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COLUNISTAS

Anjos do cotidiano

 

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 04/11/2008


Existem pessoas que são capazes de recitar obras-primas inteiras ou explicar cada frase ou pensamento dos grandes filósofos; mas, apesar da cultura e inteligência, que ostentam, são incapazes de expressar uma única frase sua, que sirva de conforte ao próximo, que às vezes nem reconhece como semelhante, em momentos de real fragilidade emocional.

De que adiantam discursos e sermões, plenos de impostação, citações e dialética, se vazios de sentimentos honestos e sinceros?

Mas também há pessoas capazes de entender o sofrimento dos outros e consolá-los, de esquecer um pouco de si próprias para solidarizar-se. Infelizmente, insensibilidade, alienação e submissão a valores impostos, impedem de reconhecermos essa benção, negando-lhes uma vida mais leve e feliz. Alguns confundem esse excesso de humanidade e altruísmo com fraqueza ou falta de ambição, da qual tiram proveito inescrupuloso.

Não é à toa que existem tantos santos, vítimas dos erros da humanidade. Eram todos humanos; sofreram pelas mãos dos que se sentiram incomodados, ameaçados ou atraídos de forma torpe pela sedução angelical de suas almas. Para canonizá-los é necessário um longo processo, mas às vezes basta olhar ao redor para constatar a presença de novos, entre nós, que com uma simples palavra são capazes de operar milagres anônimos. E tudo sem exigirem nada em troca!

Esses santos do cotidiano não se consideram diferentes e são naturalmente bons. Não fazem culto a si próprios,  nem terão seus nomes registrados em ruas e praças; mas são pródigos em sua infinita capacidade de amar, mesmo que esse amor não seja correspondido.

Tenho a felicidade de conviver com algumas dessas pessoas. Muitas vezes sinto-me fascinado e indigno ao observar seus gestos, atitudes e palavras. Sinto-me abençoado por tê-las tão próximas e por ter a oportunidade de tentar retribuir um mínimo do enorme bem que me fazem, apenas por existirem.

Se não podemos servir-lhes de bálsamo e aconchego, que ao menos nosso egoísmo, arrogância, inveja, covardia, preconceitos, frivolidades, obsessões e culto às aparências não lhes sejam pedras no caminho. Quem sabe, assim, tenhamos menos santos mártires – vítimas da estupidez de seus semelhantes - e uma humanidade mais santa, onde a língua dos anjos e as dos seres humanos seja uma só: o esperanto do amor!
 
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Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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