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O sofredor II (agora com
muito mais sofrimento) |
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Antonio Brás Constante |
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publicado
em 01/10/2008 |
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Para quem joga futebol, há algo muito mais
terrível do que ser driblado, chutado ou perder
pênaltis, pois não há nada, absolutamente nada
pior do que levar um frango (será?). É a
desgraça absoluta. Nestas horas, à vontade que o
pobre goleiro tem é de sair de campo, ir até a
cozinha mais próxima, pegar uma faca, voltar e
assassinar a bola, como se ela realmente fosse
um galináceo (a propósito, leia também “O
SOFREDOR”, disponível em
www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc).
Ao contrário dos outros jogadores que só sabem
maltratar a bola, chutando-a pelo chão frio, o
goleiro abraça a bola, envolvendo-a em seus
braços, protegendo-a com seu próprio corpo, pois
sabe que se deixa-la ir, ela certamente acabará
no fundo de sua goleira. Os goleiros são párias
em campo, vivendo sozinhos em meio a um
turbilhão de jogadores, onde os seus momentos
mais inglórios acabam causando a glória do time
adversário, que comemora tais fracassos com
alegria e festa.
O goleiro não causa o fim do jogo, mas o fim da
jogada. Quando ele segura a bola troca-se os pés
pelas mãos e se reinicia toda estratégia da
partida. Cada chute em sua direção interrompe a
respiração de quem assiste, uma respiração que
se transforma em gritos diante de suas falhas,
ou em meros suspiros de alívio quando ele pára a
trajetória da bola, impedindo-a de cumprir seus
desígnios de arauto da derrota.
O jogo é extremamente injusto para quem fica no
gol, pois enquanto o artilheiro vem pra cima com
seus amigos querendo bater e marcar, o goleiro
fica de braços abertos esperando para apanhar. É
dele o dever de apanhar a bola, defendendo toda
sua equipe. Preso em sua pequena grande área,
buscando evitar que o pior aconteça, mesmo que
isto vá contra o anseio de toda uma multidão de
pessoas que torce e espera ansiosa que ele
fracasse. Não são poucas às vezes em que a bola
rola e, através de pés habilidosos, acabe
enrolando este ser solitário, que cai de joelhos
diante dos oponentes para tentar salvar o seu
time.
Todo goleiro sonha em ser um herói, imagine-se
você como um desses defensores, recebendo a bola
e resolvendo sair com ela para o ataque (ao
invés de lança-la para seus companheiros de
equipe). Os jogadores do outro time vindo em sua
direção como cães raivosos, e seus colegas de
campo gritando: “Passa!”, “PASSA!”. E você ali,
firme com a bola.
Mas você acaba recebendo uma trombada, mais por
inabilidade em desviar do que por truculência
adversária. Com a porrada recebida, você rodopia
algumas vezes na quadra, as luzes girando em sua
volta. O desequilíbrio momentâneo fazendo-o
cair, mas para sua sorte a bola ainda permanece
ao seu alcance. Puxa o fôlego e se lança
novamente ao jogo. Sai correndo cegamente e
ainda meio tonto, com ela sob seus pés e uma
goleira a sua frente. Seus colegas de time
param, os jogadores do outro time também, e você
passando por todos como se estivessem em câmera
lenta. Sua respiração parece que irá falhar a
qualquer momento, os olhos fixos na bola.
Canaliza toda energia do corpo para sua chuteira
e enfia o bico. O público presente ergue-se nas
arquibancadas e grita: “OOOOHHHH!”, em uníssono.
Você então levanta a cabeça em direção ao gol,
consegue ver com clareza o contorno da trave, a
rede balançando com o impacto da bola, mas...
Cadê o goleiro?
Tudo ainda parece ocorrer em câmera lenta. Aos
poucos você vai girando o corpo. Seus colegas
estão com as mãos na cabeça. No rosto dos
jogadores do time adversário um ar de espanto. E
lá no fundo da quadra o goleiro deles em pé,
olhando estarrecido para você. Ao que parece
aquela trombada tirou mais do que seu
equilíbrio, ela tirou também a direção correta
do gol adversário.
Enfim, existe algo muito pior do que ser
chutado, driblado e errar pênaltis. Algo até
mesmo pior que levar um frango em um jogo. Basta
apenas fazer um gol, um belo e derradeiro gol...
Contra.
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