A
vida é uma competição onde cada jogador
participa de apenas uma partida, seguindo regras
ditadas por um juiz que montou a estrutura do
jogo em alguns dias e depois largou tudo e foi
descansar, sem se preocupar em criar uma manual
de instruções que definisse entre outras coisas:
a forma de jogar, o número ideal de jogadores,
qual é o prêmio, ou mesmo qual é a música.
Jogam em um campo chamado Terra, mas já
vislumbrando a conquista de novos estádios em
outras constelações. O campo não é dos melhores,
sendo repleto de grandes poças de água doce e
salgada que muitos julgam ser fruto de uma
colossal chuvarada conhecida por dilúvio, um
evento que trouxe a salvação de alguns poucos
por meio de informações privilegiadas, enquanto
todo resto da humanidade ficou literalmente
boiando.
Nesta partida a bola tem muitos nomes:
felicidade, sucesso, dinheiro, o telefone da
Gisele Bündchen, e na época do descobrimento do
Brasil alguns até queriam que fosse um encontro
romântico com a Derci Gonçalves (uma bela jovem
naquela época).
Trata-se de um jogo contra muitos adversários,
entre eles: a escassez de recursos, as doenças,
os desastres naturais, nossos próprios medos,
mas principalmente, jogam porque acham que este
campeonato irá definir quem vai ser escalado
para jogar posteriormente no time lá de cima
como artilheiro ou no lá de baixo como goleiro.
O pior é que os quase sete bilhões de jogadores
acabam sempre jogando uns contra os outros.
Apesar da ausência de um juiz que organize a
bagunça, o que não falta é gente dizendo que
consegue se comunicar com ele. Primeiro diziam
que ele se dirigia a eles através dos raios e
trovões. Com o passar do tempo a conversa passou
a ficar mais eclética e misteriosa, acontecendo
sempre em segredo, apenas para uns poucos
iluminados, que afirmavam o gosto do juiz por
sacrifícios de virgens, sem entrar muito em
detalhes dos seus motivos.
Logo as virgens foram ficando escassas e eles
tiveram que reformular as regras, passando a
perseguir e queimar bruxas, algo que consistia
apenas em achar uma infeliz e acusa-la de atos
pagãos sobre qualquer pretexto furado, adicionar
um punhado de lenha, convidar todos os bons
cidadãos do vilarejo para o show de fé e atear
fogo na pobre criatura (alguns dizem que os
gaúchos aprimoraram a idéia e dali nasceu a
tradição do churrasco). Tais atitudes talvez até
tenham sido o princípio das causas do efeito
estufa em nosso planeta.
Após o espetáculo de horrores pirotécnico,
muitos voltavam para suas casas comentando sobre
o aumento do número de bruxas nos últimos
tempos, sem se dar conta de como aqueles
terríveis e fantásticos poderes que diziam que
elas tinham, mostravam-se ineficazes para
salva-las do fogo purificador da inquisição. Mas
o mundo evoluiu bastante, e a fumaça que antes
avisava sobre os momentos finais das
feiticeiras, hoje serve para informar sobre a
escolha de novos ícones religiosos, devotados a
buscar uma nova era de castidade, aumentando o
número de virgens, e quem sabe assim, até poder
reiniciar o processo de comunicação divina como
nos tempos de outrora.
Se
o ser humano parasse um pouco de ficar adorando
onipotentes ídolos, deixando principalmente de
seguir cegamente os mandos e desmandos de seus
pretensos escolhidos, e passasse a ouvir, amar e
se preocupar mais com seus semelhantes, a
humanidade conseguiria enfim formar um único
time em prol da vida, unidos na busca de uma
verdadeira vitória.
E-mail: abrasc@terra.com.br