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Existe o dom e a técnica
O
dom é inato, difícil de explicar à luz das ciências naturais.
A
técnica é um processo: pode ser dividida em estágios, reproduzida, aprimorada.
Vários indivíduos podem ser técnicos, mas nem todos têm o dom. Quanto mais
experientes e graduados, estarão aptos a identificar problemas ou propor
soluções com alto grau de complexidade e acerto; mas quem tem o dom antecipará
ou identificará anomalias ou possibilidades que especialistas, com seus
conhecimentos e recursos tecnológicos sofisticados, passarão ao largo ou serão
empíricos.
Uns dizem que é coincidência, outros que é o acaso. Mas o fato é que o dom
surpreende, às vezes assusta, sobretudo onde reina o preconceito e a ignorância.
Já a técnica pura tende a ser hermética: perfeita no planejamento e na execução,
cheia de controles, mas quase sempre ineficaz perante o desconhecido, o novo.
E
quando o dom se une à técnica? Dessa conjunção tendem a
surgir obras-primas, descobertas! Se essa união for abençoada pelo divino acaso,
então...
Faz sentido, pois é fácil encontrar especialistas em várias áreas, que com
métodos sofisticados exercem seu mister com precisão cibernética. Mas, tomemos
por exemplos as artes: cantores podem ter afinação perfeita, noção exata do
tempo musical; instrumentistas executarão, com perfeição superlativa, obras dos
grandes mestres; escritores podem escrever dezenas de livros, sem um único erro;
escultores ou pintores dominam totalmente técnicas de entalhe, lapidação,
moldagem, mistura das tintas; mas nem sempre emocionam ou arrebatam os sentidos
de quem vê ou ouve o produto de seu esmero.
Nesse caso, o que diferencia o dom da técnica é que ambos têm a capacidade de, a
partir dos sentidos, revelarem emoções nos outros: sorrisos, lágrimas; mas quem
tem o dom o faz naturalmente. Por isso mesmo, devemos valorizar quem se esforça
(“a prática leva à perfeição”) e não desperdiçar quem tem o dom. E esse
desperdício pode ocorrer de diversas maneiras: falta de quem perceba o dom;
falta de apoio; excesso de estupidez de quem o inveje; excesso de técnica, que
pode ofuscar o brilhantismo criativo.
Os dons são naturais e as técnicas podem ser ensinadas. Ambos independem de
raça, credo ou condição social.
As elites colocam seus filhos nas melhores escolas, dão-lhes tudo do bom e do
melhor, mas isso não implica que sejam brilhantes nem bons técnicos. Dependendo
da criação, provavelmente serão modelos só de egoísmo, consumidores de coisas e
pessoas, parasitas! Se as oportunidades que têm, mas desperdiçam, fossem dadas a
outros teríamos, no mínimo, bons profissionais e menos problemas sociais.
Por isso mesmo, é fundamental identificar dons e potenciais onde quer que
estejam, e incentivar seu desenvolvimento, pelo bem da sociedade e da
humanidade! |