O ser humano é capaz de agir de
acordo com um princípio moral
coerente? E você? Você acredita ter
a capacidade necessária para
resolver seus próprios dilemas
éticos? Outro dia li sobre um estudo
feito por um pesquisador chamado
Hauser, através do livro “Deus um
Delírio”, do escritor Richard
Dawkins, onde foram colocados alguns
dilemas morais a uma séria de
indivíduos, buscando respostas para
estas perguntas.
No
primeiro dilema havia cinco pessoas
presas aos trilhos de uma ferrovia,
e você (sim, você leitor) tinha
acesso ao centro de comandos dos
trilhos. Um trem desgovernado vinha
em direção a essas pessoas, e
somente você poderia desviá-lo para
uma linha secundária salvando a vida
dessas pessoas, porém, na linha
secundária também havia uma pessoa
presa aos trilhos, ou seja, salvando
as cinco pessoas você mataria o
infeliz que estava sozinho, sabe-se
lá fazendo o quê, nos outros
trilhos. De acordo com o livro de
Dawkins, diante deste dilema,
aproximadamente 90% dos
entrevistados, optou por sacrificar
aquela pessoa solitária para salvar
às outras cinco.
No
segundo dilema havia cinco pacientes
em um hospital que precisavam de
transplante, cada um necessitava de
um órgão diferente, você era o
médico-cirurgião responsável pelo
hospital, e descobriu que havia uma
pessoa na sala de espera que era
compatível com aqueles cinco
pacientes, a pergunta agora é, se
não existissem complicações
jurídicas, apenas morais, você
sacrificaria essa pessoa para salvar
as outras cinco? Em torno de 97% dos
entrevistados disse que era imoral
matar alguém para salvar os
pacientes.
Agora
vamos misturar tudo e colocar os
cinco pacientes no trilho principal
do trem e o homem da sala de espera
no trilho secundário, neste caso
haveria ou não problemas na morte do
homem sozinho para salvar os outros?
Pode-se notar que no primeiro caso o
arauto da morte é um fator externo
(o trem) e que todos são vítimas sem
qualquer conexão com o artefato, já
no segundo caso o fator “morte” está
intrínseco a cada um dos cinco
doentes, como uma espécie de sina
destinada a eles, neste caso
pareceria injusto que outro
indivíduo fosse sacrificado para
salvá-los.
Na
reflexão sobre estes dilemas o peso
da decisão tende a se alterar quando
novos elementos são apresentados,
tais como: E se algum dos cinco
pacientes fosse próximo a você (mãe,
irmão, sogra, namorado cabeludo e
tatuado da sua filha, etc), e o
homem sozinho fosse um total
desconhecido, ou quem sabe um
corrupto, ou até sua ex-mulher? E se
fosse o contrário? No caso dos
trilhos, e se os cinco indivíduos
fossem procurados pela polícia? E se
a pessoa sozinha fosse uma criança?
E se você tivesse que arremessar a
pessoa nos trilhos para salvar as
outras? E se essa pessoa fosse Madre
Tereza de Calcutá? Ou Hitler? Ou se
fosse seu filho...
Nossa mente vai dançando conforme as
situações que vão se apresentando,
onde o certo e o errado vão mudando
de lado a cada nova informação, mas
no fundo o resultado final é sempre
o mesmo, trocar cinco vidas por uma
ou vice-versa. Outro fator
interessante é que quando
apresentado em pequenas proporções,
muitas vezes não nos damos conta do
que podem representar tais escolhas,
mas quando multiplicamos os números,
nossa percepção muda, por exemplo,
ao invés de cinco pessoas aumente
para cinqüenta milhões, e troque o
indivíduo solitário por uma minoria
de alguns milhões de habitantes, e
perceberá como estas escolhas soam
parecidas com aquelas difundidas
pelo nazismo (entre outras
tiranias), para justificar seus
genocídios históricos.
Dispomos
em nossa herança genética de
vínculos relacionados ao senso moral
inerente a cada indivíduo. Algo
forjado nos mesmos primórdios que
definiram os sentimentos e sentidos
de autopreservação de nossas vidas.
Apesar de entendermos muitas de
nossas escolhas como emocionais,
elas acabam tendo raízes bem mais
profundas e desconhecidas dentro de
nossa frágil cabeça, do que podemos
imaginar.
Somos um
produto da evolução, que nos moldou
tal qual um boneco de barro para se
chegar até onde nós chegamos. E
apesar de ser desprovida de qualquer
mágica, o resultado de toda esta
ciranda existencial é algo
verdadeiramente encantador em seu
produto atual e não final, pois
assim como o universo, nós também
somos obras inacabadas do ponto de
vista macro de nosso desenvolvimento
como raça, porém, finalizados diante
de nossa finita condição humana.
abrasc@terra.com.br
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