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Sou neto de imigrantes
ibéricos. Nestas condições, bastaria, teoricamente, que eu requeresse dupla
cidadania, para ter abertas as portas da Europa, como um cidadão romano, na
Idade Antiga.
Mas eu sou brasileiro! E a
única globalização em que acreditarei é a que reconhecerá todos como cidadãos do
mundo. Enquanto isso não ocorrer, só me interessará o passaporte da ONU, que
deveria ser um direito de todos, aliás!
Como tupiniquim, lembro que já
fomos súditos das coroas portuguesa e espanhola. Como qualquer colônia, tivemos
muitas obrigações e poucos direitos, normalmente o de ficarmos calados. Foi
assim que enriquecemos as Metrópoles.
Para sermos independentes
precisamos de guerras. Alguns até pagaram indenizações! E rescaldo desse
colonialismo selvagem, nada cristão, foi a escravidão de africanos, o extermínio
de indígenas e a tradição de mal-versar recursos públicos, que alguns insistem
em manter.
Mas a história também foi
cruel com esses descobridores:
Apesar de todas as riquezas
que extraíram das colônias, governos medíocres e guerras os deixaram pobres e
plenos de analfabetos que mal tinham o que comer.
As Pátrias-Mães, que tratavam
seus filhos distantes como madrastas, agora mal conseguiam sustentar seus filhos
“naturais”. Esfomeados e oprimidos eles aceitaram a condição de humildes
imigrantes, e partiram para buscar nas ex-colônias o que não tinham em sua
terra: pão e esperança. Foi uma verdadeira diáspora!
Muitos vieram para o Brasil, e
aqui foram recebidos de braços abertos! Mesmo os espanhóis, foram tão bem
tratados e aceitos, que muitos sequer se deram ao trabalho de aprender nosso
idioma.
Tiveram que trabalhar muito,
sem dúvida! Mas colheram, aqui, frutos que não conseguiriam em suas nações de
origem. Várias vezes ouvi histórias de famílias que mandavam dinheiro e
mantimentos para Portugal e Espanha: café e conservas, que eram ansiosamente
aguardados.
Para piorar, esses países
ainda não integravam o Mercado Comum Europeu. Assim, para entrar num dos países
membros, portugueses e espanhóis sofriam as mesmas restrições que hoje impõem
aos latino-americanos. Para burlá-las rastejavam pelos Pirineus ou navegavam
precariamente por mares já bastante navegados. Chegavam não para descobrir ou
tomar posse em nome de “el Rey”, mas clandestinos, sem um tostão no bolso. E,
lá, discriminados, aceitavam qualquer trabalho, sob qualquer condição, para
enviar o que podiam para quem havia ficado. Foi assim que, em meados da década
de 1980, cerca de 50% do PIB português consistia em remessas de dinheiro de
imigrantes. Nessa mesma época a Espanha só era notícia pelo futebol, pelos
atentados do ETA e pelas execuções com garrote-vil.
Eles haviam virado países de
m...: “Terceiro Mundo” europeu; pontos turísticos folclóricos.
Aí, Portugal e Espanha foram
aceitos na Comunidade Européia. Receberam investimentos e as condições de vida
começaram a melhorar. Veio a prosperidade!
Bastou isso para um oficial
espanhol, de memória curta, embasado por leis de memória curtíssima, mandar um
jovem brasileiro de volta para seu país de m... Provavelmente ele nunca leu ou
então não entendeu a parábola bíblica do devedor.
Como nós o receberemos se um
dia ele resolver fazer aqui, como muitos de seus compatriotas, turismo ou
negócios? Com papel higiênico, em vez de confete, ou dando descarga?
Ninguém ignora que muitos
brasileiros tentam entrar ilegalmente nos países “desenvolvidos”. Muitos deles
prejudicam a imagem de nosso país no exterior. Mas nada, nada, absolutamente
nada dá o direito a um representante legal de um país tratar egressos de outros
países com desrespeito, preconceito e maus-tratos.
Talvez ele esqueça que seus
antepassados, e talvez ele mesmo, tenham conseguido sobreviver à franca pobreza
graças ao que recebiam das ex-colônias!
Gostaria que o Rei Juan Carlos
dissesse a esse seu súdito: ¿Porque no te callas?
Espero que ele também não
tenha só a memória distante... |