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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 14 de março de 2008 19:31:19                                               

 
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COLUNISTAS

Memória curta

   

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 14/03/2008

 

Segundo um dos brasileiros deportados pelas autoridades espanholas, um dos policiais teriam dito a ele que voltasse para seu país de m...

 

Sou neto de imigrantes ibéricos. Nestas condições, bastaria, teoricamente, que eu requeresse dupla cidadania, para ter abertas as portas da Europa, como um cidadão romano, na Idade Antiga.

Mas eu sou brasileiro! E a única globalização em que acreditarei é a que reconhecerá todos como cidadãos do mundo. Enquanto isso não ocorrer, só me interessará o passaporte da ONU, que deveria ser um direito de todos, aliás!

Como tupiniquim, lembro que já fomos súditos das coroas portuguesa e espanhola. Como qualquer colônia, tivemos muitas obrigações e poucos direitos, normalmente o de ficarmos calados. Foi assim que enriquecemos as Metrópoles.

Para sermos independentes precisamos de guerras. Alguns até pagaram indenizações! E rescaldo desse colonialismo selvagem, nada cristão, foi a escravidão de africanos, o extermínio de indígenas e a tradição de mal-versar recursos públicos, que alguns insistem em manter.

Mas a história também foi cruel com esses descobridores:

Apesar de todas as riquezas que extraíram das colônias, governos medíocres e guerras os deixaram pobres e plenos de analfabetos que mal tinham o que comer.

As Pátrias-Mães, que tratavam seus filhos distantes como madrastas, agora mal conseguiam sustentar seus filhos “naturais”. Esfomeados e oprimidos eles aceitaram a condição de humildes imigrantes, e partiram para buscar nas ex-colônias o que não tinham em sua terra: pão e esperança. Foi uma verdadeira diáspora!

Muitos vieram para o Brasil, e aqui foram recebidos de braços abertos! Mesmo os espanhóis, foram tão bem tratados e aceitos, que muitos sequer se deram ao trabalho de aprender nosso idioma.

Tiveram que trabalhar muito, sem dúvida! Mas colheram, aqui, frutos que não conseguiriam em suas nações de origem. Várias vezes ouvi histórias de famílias que mandavam dinheiro e mantimentos para Portugal e Espanha: café e conservas, que eram ansiosamente aguardados.

Para piorar, esses países ainda não integravam o Mercado Comum Europeu. Assim, para entrar num dos países membros, portugueses e espanhóis sofriam as mesmas restrições que hoje impõem aos latino-americanos. Para burlá-las rastejavam pelos Pirineus ou navegavam precariamente por mares já bastante navegados. Chegavam não para descobrir ou tomar posse em nome de “el Rey”, mas clandestinos, sem um tostão no bolso. E, lá, discriminados, aceitavam qualquer trabalho, sob qualquer condição, para enviar o que podiam para quem havia ficado. Foi assim que, em meados da década de 1980, cerca de 50% do PIB português consistia em remessas de dinheiro de imigrantes. Nessa mesma época a Espanha só era notícia pelo futebol, pelos atentados do ETA e pelas execuções com garrote-vil.

Eles haviam virado países de m...: “Terceiro Mundo” europeu; pontos turísticos folclóricos.

Aí, Portugal e Espanha foram aceitos na Comunidade Européia. Receberam investimentos e as condições de vida começaram a melhorar. Veio a prosperidade!

Bastou isso para um oficial espanhol, de memória curta, embasado por leis de memória curtíssima, mandar um jovem brasileiro de volta para seu país de m... Provavelmente ele nunca leu ou então não entendeu a parábola bíblica do devedor.

Como nós o receberemos se um dia ele resolver fazer aqui, como muitos de seus compatriotas, turismo ou negócios? Com papel higiênico, em vez de confete, ou dando descarga?

Ninguém ignora que muitos brasileiros tentam entrar ilegalmente nos países “desenvolvidos”. Muitos deles prejudicam a imagem de nosso país no exterior. Mas nada, nada, absolutamente nada dá o direito a um representante legal de um país tratar egressos de outros países com desrespeito, preconceito e maus-tratos.

Talvez ele esqueça que seus antepassados, e talvez ele mesmo, tenham conseguido sobreviver à franca pobreza graças ao que recebiam das ex-colônias!

Gostaria que o Rei Juan Carlos dissesse a esse seu súdito: ¿Porque no te callas?

Espero que ele também não tenha só a memória distante...

 
  

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Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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