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Existem pessoas que são capazes de recitar obras-primas
inteiras ou explicar cada frase ou pensamento dos grandes filósofos;
mas, apesar da cultura e inteligência, que ostentam, são incapazes de
expressar uma única frase sua, que sirva de conforte ao próximo, que às
vezes nem reconhece como semelhante, em momentos de real fragilidade
emocional.
De que
adiantam discursos e sermões, plenos de impostação, citações e
dialética, se vazios de sentimentos honestos e sinceros?
Mas
também há pessoas capazes de entender o sofrimento dos outros e
consolá-los, de esquecer um pouco de si próprias para solidarizar-se.
Infelizmente, insensibilidade, alienação e submissão a valores impostos,
impedem de reconhecermos essa benção, negando-lhes uma vida mais leve e
feliz. Alguns confundem esse excesso de humanidade e altruísmo com
fraqueza ou falta de ambição, da qual tiram proveito inescrupuloso.
Não é
à toa que existem tantos santos, vítimas dos erros da humanidade. Eram
todos humanos; sofreram pelas mãos dos que se sentiram incomodados,
ameaçados ou atraídos de forma torpe pela sedução angelical de suas
almas. Para canonizá-los é necessário um longo processo, mas às vezes
basta olhar ao redor para constatar a presença de novos, entre nós, que
com uma simples palavra são capazes de operar milagres anônimos. E tudo
sem exigirem nada em troca!
Esses
santos do cotidiano não se consideram diferentes e são naturalmente
bons. Não fazem culto a si próprios, nem terão seus nomes registrados
em ruas e praças; mas são pródigos em sua infinita capacidade de amar,
mesmo que esse amor não seja correspondido.
Tenho
a felicidade de conviver com algumas dessas pessoas. Muitas vezes
sinto-me fascinado e indigno ao observar seus gestos, atitudes e
palavras. Sinto-me abençoado por tê-las tão próximas e por ter a
oportunidade de tentar retribuir um mínimo do enorme bem que me fazem,
apenas por existirem.
Se não
podemos servir-lhes de bálsamo e aconchego, que ao menos nosso egoísmo,
arrogância, inveja, covardia, preconceitos, frivolidades, obsessões e
culto às aparências não lhes sejam pedras no caminho. Quem sabe, assim,
tenhamos menos santos mártires – vítimas da estupidez de seus
semelhantes - e uma humanidade mais santa, onde a língua dos anjos e as
dos seres humanos seja uma só: o esperanto do amor! |