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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 10 de abril de 2008 16:20:41                                               

 
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COLUNISTAS

Mais que nada

   

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 10/04/2008

 

Vivo num ritmo alucinante! Trabalho em vários locais e áreas, estudo... Só não tenho tempo para ganhar dinheiro, como diz o ditado.


Nesse “corre-corre” sedentário, qualquer minuto “ocioso” é preenchido pelos atos de escrever e compor (quando é que vão me descobrir?), que junto com minha família (fundamentalmente esta), são meus bálsamos!

Mas mesmo nos poucos momentos de lazer, minha esposa nota que eu não relaxo: erros em textos me chateiam, conversa em cinema me irrita (com razão), fumaça de cigarro em restaurante me incomoda (e como!), perder num jogo me estressa (eu me cobro). Não consigo “desligar”.

Por conta disso, além de já conhecer crises de cálculo renal, fui recentemente apresentado às triglicérides, ao HDL e aos níveis de glicose. “Nada que preocupe.”, salientaram os médicos, mas recomendaram: “Faça atividade física!”.

Futebol estava fora de questão, pois eu poderia me entusiasmar, e começar a chutar outras coisas além da bola. Mas, essa recomendação médica foi a “deixa” para minha mulher me catar pela mão e levar para caminhadas, sempre que possível. “Relaxe, homem!”, ela diz.

Como bom marido submisso (e apaixonado), eu vou... Mas quem disse que o cérebro desliga? Mesmo andando “calmamente”, a “cachola” não pára.

Aí, num domingo, eu ouvi, no rádio, um empresário e uma psicóloga que abordavam o “nadismo”. Falavam sobre a importância de vez por outra fazer absolutamente nada, ficar em estado puro de contemplação: olhar o céu, as árvores ao vento, as ondas do mar “quebrando”...

O empresário começara a fazer isso depois de quase pirar, por estresse. Os bons resultados o levaram a exortar outros a também fazê-lo, sob forma de um movimento: o “nadismo”.

Curioso: um movimento para parar!

A psicóloga confirmou que essa prática era necessária, sobretudo no contexto maluco em que vivemos, ou melhor, sobrevivemos.

Achei aquilo utópico. No mais, certos tipos de “movimentos” tendem a parar as pessoas, para conduzí-las por inércia.

No entanto, ao sair de casa no dia seguinte senti a brisa tocar meu rosto. De repente, minha única vontade foi sentar numa mureta próxima e simplesmente deixar o vento continuar essa carícia, de olhos fechados, com a mente totalmente vazia. Não fiz isso, porque não havia tempo a perder.

Mas, isso seria tempo perdido?

É certo que é difícil abrir mão do que conquistamos com esforço, sobretudo quando a sociedade nos cobra isso, e quando outros dependem de nós. Ganhar a vida honestamente exige certos sacrifícios. Mas cabe a nós buscarmos meios de adicionar prazer à rotina. E esse prazer não implica gastar dinheiro com aparências e sofisticações, que quase sempre estressam mais do que acalmam.

Às vezes basta, apenas, não fazer nada: entrar numa sintonia descompromissada com Deus e com a natureza.

Isso é, com certeza, muito mais que nada!

 
  

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::sobre o autor::

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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