ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 09 de janeiro de 2009 00:46:54                                               

 
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COLUNISTAS

Inteligências Convenientes

 

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 09/01/2009

 

O ser humano tem muitas aptidões, desenvolvidas em diferentes níveis.

O “Teste de QI” não avalia todas. Tem foco específico em capacidade lógica.

A “Teoria de Inteligências Múltiplas”, proposta por Howard Gardner, contribuiu para melhor avaliar essas aptidões. Afinal, Garrincha seria simplório, num teste de “inteligência lógico-matemática”; mas, não há dúvida de que era um gênio, na escala de “inteligência corporal-cinestésica”. Gardner também “baixou a bola” de alguns intelectuais arrogantes, que proclamavam seus dotes mesmo onde não cabiam, mas nada faziam em prol da sociedade.

Mas, qualquer que seja a proposta de análise, ela pode gerar estereótipos ou limitações ao desenvolvimento de seres humanos. Obviamente, isso depende do despreparo ou da conveniência de quem avalia. Também varia de acordo com a reação de cada um às próprias limitações. Assim, as “inteligências” de Gardner podem ser avaliadas com “pesos” diferentes. Por exemplo: um esportista de alto nível ou um músico virtuoso, mesmo os mais arrogantes, parecem não intimidar ou incomodar tanto alguns, quanto uma pessoa com desempenho lógico-matemático notável.

Esses são reflexos de uma sociedade que celebra o entretenimento e as aparências, mas pouco valor dá à intelectualidade e à ciência, embora dependam fundamentalmente de suas descobertas e criações.

Nessa ótica, o esporte e a arte distraem mesmo quem não é esportista ou artista. Já a capacidade intelectual dos outros pode “incomodar” ou até ser objeto de discriminação. Daí é que esportistas e artistas são mais conhecidos, reconhecidos e festejados do que cientistas. Por menos expressivas que sejam as competições esportivas ou artísticas, seus vencedores são glorificados na mídia, sobem pódios, recebem medalhas e prêmios ao som de hinos nacionais. Constroem panteões para eles! Agora, qual a ênfase dada a certames literários e científicos? Às vezes os melhores classificados nem são premiados, porque, segundo alguns organizadores, isso “desmotivaria” os demais...

Ué? Ultrapassar recordes físicos é desafiador, instigante, “glorifica” o ser humano! Superar limites intelectuais é diferente? Não valorizar esses méritos não é um duplo desestímulo: para quem supera e para quem é superado?

Imaginem alguém dizer para um atleta: “Não vença, pois isso deixará seus adversários frustrados!”, ou: “Dê o melhor de si, supere-se! Mas ninguém vai saber que você ganhou, para não desestimular os demais!”.

É esse tipo de bobagem que coloca países na rabeira do desenvolvimento científico e tecnológico.

Ainda bem que agora, além do teste de QI, temos “inteligências” para todo mundo!

Muito justo! O que não é justo é ter sete inteligências com sete “pesos” e sete “medidas”, umas endeusadas e outras menosprezadas; é arraigar o preconceito do “fulano só é bom para isso ou aquilo”.

É por isso que perdemos tantas “cabeças” para os países desenvolvidos! É por isso que somos tão deficientes em pesquisa científica!

Afinal, qual é o real valor que se dá à Ciência neste país? Quando a tradição centenária dos “espertos”, que lucram com a ignorância e alienação do povo, dará lugar às inteligências que podem colocar nosso país na vanguarda positiva do Novo Milênio?

Esse potencial existe e não está restrito apenas a círculo fechados, elitistas, heráldicos, que predominam e se perpetuam em função de outro tipo de “QI”. Ele está até no mais humilde subúrbio, mas precisa de estímulos para ser revelado e aprimorado.

As “escolinhas de esporte” fazem isso e existem inúmeros “olheiros” buscando novos talentos não importa onde. Porque isso é tão raro nas escolas?

Assim, é preciso valorizar, desde o Ensino Fundamental, tudo o que contribua para a evolução física e mental do ser humano. Para tanto, o papel das instituições públicas e privadas é fundamental! Não falo apenas das instituições educacionais, mas também da mídia, das empresas, enfim, de toda sociedade. Assim, cada um poderá escolher o caminho que desejar, sendo valorizado por suas inteligências e aprendendo a conciliá-las e aprimorá-las. Mas também deverá aprender a respeitar e valorizar as inteligências dos outros.

É pela somatória dessas inteligências que nosso país transformará suas potencialidades em real evolução e prosperidade, com proveito para todos!

 
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Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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