014

Isso é futebol

Mara Rovida* É “bonito” ver algumas pessoas descobrindo o futebol. A Copa do Mundo tem isso de “bom”. A confusão de sentimentos que beira a insanidade – ora somos sonhadores, ora somos apenas realistas – tão conhecida dos boleiros e torcedores semi-fanáticos agora toma por completo gente que nunca foi a um estádio, nunca vibrou com um gol espírita, nunca viu seu inabalável time perder para um clube do interior. Depois do vexame em rede internacional, há os que atestam de boca cheia “essa seleção nunca poderia”. Há os que se dizem surpresos “achei que passaríamos, que ganharíamos”. Mas, o que alguns não entenderam ainda é que qualquer uma dessas expectativas poderia ser contemplada no final. Eu vi um...
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Crônicas

Quando as cortinas se fecham…

Mara Rovida* O pano caiu pesadamente, cerrando em definitivo sua presença, deixando memórias e saudades. Não será como antes, apenas fanfarronice matinal. Dessa vez, é o fim do espetáculo em que representou papel principal. Muito se diz desses momentos. A única certeza da vida. A hora de todos um dia chega. Não é um ponto final, apenas uma passagem. Todos voltam de alguma maneira. O que importa é a boa lembrança. Viveu tudo que podia, que queria. Enfim, frases e mais frases que parecem ter como único objetivo preencher o vazio, aquela sensação tão temível da ausência, do silêncio interminável. Não foi a primeira vez que acompanhei esse desfecho. Como alguns antecessores, seu último miado, seu último suspiro tinha...
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Crônicas

Travessia incompleta

Mara Rovida* A umidade noturna se misturava ao choro copioso e indisfarçado. As luzes pareciam piscar e o mundo estava fora do eixo. Um giro completo sobre si e a última mirada teve como perspectiva um ponto qualquer na semiescuridão do frio asfalto paulistano. Vozes ofegantes esvaziavam-se até findarem por completo… *** Ana Laura frequentava uma livraria-pub ou pub-livraria ou balada-livraria ou balada com livros ou livros com balada. Era um desses lugares da moda entre as Aspicueltas e Fidalgas da vida, um espaço cult cheio de gente intelectualizada, intelectualizante ou nada disso. Livros eram lançados, depois uma banda tocava e todo mundo sorria; saraus eram organizados, depois uma banda tocava e todo mundo curtia; cafés filosóficos eram montados,...
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Crônicas

O trânsito apressa as despedidas e estreita as oportunidades

Mara Rovida* Ela nunca disse claramente, mas ele o sabia. Não poderia assumir o namoro perante a família.   Sua conduta levava a um beco sem saída, porque ela não podia ou era apenas incapaz de se decidir. Tinha de escolher entre enfrentar os olhos de desaprovação de uns ou simplesmente seguir sua história longe de quem fazia seu coração pulsar forte. Optou por adiar uma definição. Pensou que teria todo tempo do mundo para conduzir essa história como se fosse sua autora. Mas, nunca passou de personagem. Um cara boa pinta, boa praça, bom de papo, trabalhador e cheio de vida pela frente. Ela, moça jovem, trabalhava em banco, tinha um belo futuro diante de si e a...
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Crônicas

O peso de um olhar

Mara Rovida*  Um toque entre almas, uma proximidade percebida à distância, uma conexão no vácuo, uma vibração corpórea sem contato físico concreto. Foi isso que a fez girar o pescoço, em meio a Rodrigues, Machados, Veríssimos e Rosas. Num tiro certo, deu de encontro (ou confronto) com a origem daquele peso sobre si, daquilo que parecia roçar suas costas sem leveza e sem rodeios. Fazia encomendas na mesma livraria há anos. Era um lugar estratégico, ficava perto de vários endereços por onde transitava ao longo da semana. Naquela terça-feira chuvosa, havia mais duas obras teóricas para compor sua bibliografia já extensa de comentadores da cultura brasileira. Mas, antes de passar no caixa, uma parada na seção de literatura nacional....
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Crônicas

Um tributo à frustração

Mara Rovida*   Dia desses, alguém me perguntou o que o fracasso representava para mim? O fato é que fracasso pode ser traduzido por objetivo, meta, sonho, propósito ou o que valha frustrados. Talvez, a palavra de ordem seja essa mesmo, frustração. E todo mundo tem medo de se frustrar, de dar com “os burros n’água”, como diria o caipira. Mas, é impossível evitar um tropeço aqui ou acolá que fazem a tal...
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