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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 30 de setembro de 2008 21:01:26                                               

 
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COLUNISTAS
O sofredor II (agora com muito mais sofrimento)    

Antonio Brás Constante

publicado em 01/10/2008

 

 

Para quem joga futebol, há algo muito mais terrível do que ser driblado, chutado ou perder pênaltis, pois não há nada, absolutamente nada pior do que levar um frango (será?). É a desgraça absoluta. Nestas horas, à vontade que o pobre goleiro tem é de sair de campo, ir até a cozinha mais próxima, pegar uma faca, voltar e assassinar a bola, como se ela realmente fosse um galináceo (a propósito, leia também “O SOFREDOR”, disponível em www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc).



Ao contrário dos outros jogadores que só sabem maltratar a bola, chutando-a pelo chão frio, o goleiro abraça a bola, envolvendo-a em seus braços, protegendo-a com seu próprio corpo, pois sabe que se deixa-la ir, ela certamente acabará no fundo de sua goleira. Os goleiros são párias em campo, vivendo sozinhos em meio a um turbilhão de jogadores, onde os seus momentos mais inglórios acabam causando a glória do time adversário, que comemora tais fracassos com alegria e festa.



O goleiro não causa o fim do jogo, mas o fim da jogada. Quando ele segura a bola troca-se os pés pelas mãos e se reinicia toda estratégia da partida. Cada chute em sua direção interrompe a respiração de quem assiste, uma respiração que se transforma em gritos diante de suas falhas, ou em meros suspiros de alívio quando ele pára a trajetória da bola, impedindo-a de cumprir seus desígnios de arauto da derrota.



O jogo é extremamente injusto para quem fica no gol, pois enquanto o artilheiro vem pra cima com seus amigos querendo bater e marcar, o goleiro fica de braços abertos esperando para apanhar. É dele o dever de apanhar a bola, defendendo toda sua equipe. Preso em sua pequena grande área, buscando evitar que o pior aconteça, mesmo que isto vá contra o anseio de toda uma multidão de pessoas que torce e espera ansiosa que ele fracasse. Não são poucas às vezes em que a bola rola e, através de pés habilidosos, acabe enrolando este ser solitário, que cai de joelhos diante dos oponentes para tentar salvar o seu time.



Todo goleiro sonha em ser um herói, imagine-se você como um desses defensores, recebendo a bola e resolvendo sair com ela para o ataque (ao invés de lança-la para seus companheiros de equipe). Os jogadores do outro time vindo em sua direção como cães raivosos, e seus colegas de campo gritando: “Passa!”, “PASSA!”. E você ali, firme com a bola.



Mas você acaba recebendo uma trombada, mais por inabilidade em desviar do que por truculência adversária. Com a porrada recebida, você rodopia algumas vezes na quadra, as luzes girando em sua volta. O desequilíbrio momentâneo fazendo-o cair, mas para sua sorte a bola ainda permanece ao seu alcance. Puxa o fôlego e se lança novamente ao jogo. Sai correndo cegamente e ainda meio tonto, com ela sob seus pés e uma goleira a sua frente. Seus colegas de time param, os jogadores do outro time também, e você passando por todos como se estivessem em câmera lenta. Sua respiração parece que irá falhar a qualquer momento, os olhos fixos na bola. Canaliza toda energia do corpo para sua chuteira e enfia o bico. O público presente ergue-se nas arquibancadas e grita: “OOOOHHHH!”, em uníssono. Você então levanta a cabeça em direção ao gol, consegue ver com clareza o contorno da trave, a rede balançando com o impacto da bola, mas... Cadê o goleiro?



Tudo ainda parece ocorrer em câmera lenta. Aos poucos você vai girando o corpo. Seus colegas estão com as mãos na cabeça. No rosto dos jogadores do time adversário um ar de espanto. E lá no fundo da quadra o goleiro deles em pé, olhando estarrecido para você. Ao que parece aquela trombada tirou mais do que seu equilíbrio, ela tirou também a direção correta do gol adversário.



Enfim, existe algo muito pior do que ser chutado, driblado e errar pênaltis. Algo até mesmo pior que levar um frango em um jogo. Basta apenas fazer um gol, um belo e derradeiro gol... Contra.

 

 
 
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Antonio Brás Constante é  natural de Porto Alegre. Residente em Canoas RS. Bancário. Bacharel em Ciência da Computação. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores).
 

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