Muitas
vezes
até
coisas
lógicas,
como
a
própria
lógica,
podem
falhar
quando
são
utilizadas de
forma
parcial
ou
meramente
representativa.
Por
exemplo,
se encontrássemos
alguém
que
desconhecesse os
gentílicos,
ou
seja, os
nomes
utilizados
para
definir
as
pessoas
nascidas
nos
diversos
lugares
deste
mundo,
e
lhes
disséssemos
que
quem
nasce na Argentina é chamado de
argentino,
quem
nasce
em
Londres é
londrino
e
quem
nasce
nos
Andes é chamado de
andino,
este
indivíduo
poderia
deduzir
que
quem
nascesse na Espanha se chamaria
espinho,
se fosse
em
Creta seria
cretino
e nascendo na
Suíça
só
poderia
ser
suíno,
e passaria a
achar
que
a
tal
gripe
A(H1N1)
veio
de
lá.
O
que
acaba chocando e causando
desapontamento
é
quando
o
poder
público
resolve
tratar
as
coisas
de
forma
representativa, e ao
invés
de
trabalhar
o
todo,
foca
os
esforços
sobre
um
fragmento
do
problema,
na
expectativa
de
que
isso
faça
com
que
as
pessoas
pensem
que
se está atuando de
forma
eficiente
na
solução
geral.
É o
que
parece
estar
acontecendo no
caso
do
alarde
sobre
o
choro
televisivo da
menina
Maisa (vítima
de
um
ato
de
péssimo
gosto
de
quem
bolou
aquele
episódio).
Se
ela
chorasse
embaixo
de uma
ponte,
abandonada
em
alguma
viela,
sofrendo
indefesa
diante
dos
tantos
horrores
pelos
quais
sofrem
milhares
de
crianças
anônimas, diariamente,
explicitamente e
vergonhosamente
em
cada
um
dos
recantos
deste
País,
os
tais
representantes de
seus
direitos,
provavelmente, continuariam
quietos
em
suas
funções
burocráticas,
pois
todos
sabem
que
são
muitos
os
casos
de
desrespeito
as
crianças,
faltam
funcionários,
faltam
recursos,
blá, blá, blá e
mais
blá.
Mas
um
choro
na
televisão
tem
um
peso
maior,
causa
comoção,
e faz
com
que
os
paladinos
da
justiça
corram de
forma
altruísta
ao
seu
socorro,
e aproveitem
para
aplicar
multas
milionárias no
decorrer
do
processo.
Eles
aparecem
em
todas as
mídias
que
queiram ouvi-los
para
dizer
que
estão de
olho
em
qualquer
violação
dos
direitos
da
conhecida
menina.
E
assim
a
pequena
Maisa pode
continuar
a
seguir
sua
carreira
tranqüila,
enquanto
o
monstro
terrível
do
abandono
fica
lá
fora,
nas
favelas,
ruas
e
sinaleiras
(apenas
citando
alguns
lugares
onde
este
ser
monstruoso pode
ser
facilmente encontrado), atacando
livremente
todas as
demais
crianças,
que
vivem
sem
assistência
ou
audiência.
A
hipocrisia
parece
transbordar
soberana
quando
se
vê
casos
assim,
onde
tentam
dar
a
entender
que
a
sociedade
realmente
estaria
atenta
e
disposta
a
fazer
algo
em
favor
dos
injustiçados
e
compensar
o
descaso
escancarado.
Quase
dá
para
ouvir
um
retumbante
discurso
dizendo: “nós
não
somos
omissos
aos
problemas
infantis,
mas
como
não
podemos
atender
a
todos
com
igual
eficiência,
vamos
mostrar
nossa
competência
neste
ou
naquele
caso,
na
esperança
de
que
com
isso
ajudemos a
atenuar
o sofrimento das outras
crianças
que
sofrem indefesas e
longe
dos
nossos
olhos
(pois
ao
que
parece o
poder
público
não
assiste
sequer
aos
documentários
sobre
o sofrimento
infantil,
mas
a
audiência
deles aos
programas
do SBT deve
ser
enorme...)”.
Enfim,
para
não
alongar
muito
o
texto,
vou
deixar
para
a “parte
II” a
continuação
sobre
esta
mania
que
o
estado
brasileiro
tem de
tentar
fazer
de
conta
que
está resolvendo os
problemas
da
nação,
utilizando
casos
isolados
como
se fossem
programas
de
ação
eficientes
e
não
deficientes.
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