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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:34                                               

 
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COLUNISTAS

Olhares, bocejos e sorrisos

   

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 08/08/2007

 

 

Dizem que quando nós olhamos fixamente para uma pessoa e ela boceja, automaticamente nós repetimos o gesto.

Experimente, e você verá que isso, realmente, “pega"!

Agora experimente olhar para seu filho... Veja como ele está crescendo! Mas preste um pouco mais de atenção: na cor de seu cabelo, nos detalhes dos pés, nos contornos das mãos - que um dia já couberam dentro das suas - no seu porte, nas suas atitudes... Depois, realize que num piscar de olhos ele vai começar a mudar: a adolescência vai chegar com uma avalanche de mudanças, que, talvez, deixem você mais atordoado do que ele. Mas não entre em parafuso! Volte ao presente e revise o cronograma da infância: lembre que ele vive querendo chamar sua atenção, sobretudo quando você está mais concentrado. Será porque você não lhe dá atenção suficiente? Cuidado: Se você não cuidar alguém o fará, quase sempre sem pensar no bem dele!

Pise no freio e pense!

E aí? Será que você sempre esteve disponível para se ocupar dessa sua preciosa obra, tanto quanto de sua carreira e prazer?

Pois saiba que criar um filho também é um trabalho e um prazer! Aliás, se você pode fazer algo realmente bom e útil em sua vida é gerar, mais do que um filho, um amigo e um bom ser humano!

Você está em débito? Tudo bem... É certo que hoje em dia é difícil ter tempo para alguém tão pequeno, quando temos projetos e problemas tão grandes e complexos. Além disso, todo o seu empenho é para que ele tenha tudo o quiser na vida!

Calma! A escala de valores da infância ainda não está distorcida pelo materialismo de nossa sociedade de aparências; e saiba que a maioria dos problemas do mundo é causada por pessoas mal-criadas e mal-amadas na infância!

Talvez ele só queira um pouco mais de tempo com você!

Então, desligue o piloto-automático que o mercado implantou, subliminarmente, em você, e dê um “jeitinho" em sua agenda, sem medo de que alguém encare isso como um deslize de foco, um "desperdício" de tempo ou um "arranhão" em sua imagem de profissionalismo, austeridade e fleuma.

Vá ver o que ele está fazendo: se for a lição de casa, perceba como ele segura o lápis; ouça sua voz como se nunca a tivesse ouvido antes; pergunte sobre o dia dele; diga como foi o seu... Gaste um pouco mais de seu precioso tempo e dê uma olhada em seus desenhos, seus brinquedos... Quem sabe você tenha vontade de desenhar e brincar com ele; quem sabe ele goste; quem sabe você goste; quem sabe ambos descubram que o simples fato de estarem juntos já é um baita brinquedo! Aproveite: Viva um dia de criança!

Talvez seu filho estranhe, em princípio, essa súbita atenção, e fique eufórico e sem saber bem o que fazer, ou querendo fazer tudo ao mesmo tempo... Não se preocupe: as crianças têm uma capacidade infinita de adaptar, perdoar, esquecer e amar. Quem sabe você perceba que todas as vezes que ele olhou nos seus olhos ele sempre buscou um reflexo de seus anseios de criança: um apoio, um consentimento, uma cumplicidade, uma explicação ou, simplesmente, um sorriso. Quem sabe você descubra que ele pode ser um confidente interessado e conselheiro surpreendentemente sensível e objetivo! De fato, a grande surpresa na relação entre pais e filhos não está na herança genética, mas nas diferenças que delineiam o caráter de um novo e especial ser vivente.

Mais tarde, antes de dormir, experimente levá-lo até a cama; converse mais um pouquinho; faça um carinho e lhe dê um beijo de boa noite. Provavelmente ele irá pedir um abraço e, brincando, prenderá você... Meu amigo: aceite essa “prisão” por toda a vida, pois “gastar” tempo com os filhos é investir numa adolescência bem-resolvida, numa maturidade consciente, enfim, num futuro melhor para a humanidade!

Com tudo isso, ele vai demorar um pouco mais para dormir; mas, com certeza, dormirá muito melhor... E você também! Mas antes do sono vencê-lo, ele ainda vai olhar novamente nos seus olhos e, angelicalmente, bocejar, ao que você, naturalmente, não resistirá. Finalmente, ele sorrirá... Sem querer - querendo - você também repetirá o gesto.

Uma criança que boceja sorrindo... Não deve haver maior exemplo de uma alma em paz e feliz!

A partir do dia seguinte, sorria para ele toda vez que encontrar o seu olhar, até que esse sorriso esteja impresso em suas almas de forma que, sempre que um lembrar do outro, ele brote, espontâneo: bálsamo do espírito!

Pais, mães, filhos e filhas: os laços não devem prender, mas abraçar! E se "é de pequenino que se torce o pepino"; também é de criança que se molda, suavemente, o caráter e se ensina a linguagem do coração: linguagem que ensina e aprende com um simples olhar, como as coisas devem ser.

Essa deve ser a verdadeira língua dos anjos!

 

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::sobre o autor::

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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