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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 22 de outubro de 2008 20:36:32                                               

 
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COLUNISTAS

O Jogo da Vida (Alguém aí tem o telefone do juiz?)

   

Antonio Brás Constante

publicado em 22/10/2008

 

A vida é uma competição onde cada jogador participa de apenas uma partida, seguindo regras ditadas por um juiz que montou a estrutura do jogo em alguns dias e depois largou tudo e foi descansar, sem se preocupar em criar uma manual de instruções que definisse entre outras coisas: a forma de jogar, o número ideal de jogadores, qual é o prêmio, ou mesmo qual é a música.

Jogam em um campo chamado Terra, mas já vislumbrando a conquista de novos estádios em outras constelações. O campo não é dos melhores, sendo repleto de grandes poças de água doce e salgada que muitos julgam ser fruto de uma colossal chuvarada conhecida por dilúvio, um evento que trouxe a salvação de alguns poucos por meio de informações privilegiadas, enquanto todo resto da humanidade ficou literalmente boiando.

Nesta partida a bola tem muitos nomes: felicidade, sucesso, dinheiro, o telefone da Gisele Bündchen, e na época do descobrimento do Brasil alguns até queriam que fosse um encontro romântico com a Derci Gonçalves (uma bela jovem naquela época).

Trata-se de um jogo contra muitos adversários, entre eles: a escassez de recursos, as doenças, os desastres naturais, nossos próprios medos, mas principalmente, jogam porque acham que este campeonato irá definir quem vai ser escalado para jogar posteriormente no time lá de cima como artilheiro ou no lá de baixo como goleiro. O pior é que os quase sete bilhões de jogadores acabam sempre jogando uns contra os outros.

Apesar da ausência de um juiz que organize a bagunça, o que não falta é gente dizendo que consegue se comunicar com ele. Primeiro diziam que ele se dirigia a eles através dos raios e trovões. Com o passar do tempo a conversa passou a ficar mais eclética e misteriosa, acontecendo sempre em segredo, apenas para uns poucos iluminados, que afirmavam o gosto do juiz por sacrifícios de virgens, sem entrar muito em detalhes dos seus motivos.

Logo as virgens foram ficando escassas e eles tiveram que reformular as regras, passando a perseguir e queimar bruxas, algo que consistia apenas em achar uma infeliz e acusa-la de atos pagãos sobre qualquer pretexto furado, adicionar um punhado de lenha, convidar todos os bons cidadãos do vilarejo para o show de fé e atear fogo na pobre criatura (alguns dizem que os gaúchos aprimoraram a idéia e dali nasceu a tradição do churrasco). Tais atitudes talvez até tenham sido o princípio das causas do efeito estufa em nosso planeta.

Após o espetáculo de horrores pirotécnico, muitos voltavam para suas casas comentando sobre o aumento do número de bruxas nos últimos tempos, sem se dar conta de como aqueles terríveis e fantásticos poderes que diziam que elas tinham, mostravam-se ineficazes para salva-las do fogo purificador da inquisição. Mas o mundo evoluiu bastante, e a fumaça que antes avisava sobre os momentos finais das feiticeiras, hoje serve para informar sobre a escolha de novos ícones religiosos, devotados a buscar uma nova era de castidade, aumentando o número de virgens, e quem sabe assim, até poder reiniciar o processo de comunicação divina como nos tempos de outrora.

Se o ser humano parasse um pouco de ficar adorando onipotentes ídolos, deixando principalmente de seguir cegamente os mandos e desmandos de seus pretensos escolhidos, e passasse a ouvir, amar e se preocupar mais com seus semelhantes, a humanidade conseguiria enfim formar um único time em prol da vida, unidos na busca de uma verdadeira vitória.

E-mail: abrasc@terra.com.br

 
 
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Antonio Brás Constante é  natural de Porto Alegre. Residente em Canoas RS. Bancário. Bacharel em Ciência da Computação. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores).
 

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