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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 05 de janeiro de 2008 17:23:58                                               

 
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COLUNISTAS

Filé mal passado

   

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 05/01/2008

 

 

Dizem que os fumantes são aproximadamente 30% da população, com viés de baixa. Novos adeptos ficarão por conta de jovens com problemas de auto-afirmação (excesso de hormônios e carência de neurônios), e filhos de fumantes, alguns dependentes desde o feto. No entanto, a fumaça dos cigarros continua “espaçosa”.

Por isso eu evito ir a barzinhos abertos, onde fumantes costumam acender um cigarro após o outro.

Eu não entendia a razão dessa compulsão, até me explicarem que o álcool remove a nicotina do organismo e o cérebro, dependente, “pede” que ela seja reposta.

Bem, evito barzinhos, mas vou a restaurantes, e muitas cidades têm leis que proíbem o fumo em áreas públicas fechadas. Ocorre que alguns proprietários as burlam criando áreas de fumantes e não-fumantes. É o caso de um dos restaurantes que eu freqüentava.

Eu sempre pedia para ficar na área de não-fumantes o que, pela lei local, deveria ser a todo o ambiente, por ser fechado. Ao mencionar isso sempre recebi sorrisos amarelos, e às vezes precisei aguardar, pois não havia mesa disponível. Em compensação, era comum ver mesas livres na área de fumantes, bem maior, apesar de haverem poucos fumando: não mais do que os 30% estatísticos.

Isso já era uma incoerência, mas o absurdo maior estava na inexistência de separação física entre as áreas.

Certa vez, perguntei ao garçom como eles proibiam a fumaça de passar de um lado para o outro... Novo sorriso amarelo.

Eu já havia observado que o dono era fumante, algo inadequado para quem atua nesse ramo; mas gostávamos do “filé à Daniel” de lá. Assim, retornávamos, eventualmente, torcendo para não sermos incomodados durante a refeição.

Um dia, no entanto, notei que haviam mudado a decoração do restaurante: novos quadros haviam sido colocados nas paredes.

Observei-os e percebi que onde estávamos – e só ali - três ou quatro telas, em seqüência, mostravam mulheres fumando.

Resolvi brincar com o garçom: perguntei se ali não era área reservada para não-fumantes...

Novo sorriso amarelo, mas desta vez com “tons” diferentes: ele disse que eu não era o primeiro a questionar sobre isso; que já haviam comentado sobre esse arranjo com o proprietário, mas que o autor quisera colocá-las juntas, ali mesmo.

Pouco tempo depois veio a conta... Enquanto eu a verificava, o proprietário passou ao meu lado, com um cigarro acesso.

Desta feita, conclui que o “filé à Daniel” - ou qualquer outro prato dali - não valia nem o preço, nem o desrespeito à lei, nem o incômodo, nem a ironia deselegante que o acompanhavam. Desde então, descobrimos melhores, ao ponto, em lugares onde aromas e paladares podem ser apreciados sem desconfortos.

Mas leis e reclamações seriam desnecessárias se os fumantes, que param de fumar quando estão comendo, simplesmente respeitassem o direito dos 70%, inclusive crianças, que não fumam. É uma questão de civilidade, para não falar em higiene e saúde.

Será que não dá para ficar duas horas sem fumar em recintos públicos fechados ou, simplesmente, sair cinco minutos para fazê-lo?
 
  

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::sobre o autor::

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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